terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Geagá

Ela estava enfim de férias! Os últimos meses na loja de utilidades domésticas no Pari foram muito cansativos. Muito caroço até pra comprar “tapué”. Era assim mesmo que as clientes falavam. Ela também, quando começara a trabalhar naquele “paraíso do lar”. Gonçala não parava de pensar no recibo de férias: “período de gozo de 24 de dezembro a 25 de janeiro”. Era a felicidade de qualquer cidadão da classe F, de fudido. Como ela estava em êxtase... ia aproveitar as festas de final de ano e ganhar umas gramas. Só nessa época visitava seus parentes, estes, enevoados pelo espírito de confraternização, esqueciam as palavras ditas no decorrer do ano: “ela só procura a gente quando tá precisando”. “Mas com Gonçala, nunca se sabe... ela parece que vive num mundo a parte”. Até isso ela teve que ouvir.
Na sua mente ecoava o mantra: “período de gozo de 24 de dezembro a 25 de janeiro”. Ia lá gozar coisa nenhuma! O corpo que não lhe  venha com essas danações! Ia era purificar o espírito, focalizando suas energias apenas para o que realmente lhe proporcionasse avanço. Como ser humano mesmo. Ela que ultimamente andava à deriva de todos. Via as tragédias na TV e sequer mudava as expressões do rosto. Não era má, mas a vida se mostrava tão injusta que Gonçala ficara apática, muda. Como naquela música: “e não há razão que me governe... eu tou exatamente onde eu devia estar”. Não mais isso, tinha certeza que Pitty não era aquilo que entoava. Ia se reciclar. Era o tempo ideal. Mas por onde começar? Por um instante percebeu, que estava repetindo hábitos de quando estava de folga. O que acontece? Parou por segundos, olhou-se no espelho, concluiu: a casa está imunda! Como pôde se tranquilizar num lar apagado, sem sinal de polidez? É certo que tirava o pó dos móveis, utilizava uma imitação de Veja multiuso, etc, mas algumas teias de aranha saltavam-lhe à vista. E um amontoado de papeis, causara-lhe certo incômodo, tantas coisas, acabavam por lhe tirar seus traços pessoais. Tinha que começar.
O primeiro passo era pôr algo pra tocar, foi até o porta-CD e tomou um susto com a quantidade de discos. Qual escolher? Spice Girls lhe remontaria a infância e também ela se empolgaria na sua imensa tendência à distração. Rodopiaria a casa inteira, porque lhe baixaria a Mel B., sua preferida. “tempere a sua vida” era o refrão chiclete. Não, fizesse isso e quando terminaria a faxina? Olhou o do Ney, mas  a voz dele dilacerava sua alma. Se é que ainda tinha uma... acabou escolhendo Ray of light, da Madonna, o seu ideal de ser humano. Ideal inatingível, diga-se de passagem, um amor platônico. Nunca que alguém nas condições precárias de Gonçala, em sua pequenez existencial, iria alcançar até os próximos mil anos, a condição elevada de Madonna. Never! Mas se esse era seu karma, o que se há de fazer? Tinha era que restaurar a clareza de sua casa, começando pelo seu quarto, um antro de papéis sem nenhuma utilidade. Com exceção dos livros, claro. Mesmo sendo comprados num sebo, eram o seu maior tesouro. Da estante voaram cartões de natal, fotos de ex-namorados, contas de séculos atrás, atestados médicos... por que amontoara tudo isso? Dinheiro? Uma peça de porcelana chinesa servia de cofrinho para as moedas, era seu consolo, pensou: como sou lascada! E já estou com 35 anos e essa vida de parcos recursos... todas, as suas amigas tinham casa própria e carro na garagem. Não, melhor seria não pensar e prosseguir limpando. Afinal, ela não era a G.H., não podia se dar ao luxo de viajar pra dentro de sí. Até porque, ao contrário daquela, seu quarto precisava mesmo da faxina. E Gonçala não tinha muito em que pensar de sí, além de sua pobreza extrema. Quem era Gonçala na fila do pão? A resposta era: um quarto, uma cozinha e um banheiro para deixar brilhando. Não era porque morava numa quitinete do Cambuci, que era obrigada a se consumir na poeira. Trabalha porra! Era assim que baixaria-lhe a Neide e aconteceria a precisada faxina.


Só parava poucas vezes pra bebericar um café e fumar um cigarro, Minister. Lembrou-se, da colega da loja que advertira: “tú trabalha aqui no Pari, remediada que é, e fuma esse cigarro de pedreiro? Já imaginou estando na balada e alguém te pede um cigarro e tú disponibiliza um cigarro de quinta?” Gonçala perdera a linha, óbvio. Mandou um, vá se fuder que ela fuma o cigarro que ela quiser... ela não conhecia essas coisas de sutileza. Mas, enfim, a faxina pesada era o primeiro passo para se livrar não só do amontoado de inutilidades e poeira. Como sabe-se, ela não iria gozar de prazeres carnais ou momentos frívolos após o natal e a virada. Iria passar seu “projeto de vida” a limpo até chegar num estado de “tem de ser por aqui que irei”. Ao chegar à cozinha, areou as panelas, limpou toda a geladeira que só tinha Pepsi, deixou o fogão um brinco e lavou o banheiro. Chegara ao fim a faxina. Estando só pó da rabiola, seja lá oque significa rabiola, foi enfim tomar seu banho. Olhou-se, nua no espelho: era outra. Pálida, pensou: “ quando irei à Praia Grande?”

domingo, 20 de dezembro de 2015

Clarice Lispector e a temática homossexual

Edição mais recente da coletânea 
Quando se fala em Clarice Lispector, as primeiras obras que nos vem à cabeça são: A Paixão segundo G.H. e A hora da estrela. Há também as citações atribuídas a ela nas redes sociais, além das várias maneiras de enquadrarem, rotularem sua literatura, ou seja, a fortuna crítica é imensa, uma vez que, sua obra abrange tantos questionamentos, tanto no que diz respeito aos temas, quanto ao formato em que são construídas as narrativas. No entanto, ouso apontar um aspecto de sua prosa pouco explorado: a temática homossexual. Sim, no livro de contos A via crucis do corpo, Clarice Lispector não só flerta com o tema, mas descamba abertamente para o que se pode denominar “literatura gay”.
Redundante lembrar que Clarice Lispector, quando se é “ela mesma” é aquela escritora voltada para questões metafísicas, espirituais,etc e justamente A via crucis do corpo é o contraponto disso. Escrito por encomenda, numa época em que a autora passava por dificuldades financeiras em 1974. Ao seu lançamento? Um desastre! Críticos literários, acostumados com a Clarice que priorizava a sondagem psicológica das personagens, não engoliram uma obra que abordava personagens com atitudes “grotescas”, por exemplo: senhoras octogenárias com desejos sexuais, mulheres e gays disputando o mesmo homem, moças seduzidas por extra-terrestres,  etc. Especificamente em dois contos, o enredo gira em torno de personagens homossexuais: “Ele me bebeu” e Praça Mauá, mas já no segundo conto do volume há o flerte pela temática, em “O corpo” somos apresentados a um triângulo amoroso composto por um homem e suas duas mulheres, sendo que “Às vezes as duas se deitavam na cama. Longo era o dia. E, apesar de não serem homossexuais, se excitavam uma à outra e faziam amor. Amor triste.” (p. 23)  
A aderência a temas que retratam de alguma forma o universo homoafetivo é estruturada por meio de uma linguagem direta, Clarice vai direto ao ponto, ou seja, apresenta as personagens em seus aspectos corporais “grotescos” pelo modo como estes são reforçados e também lança mão de um jogo de “mostra-esconde” dai temos em “Ele me bebeu” Aurélia Nascimento ostentando uma beleza (máscara) que na verdade esconde sua “vazia” personalidade; Serjoca, que era maquilador de mulheres. “Mas não queria nada com mulheres. Queria homens.” (p. 41) Ambos são amigos e ficam interessados pelo mesmo homem. À medida que Aurélia é maquilada por Serjoca, essa sente como se aquele estivesse “tirando o rosto”. “A impressão era a de que ele apagava os seus traços: vazia, uma cara só de carne. Carne morena.” (p.43) Serjoca, apresenta-se com  naturalidade, com sua falta de maneira com os talheres e também, como uma personagem determinada, que sabe a hora de agir, o que explica o silêncio inicial ao conhecer Afonso, o rico industrial, para só passado as apresentações, depois “falar que não acabava mais”, Serjoca “lançava olhos lânguidos para o industrial”. (p.43). Desnecessário revelar que Aurélia fora preterida pelo industrial, o mais importante é o desfecho que reservara pra ela o resgate de sua identidade, sem maquilagem ou adereços que complementem os seus  atributos.
Bem mais contundente que “Ele me bebeu” é o conto “Praça Mauá”. Novamente, tematiza a rivalidade entre uma mulher e um homossexual, porém as questões de gêneros são mais problematizadas. Com muito humor, claro! Períodos curtos, discurso paródico, estamos diante de um dos trabalhos mais híbridos de Clarice: a coletânea de contos e crônicas A via crucis do corpo. Bem, Praça Mauá apresenta personagens em perfis “enganadores”: Luísa, uma dona de casa, totalmente alheia aos cuidados com o lar, que transformava-se em Carla, dançarina de cabaré. Esta, era amiga de Celcinho, que era de família nobre ,mas na verdade assumira-se em Moleirão, travesti de sucesso do cabaré onde Luísa/ Carla trabalhava. A questão do feminino, do papel da mulher na sociedade é problematizada nesse formidável conto: Luísa não desempenhava tarefas do lar, realizava-se no cabaré Erótica, já Moleirão/Celcinho, trabalhava no Erótica, mas desempenhava tarefas domésticas com êxito. Tanto que adotara uma meninazinha de quatro anos. “Era-lhe uma verdadeira mãe. Dormia pouco para cuidar da menina. A esta não faltava nada: tinha tudo do bom e do melhor. E uma babá portuguesa.” (p.63) Mesmo, com essa inversão de papéis, fica evidente na narrativa, o quanto a mulher precisava evoluir na esfera social. Ser mulher, na figura de Celcinho/Moleirão era desempenhar o papel de mãe e dona de casa. Até mesmo pra sua filha adotiva “Celcinho queria para Claretinha um futuro brilhante: casamento com homem de fortuna, filhos, joias.” (p.63) Esse embate entre “ser” mulher ou apenas “parecer” chega ao clímax quando Carla é chamada para dançar por “um homem alto e de ombros largos”. Este também deixou Celcinho atraído, ele “roeu-se de inveja”. “Era vingativo.” Carla, lançou a deixa:
- É tão bom dançar com um homem de verdade.
Celcinho pulou:
-Mas você não é mulher de verdade!
(...)
-Você, vociferou Celcinho, não é mulher coisa alguma! Nem ao menos sabe estalar um ovo! E eu sei! Eu sei! Eu sei!
Celcinho atingiu o ponto fraco de Luísa/Carla, deixou-a desnorteada, fazendo-a se sentir como “a mais vagabunda das prostitutas”. Segundo a narradora do conto, Celcinho era mesmo mais mulher que Carla. Ressalto que esse não é necessariamente o desfecho da narrativa, este, fica em aberto. Não devemos esquecer que trata-se da pena de Clarice Lispector e nada é tão simples como parece ser. Bem, esqueci de relatar detalhes importantes, como o que Celcinho, era adorado pelos marinheiros da praça Mauá, mas  fazia carão. “Só cedia em última instância”. E também que este, era econômico, pois “tinha muito medo de envelhecer e ficar ao desamparo. E mesmo porque travesti velho era uma tristeza.” (p. 62)
Incomoda-me que poucos conheçam essa maravilhosa obra, “A via crucis do corpo”, nunca um módico volume de contos e crônicas me proporcionaram momentos de alegria, reflexão, tristeza, etc, como essa coletânea onde o belo e o feio, o frívolo e o permanente duelam o mesmo corpo textual, os impulsos da carne que refletem na alma. E claro, sem falar nas personagens homossexuais, com personalidade pra dar e vender. Como disse-me um amigo: “as bibas da Clarice são terríveis!”


sábado, 12 de dezembro de 2015

Da solidão do romance para os palcos

A literatura de Roberto M. Dias:
galgando a leitura compartilhada.


Uma Cama Quebrada é o texto que inaugura a incursão de Roberto Muniz Dias na dramaturgia. Baseado em seu romance Urânios, o texto propõe uma aguda reflexão acerca das tentativas de buscar o amor, desvinculando-o dos formatos que estamos acostumados. Mesmo em relações homoafetivas, preserva-se um amor ideal monogâmico “herança do patriarcado” e é justamente abordando o poliamor (relações poligâmicas) que essa obra mostra-se atual,  como também  fundamental não só atendendo ao âmbito homoafetivo, embora conste de forte representatividade para a dita literatura gay. Pois o que salta das linhas dessa obra é a tentativa de definir o amor, a felicidade e até onde vai a autenticidade de quem se julga pertencente a um modelo extra de relacionamento ou encontrado a saída para a traição. Seria o poliamor, nessa trama, a solução para a infidelidade?
Ao ler Uma Cama Quebrada, corre-se o risco de pensar que estamos diante de uma “condensação” de Urânios, entretanto, no texto teatral percebemos o quanto as personagens estão mais desenvolvidas. Mesmo o galo colorido, aviva suas cores e seus cacarejos tornam-se mais audíveis, o que corrobora para o atordoamento da personagem principal, agora designada como Pedro. Esse aperfeiçoamento das personagens, possibilita ao leitor atribuir-lhes características, a partir da fala das mesmas. Lançam-nos o ethos (imagem social) o que é gratificante para o leitor que busque uma identificação na obra lida. Por exemplo: Ênio, revela-se “um come -quieto”; Dino, com seu senso prático e um certo “distanciamento” das coisas artísticas, um inculto, o que confere ao texto um toque de humor e empatia pela personagem.
O ideal de amor é posto em cheque, amar para muitos significa partilhar das dores e alegrias do outro. Tarefa difícil, ainda mais ao se tratar de “outros”. Seriam afinal, três alianças, três xícaras, três homens, para um desejo em comum? Ao que parece em comum temos somente o desejo de sermos felizes. De termos alguém que supra as necessidades afetivas e os desejos carnais. E para que o encanto do cônjuge não desapareça, seria necessário um olhar de fora que faça aflorar o viço perdido? Que restabeleça o vínculo? Sobretudo que seja com consentimento de ambas as partes? A insana busca pela realização dos desejos esbarra na finitude dos mesmos. Há de se ter coragem de segui-los. O risco é grande e o envolvimento pode trazer à medida que se usufrui as possibilidades, o dilaceramento da alma, a dúvida quanto ao genuíno daquela situação.


Urânios, romance que originou o texto teatral
compõe a Trilogia do Desejo.
Uma Cama Quebrada intercala, em três tempos, elementos vários: a leveza de uma relação amorosa em sua rotina, comum a tantas; a tensão oriunda da descoberta de que os reais desejos nem sempre correspondem às mesmas expectativas dos envolvidos, ou seja, de certo modo estamos presos ao nosso egoísmo, embora que ancorados nas convenções herdadas ao longo dos tempos, reproduzindo modelos de um jeito ou de outro. Essa tensão, “o luto” por qual passa Pedro ao enxergar o significado de seu papel naquela união poligâmica, abarca toda a poesia do texto original (Urânios), aliás, aflora ainda mais, embora o texto teatral tenha que ir direto ao ponto, a poesia se mantém quando a personagem principal é trabalhada de maneira ímpar, com uma riqueza de adjetivos: cativante e ingênua; misteriosa e culta. Ingredientes para uma boa leitura é o que não falta em Uma Cama Quebrada. A literatura Brasileira agradece.

sábado, 5 de dezembro de 2015

"Causos" Cariocas

Estreia ficcional de Fernanda Torres, a capa é solar, a narrativa é notívaga.


A literatura brasileira feita por mulheres ganha mais um nome de peso, falo de Fernanda Torres, personalidade muito conhecida pela eficiente carreira na TV, teatro, além da colaboração em veículos jornalísticos, como a Folha de São Paulo e a revista Piauí. Fernanda lançou há dois anos, seu primeiro romance intitulado Fim, no qual aborda dentre vários aspectos, a morte (daí o título), os maus- costumes de uma classe média dos anos setenta- oitenta, ou seja, as personagens de Fim, sobretudo os cinco homens: Álvaro, Sílvio, Ribeiro, Neto e Ciro, são protagonistas de uma série de amores fulminantes, paixões avassaladoras e de uma efervescente liberação sexual. Cada um à sua maneira, na mútua convivência compartilhava um hedonismo regado a noitadas, drogas e sexo sem compromisso tendo como cenário a cidade do Rio de Janeiro.
O primeiro capítulo é iniciado, em primeira pessoa, por Álvaro, dos cincos o que morrera por último. Este, agora acometido pelas mazelas trazidas pela velhice, rememora, apresentando um rápido perfil ao leitor, a última vez em que viu os quatro amigos. Ranzinza, pessimista, põe-se a reclamar das calçadas esburacadas, dos cachorros da vizinha e da sua vida, a menos interessante dos quatro homens, posto que fora um brocha, a ponto de ser corneado e depois abandonado pela mulher, Irene. Ressalto, que apesar do enfoque ser nos cinco amigos, as personagens secundárias, não são menos interessantes. Constam aí Irene, ex- esposa de Álvaro; Ruth, uma romântica incurável, que embalava Dolores Duran numa entrega fascinante o bastante para atrair Ciro, o mais safado e ordinário dos cinco, o típico conquistador barato. Casou-se com Ruth, mas esta esquecera que “só se ama aquilo que não se tem”. Fora amada por Ciro, até a relação cair no comodismo e o encanto esvair-se a ponto deste reconhecer essa relação, num casal que fazia sexo inúmeras vezes, da forma mais mecânica possível, certa vez ao frequentar um inferninho. Outra personagem interessante é Célia, esposa de Neto, uma típica suburbana, assim como tantas que vemos por aí até hoje, que fazem cara feia para as modalidades ultra- modernas, para as pessoas descoladas.
A linguagem de Fernanda é simples, direta, porém o engendramento de Fim constitui-se, numa crescente explanação dos “causos”, ou seja, as personagens são apresentadas (os principais em primeira pessoa) à medida que um interferiu na vida do outro. Tem-se uma sequência de perfis de familiares, órfãos, viúvas, um bizarro padre, etc, tudo narrado às vezes de forma irônica (ecos machadianos), e também de forma leve, reflexos de seu trabalho como cronista, o que corrobora para a criação de uma narrativa rápida, mas não menos densa. A própria temática da morte serviu de pretexto para narrar a intensidade da vida, esta, pulsante, com a libido a todo vapor, burlando a moral e os bons costumes de uma burguesia carioca do século passado. E assim como os burgueses, artistas e personalidades cariocas, agora, os cinco amigos encontram-se num mesmo lugar: o cemitério da zona sul, São João batista.


terça-feira, 10 de novembro de 2015

A linguagem sexual


André Sant'Anna: humor ácido pra todos os lados.

Ler Sexo, da autoria de André Sant’Anna é entrar em contato com um universo previsível e animalesco tal como o conhecemos. Isso, porque o elemento que domina todas as personagens é o sexo. E para narrar as aventuras sexuais de seus personagens, André Sant’Anna utiliza inúmeros recursos estilísticos que tornam essa narrativa uma obra, onde ora é o humor que sobressai, devido o absurdo, o abjeto inscrito na caracterização das personagens, ora a repetição de alguns termos, sobretudo a própria designação das personagens, daí temos: o Executivo de Óculos Ray - Ban, A Secretária loura, Bronzeada Pelo Sol, A Gorda Com Cheiro de Perfume Avon, O Adolescente Meio hippie, entre outras.
Por vezes, pode-se pensar que o nível social das personagens interfere nas relações sexuais das mesmas. Sexo e poder formam uma bela combinação, não? Em Sexo, o poder econômico, assim como é na vida real, é garantia de uma vida sexual satisfatória, personagens como  O Executivo de Óculos Ray - Ban “sempre fazia sexo com secretárias louras”, ao passo que O Negro Que Fedia, e era faxineiro, “não fazia sexo há muito tempo”. No entanto, esse viés atinge o cúmulo do patético na descrição minuciosa e “no popular mesmo” do ato sexual entre O Jovem Executivo De Gravata Vinho e Listras Diagonais Alaranjadas e sua Noiva Loura, Bronzeada Pelo Sol e também, entre O Jovem Executivo De Gravata Azul Com Detalhes Vermelhos, e sua respectiva Noiva Loura, Bronzeada Pelo Sol. Ambos os “Jovens Executivos” foram extremamente bruscos e dominadores, deixando-as magoadas. E haja imaginação para descrever a relação sexual, além do que ela é mesmo, ou seja, André Sant’Anna criou personagens vários, e a cada um deles atribuiu uma respectiva maneira de vivenciar o sexo de acordo com a cultura vigente no espaço-tempo da personagem. Doravante tem-se o adolescente cheio de neuroses e até uma  Apresentadora Do Programa de Variedades Da Televisão e um pop star do reggae, O Negro Que Não Fedia, estes são descritos envoltos numa aura poética, a Apresentadora e sua performance sexual são atribuídos adjetivos como: resplandescente, extasiante, sublime, etc. Esse enlace até , “poderia fazer parte de um moderno ensaio fotográfico erótico em preto e branco, digno dos mais sensíveis fotógrafos de arte.” (p. 85). Me veio a mente Seal e Heidi Klun no clipe de Secret. Somente especulação, claro já que o clipe é recente se comparado ao lançamento de Sexo há mais de uma década atrás.
Para muitos estudiosos e críticos literários, André Sant’Anna é um transgressor, ou, pelo caráter de denúncia de suas narrativas, um hiper-realista. Sexo, pode soar um absurdo para quem espera por “palavras sutis ou requintadas” (em André Sant'Anna?) e sofreu o choque com o despudor levado a enésima potência das narrativas. Entretanto,  o compromisso com a oralidade e com a representação mimética da realidade, tornam a classificação “hiper-realista” assertiva, embora Sexo comporte uma escritura com inúmeras vertentes a serem exploradas, tamanho é o afinco e domínio extremo do narrador, este mesmo não criando uma narrativa linear, detém total controle sobre suas personagens, sempre trazendo-as à cena a seu bel prazer e deleite do leitor. 


  

sábado, 31 de outubro de 2015

Sobre Laurence Anyways

O ator francês Melvil Poupaud é laurence: determinada

Laurence anyways é o terceiro longa dirigido pelo “jovem” cineasta e ator canadense Xavier Dolan (Amores imaginários). A referência  jovem diretor, já é um clichê, pois o moço chamou a atenção da crítica e de cinéfilos em geral logo em seu debut aos  19 anos, com o semi – autobiográfico “Eu matei minha mãe”. Em seguida veio Amores imaginários, ainda exacerbando a beleza de sua própria natureza privilegiada , apostando em trilhas sonoras que vão do clássico ao indie, e também apresentando  uma esplêndida fotografia .
Em Laurence anyways, saem os arroubos exibicionistas (narcisismo, vasta bagagem cultural) e entram o drama e por conseguinte, a essência das personagens, ou seja, o roteiro ultra dramático permite que se extraiam atuações catárticas dos atores, aqui isso fica a cargo de Melvil Poupaud, como Laurence “anyways” e Suzanne Clemént, como Fred, esta entrega uma Fred arrebatadora, a qual lhe rendeu prêmio em festivais e um novo filme de Dolan: Mommy. Bem, atendo-se ao filme em questão, Laurence anyways é daqueles filmes surpreendentes, aborda um tema comum, mas envereda por outra nuance: Laurence Alia é casado há dois anos com Fred, e em seu aniversário de 30 anos revela à esposa que pretende assumir uma identidade feminina, pois vivera uma mentira durante toda sua vida. O choque é iminente a todos que recebem a notícia, porém, é no trabalho de Laurence (professor universitário) onde ele é menos compreendido, resultando em sua demissão devido a queixas formais de pais de alunos, uma vez que Laurence, num ato revolucionário assumiu a sala de aula em trajes femininos, o que para a época remontada, o ano de 1989, era um tabu.
O foco desse filme não é a transexualidade como estamos acostumados a ver, Laurence anyways aborda a transgressão de gênero, mas não cai no debate homossexual em si, pois a personagem de Melvil continua apaixonada pela esposa, que no começo até o ajuda a assumir sua “nova” e verdadeira identidade, uma vez que Fred com sua cabeleira vermelha e amor  pelo marido o tenta compreender, chegando a explodir em sua defesa  na cena em que uma garçonete lhes vem com inconveniência a respeito da transexualidade de Laurence, ou seja, sai a Fred “jovem descolada” dando a vez para a esposa que tem seu ideal de marido caído por terra, o homem másculo ficara para trás, cabendo a ela decidir até onde seguir ao lado de Laurence. Por isso a explosão em público, o “foda-se!” Quem sabe o que a própria está sentindo senão apenas ela? Como se dão o direito de julgar o comportamento alheio?
Suzanne Clemént divando
Talvez às duas horas e meia de duração do filme canse alguns, mas é inegável a criatividade desse trabalho, a “revolução” de Laurence Alia perante uma sociedade despreparada para o diferente o “especial”, que de tão especial transforma-se num estereótipo, só pra lembrar a desculpa dada por aqueles que o demitiram, ou seja, para pessoas anti- convencionais há atividades específicas, como a dizer que os gays trabalham como maquiadores, cabelereiros, por exemplo. No caso de Laurence, sua demissão possibilitaria o tempo para desenvolver a escrita, o que aconteceu: ele se dedica a escrever seu livro e ao finalizar, envia um exemplar a Fred que ao receber nos brinda com uma arrebatadora “cascata emocional.” Certamente há várias cenas que ficarão na memória do espectador, tamanho é o afinco visual empregado por Dolan, como na festa em que Fred faz a Claudia leite e extravasa toda num decote em V, só no glamour ofuscando tudo e todos.



sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sujeito inexistente

Cada vez encontrando algo, ou alguém, para dar continuidade à sua trajetória. O perigo é que absorvendo as distrações encontradas esqueço quem sou, para onde irei. Um poço sem fundo, sempre há algo que instiga, atrai, caio no mesmo erro. Não me atenho ao essencial. Passo despercebido, o típico “café com leite” ou uma pessoa neutra, o não fede e nem cheira. Cadê o  equilíbrio que rogo em preces e mantras? Os dias voam, ficam as lembranças dos obstáculos, das dúvidas, da preguiça. Num incessante “por quê”? É menos o medo e mais o egoísmo? O inverso? Às vezes, sonho que ao acordar serei outro, um que não estranhe “o outro”, o meu semelhante. Que karma! Só maçadas em minha mente e nem o meu visual eu altero, que dirá o que é interior. E paga-se um alto preço por ser quem se é. Mentalizo o mantra e um sorriso se faz. Procuro uma estrela no céu paulistano à toa, serei minha própria estrela esperando minha hora. Quisera esquecer todas as ilusões que me perseguem; quisera me desdobrar em tantos “eus” para dar conta do que esperam de mim, aqueles que tenham alguma estima por mim, sujeito indefinido. Melhor fosse oculto, afinal “todos” vivem a ilusão de algo, dando margem para as mentes trabalharem os “disse-me-disse”. Não invejo nada, nem ninguém, mas por vezes entro num estado intolerável. Mas, como diz Clarice: “é por enquanto, enquanto se vive”. Então tá. Quer dizer, nesse momento (infinito) tá osso, o cigarro quebra um pouco o fastio sentido. A busca pelo sentido de tudo parece não ter fim... preciso ler algo machadiano, talvez teria mais razões para sentir-me assim, com essa angústia, esse asco de tudo. Eu, "o que nega as origens", o "inteligente", o "viado", o"fi de fulano" o "que não fala", o" louco", o "metido", o"???" ... não eu não sei quem sou, que porra que tou fazendo aqui. Até agora não fiz nada de que posso me sentir importante, mas seria necessário? Enquanto se vive é sempre hora de deixar sua marca em algo, na vida das pessoas. Acho que é porque tive um bad day, por vezes veio a ideia de ficar num deserto, mas nem de sertão gosto...  

domingo, 18 de outubro de 2015

O Armário - vida e pensamento do desejo proibido, algumas considerações

A obra, já em sua 4° edição
A expressão “sair do armário” é bem conhecida, sobretudo, porque o assunto a qual se refere é tão polêmico a ponto de ser banalizado. Entretanto, essa banalização não significa que a sociedade está menos preconceituosa que há décadas atrás. Hoje, o preconceito mostra-se de forma velada, ainda assim vez ou outra,  ouvimos algum discurso que incita a intolerância aos homossexuais, a nós, gays, lésbicas, transexuais e todos que não seguem a cartilha da heteronormatividade.  Basta lembrar a polêmica da última edição da parada gay de São Paulo, os ataques sofridos pela transexual que desfilou crucificada como símbolo de todo preconceito por qual passamos. E a atitude foi incompreendida, inclusive, por pessoas da própria categoria LGBTT.
Bem, o que me leva a escrever sobre isso foi minha leitura de O Armário – vida e pensamento do desejo proibido, de Fabrício Viana, escritor e militante da causa como poucos. Em O Armário, Fabrício lança mão de sua própria experiência como indivíduo que passou pela temida e árdua “saída do armário”. Como maneira assertiva, Fabrício optou por um tom informal narrando suas próprias descobertas da sexualidade, pois como a questão é delicada e quanto mais jovem for o indivíduo-leitor a precisar ter contato com essa obra, o eficiente é que a assimilação do conteúdo seja rápida. Mesmo quando o escritor aborda um vocábulo mais técnico ou rebuscado, abre-se parênteses para explicar o termo. Além de representar um marco de coragem e ousadia por discorrer de situações demasiadamente pessoais, fato assertivo tendo em vista a gravidade que o preconceito representa na vida de cada um que passe pelos mesmos percalços. Embora, seus relatos também constam de situações engraçadas até, como, ter recebido de um aspirante a namorado seu, um ursinho perfumado enviado pelo correio e também quando da vez que, tímido e só na balada resolveu “olhar para uma lata de cerveja”, o que resultou num mal estar no dia seguinte.
Já na segunda parte de O Armário, Fabrício abarca a homossexualidade sob a perspectiva de ciências, como a antropologia, a psicologia, entre outras, expondo conceitos e exemplificando como são aplicados nas atitudes de pessoas comuns, que não conhecem os processos da formação da personalidade e da própria sexualidade. Essa propensão a não questionar a sexualidade, foi e é fomentada pelo cristianismo em todas as suas vertentes, o que só intensifica o preconceito contra toda relação afetiva que fuja do convencional heteronormativo. Os exemplos mostrados, e são vários, constituem da justíssima intenção de fazer com que o indivíduo que sofre preconceito, saiba de seu valor como ser humano e lute para expressar dignamente seu “eu” desprendido das imposições da família, de uma sociedade preconceituosa.

A acuidade empregada na escrita de O Armário encontra-se, sobretudo na segunda parte, onde Fabrício traça vários perfis de como o preconceito está arraigado na sociedade, por exemplo, nos casos citados de homofobia internalizada, onde o preconceito parte daquele que não saiu, de fato, do armário (e são muitos) e carrega consigo opiniões negativas sobre a homossexualidade. A eficácia desse livro está na forma como Fabrício discorre, argumenta com embasamento teórico o quanto o indivíduo precisa se libertar das imposições (desumanas) de uma sociedade que não prima pela individualidade do próximo. O Armário representa um marco de libertação. Sua leitura é imprescindível, porque são raros os veículos que prezam por mostrar a realidade de quem sofre preconceito, sem aqueles estereótipos que estamos acostumados a ver. 

P.S. O livro O Armário não se encontra em livrarias, pode ser adquirido através do site da editora Orgástica: http://editoraorgastica.com/produto/livro-o-armario-sobre-a-homossexualidade Boa leitura!

sábado, 17 de outubro de 2015

Ânsia

      Joguei fora o cigarro, ainda pela metade, o amargor intensificou o momento de tal forma que implorei que a lágrima rolasse. Os segundos tornam-se infinitos nessas ocasiões, mas a vida é infinita diz à crença que abraço. Tento ao menos, envolto em mantras e constantes reflexões.  Logo acendi outro cigarro, lembrando que outrora xingava em pensamento quem emporcalhava as calçadas com as bitucas. E aqui estou, na sacada me sentindo a G. H. sem valise, sem nada em que pensar, sentindo - me à margem de tudo, sem nenhuma identificação com nada, nem ninguém. Não, não a vida não é só isso, tudo tão previsível e a minha eterna culpa em não se permitir juntar-se a todos, a me despersonalizar. Mas, quem sou? Que raio de personalidade, quando o que importa, ao que parece é sobreviver perante uma cruel incerteza?

       O fardo da sensação de coisas pendentes, o silêncio que consente, mas não apaga a decepção.  Acentua, prolonga a mágoa, a desilusão. E o que conforta é a contenção, não tumultuar o que quer que seja. Parece-me, que muita ignorância paira sobre mim, meu maior mal, a inflexibilidade. Sabendo-se do infinito, deixo fluir sem pensar a longo prazo. Mas a sensação de tempo perdido me aniquila, seja na chance perdida, a promoção que não peguei, o olhar que não correspondi... tudo me é sufocante. Ninguém merece esses instantes intoleráveis. Tudo incomoda, a conversa dos outros, o barulho dos carros, o vento... , e anseio pelo estalo em que passa o tormento, um bom livro pra reler, ou um não lido, tantas coisas pra se descobrir... o  dócil bichinho de estimação, uma música de Florence and The Machine e mais uma da dezenas coisas que complementam o nosso vazio. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Um buquê improvisado: os inevitáveis espinhos

Um buquê improvisado compõe a trilogia acima.
O romance Um buquê improvisado é o segundo trabalho do escritor piauiense Roberto Muniz Dias. Para quem não conhece a literatura de Roberto, sugiro que comece por Um buquê improvisado, as razões são várias, destaco aqui, a temática do amor, ou melhor, a busca e o desejo de encontrar a plenitude no amor, mesmo quando este é incompreendido, o que acontece geralmente por questões familiares, culturais, religiosas, etc e também, a contemporaneidade da ainda polêmica questão do casamento homoafetivo.
Em Um buquê improvisado entramos na vivência de J. , personagem que após diversas tentativas de libertar-se das convenções e ditames do cristianismo, finalmente retoma as rédeas de sua vida e assume, contraindo um matrimônio com o amor que outrora sucumbia às pressões da moral religiosa. O próprio J. crescera em ambiente caracterizado pelo autoritarismo paterno e pelo singelo carinho e submissão de sua mãe.
Podemos dividir Um buquê improvisado em dois aspectos, primeiramente temos uma narrativa de prazer e posteriormente, uma narrativa de fruição. Constando de vinte capítulos, na primeira metade,  prevalece o cunho da ação das personagens, entrecortadas no entanto, por curtos flashs de memórias de J. que recobra as várias e longínquas tensões por quais passou. Dai, surgem elementos dignos de uma telenovela: paixões, intrigas, ingenuidade, etc. Claro que os diálogos jamais caem na banalização, revelam todo um cuidado com a linguagem, denotando uma prosa poética e sofisticada. Cuja poesia, está inserida, por exemplo, na descrição dos momentos em que J.  masturba-se no banho sob o olhar inquisidor da “esposa de fachada”, que engravidara de J. ,razão maior desse matrimônio, cujo início desse enlace exemplifica a epígrafe desse livro: “ Todas as grandes ações e todos os grandes pensamentos têm um começo ridículo.” A frase do escritor francês Albert Camus, define a incursão de J. ao relacionamento heteronormativo, mesmo este sabendo de sua orientação sexual, de sua homossexualidade.
Após diversos acontecimentos traumáticos na vida do protagonista J. , a narrativa passa a concentrar-se, primordialmente, na busca incessante por sua identidade, uma vez que, um acidente provocara-lhe a perda da memória. Doravante, ele dispõe de várias anotações em um diário, as quais, os registros que descrevem uma vida em segredo, amores imprudentes e certos temores, dúvidas, etc, somados ao silêncio e solidão levaram-no a recobrar em pequenas parcelas o seu “eu”.  Esse doloroso percurso de J. envolto em longínquos registros, “os papéis amarelos”, correspondem à fruição da narrativa. Cabendo ao leitor mergulhar com J. no abismo de sua agora “apagada” existência. Ao passo que a personagem recobra sua identidade, a narrativa retrocede para a infância de J. , da formação de seu caráter, oriunda de sua criação: de um lado um pai severo e ausente, do outro uma mãe doce e apegada as flores e o pequeno J. entre esses dois extremos.
As flores que improvisaram o buquê de J. , constam do momento pós- desilusões e traumas, atestam a superação e a reconquista do verdadeiro amor, que tudo suportou para ocasionar no presente enlace matrimonial. Este, livre de chantagens, angariando apenas o necessário à realização afetiva: a vontade mútua de ambos, que sequer lembraram do elemento de praxe, um simples buquê. Afinal, do quê importaria um buquê, diante das provações que tiveram que passar? Coube aos convidados improvisarem um. Além do mais, as flores que carregam maiores significados nessa obra, são as flores cultivadas pela mãe de J. estas, simbolizam uma vida, embora não durem muito, vivem o bastante pra irradiar frescor e beleza.



domingo, 27 de setembro de 2015

Amor + cinema = Almodóvar

Filme espanhol de Pedro Almodóvar
De Salto Alto (Tacones Lejanos) é um filme de 1991, época em que Victoria April era a queridinha da vez de Pedro Almodóvar. Pouco se comenta sobre essa película, entretanto considero um dos grandes destaques de sua filmografia. De Salto Alto traz à tela o conceito de Kitsch, muito utilizado por Almodóvar. O sentimentalismo exagerado, a representação inautêntica, beirando a caricatura, mas que culmina na exacerbação das emoções demasiadamente humanas.
Vemos uma elegante Victória April num aeroporto à espera da mãe que não vê há quinze anos. O semblante aflito irrompe num flashback, a infância difícil de Rebeca, em que sempre fora preterida pela mãe (Marisa Paredes) devido à carreira artística desta; as inúmeras viagens que tinha de fazer, além da hostilidade do padrasto, o qual a própria Rebeca criança encontrara a solução pra livrar-se do mesmo sem deixar pistas. As escutas atrás da porta, a carência do afeto materno transformaram-na num ser apreensivo, difícil de confiar nas pessoas a seu redor.  O reencontro das duas, após tanto tempo, dará início a uma série de surpresas e acerto de contas com as várias cirandas mirabolantes, que em Almodóvar sempre dão o tom de seus enredos e funcionam.
O melodrama envolve além de mãe e filha, outras personagens como a travesti Letal, melhor amigo de Rebeca, que faz performances imitando a cantora Becky del Páramo, nada menos que sua mãe,  e o encontro dos três, além de seu marido, acarreta em tiradas cômicas e também hostis, da parte deste, explicitamente desconfortável na presença de uma travesti, além de ter tido um affair com Becky no passado , ou seja, Almodóvar explora, principalmente, em De Salto Alto o conflito entre mãe e filha. Entretanto, outros elementos constituem o roteiro, como o mencionado no início, Kitsch representado pelas performances de Letal e lá pela segunda metade do filme por uma dramática Becky Del Páramo envolta em lágrimas e glamour. E claro, o cômico dá as caras quando Rebeca irrompe em risadas ao apresentar em seu telejornal a notícia de um desastre. Além das notícias serem transmitidas em libras por uma moça que é a personificação do cômico.

Para tornar mais densa a narrativa, o marido de Rebeca, Manuel, é assassinado e as suspeitas recaem nas três últimas visitas que este recebeu: Rebeca, Becky e a moça que traduzia as notícias para a linguagem dos surdos, as quais são investigadas por um obstinado (apaixonado por Rebeca) juiz. Este, também com segredos e disfarces próprios que posteriormente virão à tona. Ressalto que, apesar da inserção de personagens secundários, devidamente costuradas para a resolução da trama, prevalece aqui, os conflitos internos das personagens principais que tiveram que lidar com as paixões avassaladoras e as difíceis escolhas do destino. Este, ao final, reservou a oportunidade do perdão e abriu espaço para o verdadeiro amor.

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Devaneios e paetês

Ele tinha um amigo que era tudo, ou melhor, queria ser tudo num tempo onde mal levantamos e logo vamos dormir com a sensação de que não cumprimos todas as obrigações.Seria carência? não,ele era um sonhador, mas com os olhos para a realidade mesmo. Então Luc era cabelereiro, maquiador,Dj de funk, diarista, designer gráfico e, sua face mais real,  seu verdadeiro talento: drag queen, atuando sob o alter ego: Luc Divine.
Caprichoso e cheio de manias (frescuras mesmo) Luc Divine ficava irreconhecível caracterizado. Em nada lembrava o mocinho de jeans e tênis que fazia as sobrancelhas das tiazinhas no salão Deusa da Penha. Casa de ferreiro, espeto de... kit de maquiagens, perucas da Vinte cinco de março, cosméticos da Mary key, fragrâncias da Victoria secrets... tá meu bem? a gente é pobre, da periferia ,mas nóis pode parcelar pra ter esses luxo. A casa de Luc mal cabia seu arsenal de montaria, digo os assessórios de beleza, em sua maioria, para o uso dele mesmo, ou dela, uma vez que o maior sonho de Luc era ser ninguém menos que a Madonna. Ele sequer pensara que uma Madonna só vem ao mundo a cada dois milênios, de acordo com o empirismo nosso de cada dia. Bem, ele (a) tinha esses devaneios vez em quando, o que não o impedia de ar-ra-sar quando se montava para performar diviníssima, como naquela festa baphonica em que ela ofuscara todos que lá estavam . As outras drags não sabiam se elogiavam ou atiravam-lhe o salto na cara de Luc, tamanho era o brilho e carão que ostentou na festa pós Gay Parade Piracuruca. Isso mesmo, além do mais ela se montou na terrinha, pois há tempos a cultura gay extrapolou o circuito Rio - São Paulo e como disse aquela gay da internet: Bicha bunita não se esconde.
Apesar do talento, a carreira de drag ainda não mostrou progressos para Luc, numa certa performance, para a qual ela ensaiara exaustivamente, um amigo seu ficara encarregado de filmar seu show. "Vai ser um arraso a filmagem" ela dizia. "Duda é inteligente." Uma pena Duda e as coisas práticas da vida não se darem bem. Preguiça pura, ele é uma pessoa totalmente contemplativa, absolutamente avessa à tecnologia, enfim, lunática só pode. Duda mal sabia segurar a câmera e só filmou os paises baixos de Luc. Por pouco Luc não desceu-lhe a mão na cara pálida de Duda que não era a Macabéa, mas seu rosto pedia tapa. Clarice deve está revirando-se do túmulo, ah loka. Para piorar de vez, Luc não fazia linha popular, logo perdia espaço para as drags bagaceiras que atraiam o aplauso dazamiga também da bagunça. Ainda bem que Luc não fora gongada nessa performance, bateu cabelo, fez espacate, carão, tudo ostentando mais purpurina que os enfeites da Avenida Paulista em fim de ano. Toda semana, pelo uma vez ela vai à Vinte cinco e não volta com menos de sete sacolas de ítens draguísticos, crendo que um dia, uma noite, o sucesso baterá na sua porta e ela será tão requisitada quanto a própria, presidenta? da nação. Sim, pois ele (a) leva muito a fundo os elementos e ideais do universo drag, tanto que seu sonho mais recente mesmo, é participar de um programa tipo o Ru Paul's Drag Race. Na versão tupiniquim. Óbvio.




domingo, 6 de setembro de 2015

Impressões sobre "Que horas ela volta?"

Nesse feriado, aproveitei para conferir o premiado filme “Que horas ela volta?”, estrelado por Regina Casé (ixxxxqueaanta) e dirigido e roteirizado por Ana Muylaert, que ao que parece, será um sucesso de bilheteria por aqui devido ao roteiro que aborda importantes questões sociais, tão em voga ultimamente, e às interpretações de Regina Casé e Camila Márdila, que foram agraciadas no festival de Sundance dividindo o prêmio de melhor atriz.
“Que horas ela volta?” aborda, entre outros temas, a relação patrão e empregado, os limites estabelecidos há décadas que acarretaram nas desigualdades sociais como bem conhecemos. Val (Regina Casé) deixou Pernambuco para viver em São Paulo onde conseguiu um trabalho de babá e doméstica num bairro nobre. Lá, ela desempenha sua função com uma submissão de tal modo que acaba supostamente inserida como parte da família, inclusive por ter desenvolvido uma grande afeição por Fabinho, de quem foi babá. No entanto, Val representa o ideal antigo de servidão, de segregação social, o que é abalado quando sua filha que ela não via há dez anos vem a São Paulo prestar vestibular. Os espaços começam a ser questionados por Jéssica (a filha), uma vez que a mesma pretende cursar arquitetura, e não esconde o incômodo pelo fato da mãe se contentar com um minúsculo quarto de empregada e receber ordens a todo instante.
A interpretação de Regina é um misto de drama e comédia, esse último é oriundo tanto da incorporação dos traços nordestinos as expressões, sotaque, gesticulações, como também pelo próprio ethos da personagem que caracteriza objetivamente o ideal daqueles que seguem fieis aos seus princípios, suas origens, que não questionam valores sociais, apenas se inserem numa categoria estabelecida que veladamente, acaba por ser excludente e acentua os preconceitos e desigualdades. Tal qual a reação de sua patroa , quando sua filha se mostra confiante para prestar uma prova, onde as chances de um pobre ser aprovado são mínimas. A Madame,  exprime um desdenhoso: “ é, o país tá mudando” ao passo que a autonomia de Jéssica atrai a atenção de seu esposo e do filho, de quem Val fez o papel de mãe.
O título “Que horas ela volta?” corresponde à ausência das mães biológicas, Jéssica foi criada longe de Val, que por sua vez criou Fabinho e teve que responder diversas vezes quando a criança indagava pela mãe, que assim como Val, o trabalho não possibilitaria a proximidade com seu rebento, embora com as imensas diferenças designadas pelo nível social de ambas. “Que horas ela volta?” é o tipo de filme que, certamente agrada e também provoca afrontas, pois cutuca aqueles que são contrários a quebra de antigos paradigmas, principalmente no quesito “nova classe social” ou classe emergente, representada na fita por Jéssica que acredita na mudança e que o proletariado pode e deve conquistar um espaço maior.    


sábado, 29 de agosto de 2015

O Fantasma de Canterville

O Fantasma de Canterville foi o primeiro contato que tive com a grandiosa obra de Oscar Wilde, logo fui seduzido por aquela narrativa que, a princípio, como foi nas primeiras leituras que empreendi na vida, julguei ser uma estória infantojuvenil. Embora, pelo aspecto fantástico, satírico e ainda dispor de um fundo moralizante seja realmente aconselhado aos jovens que iniciem suas incursões literárias por este O Fantasma de Canterville ou outros contos Wildeanos, como O príncipe feliz; O amigo devotado, por exemplo.
Certamente, muitos conhecem esse conto, onde, como ecoa a expressão popular “o feitiço vira contra o feiticeiro”, pois o Fantasma de Canterville ver seus três séculos de vitoriosa dominância assombrosa em seu castelo ser ameaçado quando uma família americana muda-se, devidamente advertida sobre sua maldição, para aquele lugar. A partir daí, toda a aura supersticiosa e outros traços que definem as linhagens inglesas e os habitantes de “sangue azul” sentem-se insultados pela família americana e suas maneiras sem o refinamento, tão característico do velho mundo. Cujo refinamento e outros aspectos da finese inglesa  são personificados pelo fantasma de Canterville, além de ser um traço característico da estética de Oscar Wilde.
O fascinante nesse conto é a maneira de Oscar Wilde, sutilmente e até mesmo de modo lúdico expor a superficialidade da aristocracia inglesa, na época (século XIX) presa a um egocentrismo totalmente alheio à praticidade e ideal de progresso do novo mundo, representado aqui pela família americana que para qualquer problema tinha a solução, inclusive para enfrentar um fantasma com um histórico de terríveis crimes sobrenaturais. Esse pragmatismo americano assume contornos satíricos, apesar da sutileza, onde a vítima é a própria sociedade inglesa e seus hábitos e crenças ultrapassados que acabam sobrepondo-se aos nobres sentimentos da humanidade.

O fantasma de Canterville é um texto grandioso por conter elementos diversos como: mistério, humor, crítica social e um olhar para a nobreza do verdadeiro amor. Não surpreende servir de título as várias coletâneas de contos de Oscar Wilde. Sua leitura, consequentemente levará o leitor a conhecer mais da fundamental e maravilhosa obra de Wilde em suas peças, contos, cartas e sua obra prima: O retrato de Dorian Gray.   

domingo, 23 de agosto de 2015

Uma Cama Quebrada e a Alma Devastada


“Nada melhor do que o inusitado para definir ou redefinir o velho.” Este é um excerto da obra literária Urânios, da autoria de Roberto Muniz Dias, que resultou numa adaptação teatral intitulada “Uma Cama Quebrada”. O texto aborda um tema delicado, o qual, poucos  exploram com profundidade esse aspecto do comportamento humano. Falo do poliamor, termo que se refere  ao relacionamento aberto, cujo assunto, divide opiniões mesmo em mentes mais esclarecidas da sociedade ultramoderna.
Em “Uma cama Quebrada” vemos, sob a perspectiva de um terceiro integrante, um relacionamento homoafetivo “supostamente estabilizado” em seu cotidiano onde os componentes (casal + novo integrante) expõem na dinâmica do lar, suas aptidões, seus gostos, etc. Todavia, acabam trazendo à tona revelações até então impensadas. A tentativa de juntar o “amor proteção” e o “amor alimento” assume contornos outros, que não o esperado por quem adentra nessa modalidade poligâmica. Seria a busca pelo amor o ideal de todo indivíduo? Amor e sexo podem ser indissociáveis? Seria o olho da verdade restrito a um único indivíduo? Muitas são as questões que o intenso texto de Roberto Muniz Dias incita e a acuidade, a exploração que atinge o âmago dos desejos responde a maioria delas. Fator primordial, sobretudo a juventude que tende a não procurar informações sobre o que pode implicar a inserção nos relacionamentos e suas modalidades.
O drama intercala a rotina do casal (em terceto) com um monólogo em que o personagem principal dialoga com um quadro de um galo colorido, feito a pedido de um de seus pares. O outro “amor?” pedira que pintasse um poema de sua autoria. Essa atitude estabelece um abalo à harmonia do casal, pelo fato do “outro”, que pediu a pintura do galo, desconhecer o fato daquele gostar de escrever. É traço marcante da escritura de Roberto Muniz Dias a busca pela essência das sensações, dos desejos que por vezes resvalam em ecos da tradição, que inscreve no presente o significado de cada coisa. Por isso o espanto com a ausência de fotografias do casal. Onde estariam às lembranças da vida conjugal, as viagens, comemorações?  Seriam eles um casal “feliz”? Sua inserção naquela relação visava realmente o quê? Seria aquele casal, agora em terceto, a representação de uma relação já fadada ao fracasso?

Uma Cama Quebrada, tem o mérito de abarcar de modo autêntico e ousado as questões que muitos tocam apenas superficialmente. A encenação, expõe ali, aos olhos da plateia um retrato fiel da contemporaneidade em sua busca da resposta a seus anseios amorosos, ou seria suas carências? Mesmo que para isso, tenha que contrariar as regras estabelecidas, as convenções ou o que pode ser mais pungente, quando a própria identidade individual encontra-se esfacelada em decorrência das desilusões.

sábado, 15 de agosto de 2015

Envolto na obra A Teia de germano

Há um dito popular que apregoa “não julgar um livro pela capa”, no entanto, se o livro em questão for A Teia de Germano, de Roberto Muniz dias, esse dito revela-se totalmente descabido, pura falácia. A imagem da capa compõe-se de um mural de correspondências, algumas até sobrepostas a outras, tendem a incutir a ideia de que o conteúdo dessa obra seja um conjunto ordenado de diversas cartas, ou seja, a teia a qual o título alude. Todavia, de que forma esse conjunto (a teia) é engendrada? Que o leitor se prepare para adentrar numa teia instigante, intensa e que uma vez imerso nela, não há como desprender-se sem compartilhar das angústias e buscas das personagens.
O cerne dessa narrativa é uma teia oriunda de um personagem de uma importante obra: “Ilusões da grandeza humana”, que tem Germano como personagem que se desenvolve à medida em que flui o enredo da referida obra de autoria de “Erich H. Writ”. Isso mesmo, A teia de Germano é composta por uma intensa exploração da metalinguagem, como bem observou o jornalista Ben Oliveira. Por isso a opção pela  ficção dentro da ficção, ou melhor, ficções, cada uma com seu respectivo grau de intensidade e reflexão. A premissa soa simples, um excêntrico e renomado escritor, Erich, incube a um “escritor de um livro só”, Lúcio, que se encarregue de suas memórias, entretanto, ao passo que este analisa cartas, fotografias e recorda os três romances aclamados de Erich para escrever sua biografia, envolve-se de maneira obsessiva com os fatos suscitados pelas vivências do outro ( Erich) que começa a enclausurar-se e viver sob a tormenta do seu próprio e traumático passado de abandono.
Lúcio, é o personagem mais angustiante dessa narrativa. Impossível não se sentir tocado pela melancolia que o acompanha em sua posição  existencial indefinida, alocada entre o presente e o passado. Numa tentativa de fundir os dois, além de  sua insana busca pela essência das coisas tal qual, as passagens em que adquire uma vitrola para resgatar um hábito que fora de seu pai. O que é “vivenciado” de forma ritualística, na verdade, Lúcio fez de sua vida um ritual em todos os aspectos, sobretudo nos momentos de solidão em que ele é mais depressivo que a burguesa G.H. e sua comunhão com a barata. Lúcio, entra em comunhão com os  inúmeros relatos que lhe vieram, das estórias ouvidas na infância, passando por Moby Dick, até Ilusões da Grandeza Humana, obra que lhe apresentou Germano e claro, os clássicos da literatura universal.
Devo ressaltar que A Teia de Germano consiste em bem mais que a reconstituição de uma vida, de um autor e suas obras (Erich H. Writ e sua literatura) através de Lúcio. Aparecem outras personagens importantes que foram envolvidas ou influenciadas por Germano, como Isadora, um significativo caso amoroso de Erich, além de Isabela, a agente literária que pouco aparece na narrativa, mas constitui  “peça” fundamental para compreendermos  a formação dessa intricada e envolvente teia. A literatura de Roberto Muniz dias é um emaranhado de sensações, descobertas e movimentos que nos revelam um penetrante olhar para o que somos e por quê?


sexta-feira, 31 de julho de 2015

Tá boa!

Foi ao Rio com um primo e ficou hospedado na casa de parentes. Era um primo de terceiro grau, muito hospitaleiro que pra felicidade dos turistas morava próximo dos cartões postais da cidade. Ele e seu primo, ambos solteiros, livres leves e soltos foram logo no primeiro dia à praia de Ipanema com o primo residente fixo fazendo às vezes de guia turístico. O mar bravo que estava... turistas disputando cada centímetro da areia tomada de guarda-sóis, chinelos e o sol no grau ideal para quem quisesse encobrir a palidez.
O moço franzino e pálido não gostava muito de sol, fresco que era e cheio de mimimi, era um gayzinho todo metido, sem ter onde cair morto. Já seu primo já era bem estabilizado e tinha várias casas alugadas na favela, quer dizer, na comunidade da Bacia povoada majoritariamente por conterrâneos seus do Piauí, lá da terrinha onde o mocinho mimimi sequer voltara depois que fixou-se em Sampa. Ele é daqueles que só por andar pelas ruas em seu ofício de office boy  sente-se pertencente à própria cidade, parte do mobiliário urbano, como um filho adotivo de Sampa... vai olhando os prédios, as centenas de lojas do Pari e ele contribuindo na sociedade.                                                                                                 Bom, mas ele estava no Rio de Janeiro aproveitando os últimos dias de férias. Muitos rapazes gays, creio que a maioria, perde-se totalmente nas questões de gênero, seu primo disfarça muito bem sua orientação sexual, já ele é só mimimi, tão delicado! Não posso omiti que o primo que reside no Rio, sofreu muito na adolescência e em adulto mesmo, era um homossexual que devido a inúmeras decepções acabou por abandonar suas práticas homossexuais (glória a Deus) e casou-se com uma mulher com quem teve três filhos!  Este, disse aos turistas que é muito simples: “está tudo aqui ó, na cabeça.”  Pense, logo mude seus gostos, suas intenções, seus princípios... Ao passar uma jovem conhecida sua ele demonstrou atitudes típicas de um macho: “olha, aquilo que é coisa boa.” Meu CU! Opa ,não estou na história, que ultrapassagem descabida seu narrador de merda.

Esquecendo de contar que logo ao chegarem na praia o primo- que disfarça-bem disse ao franzino: Manu nós duas mergulhamos e o Chagas olha nossas coisas. Então Chagas teve um sobressalto! Nós Duas não, nós dois rapaz! Eles (elas) não seguraram o riso. Imaginem, com bichices na frente de um ex (?) gay. Loucas mesmo, só podem... e os outros conterrâneos a comentar, as línguas ferinas, dizendo que os Chagas era viado porque estava com os primos de São Paulo que gostavam de homens. Quase que eles ofenderam os turistas com esses comentários o franzino fazia que cagava montanhas para o que falavam... essas bicha são terríveis. Lá iam ligar para os conterrâneos que eram tudo pobre igual eles. Eram tudo lavadores de pratos, porteiros, zeladores... logo o mimimi que era formado e tudo... tá boa! Ela tava era se achando a própria garota de Ipanema afinal, come disse o primo ex- gay: Tá tudo na cabeça meu amor.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Morte e vida almodovariana

Penélope Cruz  em cena deVolver, filme almodovariano
Volver é um filme de 2006 do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Nele, há todas as características que se tornaram marcas registradas do superestimado diretor: forte carga dramática, exposição do universo feminino demasiadamente, a temática da morte, além das famigeradas e já cantadas por Calcanhoto, “cores de Almodóvar”.
Em Volver, Penélope Cruz é Raimunda, uma mulher forte que guarda segredos do passado e vive às voltas com uma filha adolescente, um marido desregrado, uma tia idosa com a memória “daquele jeito” e uma irmã separada. Volver significa voltar em língua espanhola, e é quando Raimunda volta ao vilarejo onde nasceu, cujo lugar é caracterizado por habitantes supersticiosos, que acreditam que os falecidos rondam aquela região. Também nessa região, há fortes ventos que espalham incêndios e supostamente, contribuiriam para os desvios psicológicos de alguns habitantes. 
Logo na cena de abertura, vemos como Almodóvar constrói dramas inteligentes, aparentemente corriqueiros, como privilegia diálogos familiares, sempre através do olhar feminino, principalmente o maternal. De início, vemos que a morte é sempre uma razão definidora das atitudes dos vivos. Raimunda, a filha e a irmã Sole, zelam o túmulo que seria da mãe, logo em seguida visitam a tia idosa, é quando Sole, suspeita de outra presença no recinto. Apesar do cunho dramático, o humor, outra constante em Almodóvar, aqui aparece nos efusivos cumprimentos das mulheres e os exagerados beijinhos triplos, que chegam ao cúmulo da comicidade na cena de um velório.
A atuação da musa de Almodóvar, Penélope Cruz, dispensa apresentações,  ao dar vida a forte e bela Raimunda, uma mãe que no desenrolar da fita reconquista o amor da filha e o de sua própria mãe. Tudo num misto de drama e comicidade. E o que é a vida afinal? Almodóvar mais que ninguém sabe, ao lançar mão das situações mais comuns na vida de qualquer família, além de também abordar o social, ou seja, irrompe as casas e os dramas familiares, como vemos na escolha de qual disfarce estrangeiro seria adotado pela mãe de Raimunda e Sole, quando essa sai de sua condição de fantasma e retoma (sem dirigir palavras) o convívio social trabalhando no salão de beleza de Sole.

Trata-se de um dos melhores trabalhos de Almodóvar, a contar pela bonita história que resgata a importância da família, independente de quaisquer erro (s) os laços de sangue (cores de Almodóvar) são pra vida toda. É por amor que Raimunda livra a filha da culpa de um assassinato, além de poupar-lhe da traumática verdade sobre sua paternidade. E é por amor e redenção que sua mãe (Carmem Maura) assume a condição de fantasma para cuidar daqueles a caminho da morte. Aliás, mais como maneira de consertar erros do passado, o que segundo a doutrina espírita, é a razão dos mortos reencarnarem. Aqui, direto de Madri, Raimunda teve de “Volver” a uma cidade do interior, seu passado e seus traumas ressuscitando o que não estava de todo morto. Voltou para descobrir, junto a sua mãe os tortuosos e absurdos segredos do passado. 

sábado, 27 de junho de 2015

Impressões sobre O Lustre, de Clarice Lispector

Antiga edição do segundo romance clariceano
O Lustre é o segundo romance de Clarice Lispector. Assim como Perto do coração selvagem, seu romance de estreia, O lustre também consiste na sondagem psicológica de uma personagem feminina. Acompanhamos o denso e introspectivo universo de Virgínia, personagem esta, que nos remete à gênese de Macabéa,  no que tange a inadequação à vida em sociedade, entretanto em doses muito diferentes, a grandeza interior da primeira, até porque aqui Clarice dispõe do “contorno largo do romance” torna Virgínia uma personagem mais fascinante que a inocente Macabéa.
Narrado em terceira pessoa, O Lustre simula uma linearidade, mero exercício narrativo, uma vez que é pretendido demarcar uma trajetória já fadada ao caótico fim. As primeiras páginas desse romance reportam a infância de Virgínia, cujo elo mais próximo é o de seu irmão Daniel, a quem ela destina uma cega obediência. Daniel, trata Virgínia como sua serva por considerá-la tola e medíocre, esta vê em Daniel um ser corajoso e “difícil de se amar”, como observou Benedito Nunes, e os outros familiares, o pai ,a mãe e a irmã Esmeralda não são para ela vistos com atitudes admiráveis. O pai, um senhor autoritário; a mãe, de uma submissão ao marido e ao lar, como era a condição feminina da primeira metade do século XX, e Esmeralda a repetir a sina da mãe. Todavia, Virgínia segue com suas errãncias, sob o comando de Daniel, como o episódio em que contou ao pai dos encontros de Esmeralda com um rapaz no jardim. Um abalo à harmonia da família, e demonstrando que era “sabida”, fingiu um desmaio fugindo assim da ira de Esmeralda e da mãe.
As ricas passagens das infância de Virgínia e Daniel, carregadas de impressões que o locus, Brejo Alto, provoca na personagem feminina expõem toda uma atmosfera sombria, até porque lançando mão de um trocadilho, Daniel institui uma Sociedade das Sombras, entidade esta, que dita as regras a serem cumpridas por ele e Virgínia, e em nome dessa entidade ele, ordena a Virgínia que fique por horas no porão para aprender a pensar. No entanto Virgínia, apenas restringe-se a olhar (meditar) sobre os objetos empoeirados do porão e agradecendo por Daniel não ter ordenado que vá pensar na floresta à noite.
Passado a fase infantil, Virgínia e Daniel rumam à cidade, todavia seguem destinos diferentes, ele casa, ela segue errando sem conseguir manter vínculos efetivos com outras pessoas. Começa uma amizade com um porteiro, no entanto este, é casado e em suas visitas à Virgínia, tenta doutrina-la por meio de uma difícil leitura da Bíblia. Nesse mesmo episódio, a narradora denota uma das errâncias de Virgínia, pelo simples ato de que, esta ao preparar um jantar para ela e o porteiro esquecera de comprar guardanapos. Embora, o que configura o patético na relação entre os dois, é que este não compreende a inadequação de Virgínia aos modelos pré-estabelecidos, ou seja, para ele, o ato de Virgínia recebê-lo em sua casa é uma atitude de mulheres de conduta duvidosa. Ele, com o dever de zelar sua posição de homem casado, ao sustentar uma Bíblia combatia sua própria mente pecaminosa.
Ao leitor, é quase impossível não nutrir piedade por Virgínia, personagem retratada de modo tão destoante das atitudes convencionais aos outros seres humanos. Até as crianças se acham mais espertas que ela, como na parte em que Virgínia é intimada a devolver uma bola a um grupo que jogava. Ela, absorta, perdida e as crianças a interrogá-la, pois estas estão presas ao tempo presente, na interação com outras suas e assim “vivendo” uma infância plena, observando e integrando -se com as pessoas e suas regras padronizadas,sem margens para devaneios e opressões de quem se julgue superior. Por isso, as crianças desvendaram facilmente a penúria de Virgínia, de modo que esta ao tentar retrucá-las, expunha cada vez mais seu ser desintegrado, inocente a caminho de seu fim.


terça-feira, 23 de junho de 2015

Noite à la Almodóvar

Rossy de Palma: uma das musas de Almodóvar

      Era a festa de um quase amigo, pensei várias vezes se iria ou não. Fui, frio que fazia de típico junho paulistano. Fui com um amigo que levara mais dois: um amigo seu, quase um irmão e a travesti  Verônica Boderline, com toda a empáfia de quem vive cheia de sí, assim como se é mesmo. Ela, que aparentava bem menos que os quase cinquenta, com seus negros cabelos e boca vermelha ofuscara todos os minguados passageiros do ônibus.
      Tímido que sou, ainda mais na presença de dois desconhecidos, senti-me acuado. Devido a isso, ou afasto as pessoas ou me torno presa fácil, ou seja, provocam-me até minha faces ficarem coradas. Como naquela balada, onde eu quase não dançava e resolveram me levantar e me jogar igual acontece naqueles shows loucos nos EUA. Pois, estava mortificado no banco do ônibus quando Verônica Boderline levantou do seu, aproximou-se de mim esfregando sua prótese no meu rosto e disse: -" eu sou uma profissional do sexo. Compreta." Mas não corei, porque estava entre amigos, então fingi um sorriso, o que não me é difícil. Até porque em tempos de pressão da bancada evangélica, vou para o lado das LGBTT, é claro! Pois Verônica Boderline, era só sorrisos e travestices para os passageiros que lhe interessavam.
      Chegando à festa, senti-me totalmente deslocado e o substituto para as atitudes ali era o cigarro. Claro! Levara poucos, mas logo viriam as bebidas e tudo se tornaria suportável. Festa de periferia eu (preconceituosamente) resumo em: música ruim; pessoas “ que pensam que tem estilo” mas são bregas; narguilé e muita cerveja. Entretanto as cervejas fizeram efeito em mim embalado pelo tribal house que tocava, eu me soltei. Então Verônica, que era só close e pose de Diva, resolveu me batizar: És Maria Catarina. Então fiquei sendo essa mesmo durante a festa toda. Logo mais chegaram mais duas montadas, o reinado de Verônica começava a entrar em declínio. Embora ela fosse mais bonita, apesar da idade, que as periféricas. Ela que era do Altos do Cangaíba, da parte nobre sim senhor.
Festa de povão (povinho?) prepare-se para ouvir o gosto musical de todo mundo. Quando estava empolgado com o house tribal, vinha um (a) excomungado e colocava o arremedo de música, a escória da sonoridade conhecida em nosso solo tupiniquim como funk. É demais presenciar espetáculo tão deprimente e primitivo, os manos, as gays, as minas e os requebros obscenos assim como as letras. Até a Verônica Boderline preferia as de balada, as house tribal. Bem, mas tinha a cerveja, os amigos que acabara de conhecer... as felicitações ao aniversariante...
       A festa prosseguia, Verônica bebendo demais, mexendo com os bofes... tirando foto com todos, e bebia... pois uma dada hora eu tinha encontrado alguém. Então fui curtir o momento... já sonho com outros momentos, com ele.  O amigo que me convidou passara mal, resolvera dormir na casa do anfitrião, fiquei então curtindo um insólito flerte e tou até hoje. Mas na festa a rolar, eu com o X nos “conhecendo”, sem sabermos que Verônica se metera em confusão e foi com as outras semelhantes suas, as disputas... há horas eu queria ir embora, falei para o X: -vamos embora. Então tínhamos que chamar os outros dois. Era o certo. A festa acabou. Verônica às quedas, isso porque não trajava tacón, tava de botas.
   
Game over, vamos pra casa. Fomos buscar nossos amigos. Tensão, as travestis esperavam Verônica na saída, ela teve de sair escoltada. Até porque ela não conseguia andar de tão bêbada. O anfitrião blasfemava contra as travestis: “-não fui eu quem chamou! Eu nunca que convido. É confusão na certa!” Fazer o quê?  E lá se vai eu a pegar no braço de Verônica , com minha voz mansa “vamos, olhe o degrau”. Ela a repetir Verônica Boderline é a tal. Tou bêbada e ótima! A trupe era de uns quatro homens e duas mulheres. Estas, ficaram atônitas quando Verônica resolveu “mijar” na rua mesmo! Baixou tudo, a calcinha fio dental enfiada e o mijo a escorrer... A outra não aguentou: “olha o tamanho do pau dela!” Verônica não devia nada ao Kid Bengala. Fiquei a pensar... céus e se ela mijou na roupa e vai sentar na condução toda mijada...  todavia correu tudo bem, entramos nas três conduções, divididos entre os cuidados para com a embriagada e temerosos para com seus vexames.

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sábado, 6 de junho de 2015

Itinerários Tortos

      Pois que a fuga do meio é o que tem me definido ao longo dos anos. Quantas não foram as espectativas criadas diante de algo que incitei? Como algo que só provoca e na hora H cai fora. Aéreo sim, avoado talvez? A realidade me escapa, quantas vezes não fiz perguntas e me distraí na hora que me respondiam? E podiam (ainda podem) repetir infinitas vezes, não pego. Fiz perguntas evidenciando minha necessidade de pertencer, de renegar a verdade de que sou um estranho literalmente. E a cara que exponho emana um jogo de ternura e frieza.
      Tenho dado pra não ler o nome completo do ônibus e pegando um errado. E essa distração me martiriza pelo fato da perda de tempo. Tempo, o maior enigma. Tempo é dinheiro... que eu não tenho pra ficar por aí feito zumbi vagando e não andando em linha reta, objetivando prosperidade. Pois, vejo Terminal... e já acho que é o que me servirá. Daí já teve vezes que fui parar no extremo leste, na Praça do Forró que apesar do horário, não tinha forró nenhum. Outra vez, adentrei por uma feira de bolivianos, pela Viação Canela fui me embrenhando entre as mercadorias do Shopping Chão que fica próximo do Shopping Ponto, de ônibus.Um tormento só, pessoas passando com o carrinho de sacolas e fardos por cima de meus frágeis dedos, crianças esbarrando em mim entre a eufórica fantasia que lhes é  peculiar. Ao menos, perdido em lugares movimentados e com policiamento é um alívio.
      Mas o tempo que se perde por um descuido besta dá nos nervos! Pois fui parar logo no ponto em frente ao monumental Templo de Salomão em pleno sábado! Fiéis, mulheres crentes fervorosas que tinham ido adorar o Senhor! O Senhor  quem lhes dá o sentido da vida. Pois tá tudo lá na Bíblia. E lá o trânsito é um caos, por causa do Templo de Salomão e seus súditos. Eu, que não entendo nada de arquitetura, só vejo um templo gigante, bege, dourado, suntuoso... vejo por fora, pois não perdi nada lá dentro. E acho bonito mesmo é a Catedral da Sé que tem estilo gótico. E as igrejas de estilo Barroco são explendorosas pela riqueza ornamental com aquele monte de rococós e suas cores vivas. E não o bege/dourado do Templo do Edir Macedo digo, do Salomão. Pois ninguém merece ficar esperando ônibus logo em meio a crentaiada que fala mal dos viado. E eu sou meu amor Lindaaa! Polêmica! Para tudo, baixou a Luciana Gimenez em mim. Só porque viado não é de Deus, " Deus condena a prática homossexual mas ama seus filho" e bla´blá blá... é assim que as Servas de Deus da periferia falam. As crentes não são como eu que me distraio entre as coisas mais banais. Elas são de Deus, do Senhor. O senhor sabe de tudo tudo da vida de todo mundo. Por isso que vai um monte de gente pro templo de Salomão e pra Igreja Bola de Neve. Ai que tou fazendo o André Sant'Anna, ah loka!
     Nossa! Bastou maldizer os cristãos que eu esqueci como comecei esse projeto de texto. É que não achei o fio, o meio da meada. Sou um projeto errático a vida toda. E ao que parece, vai ser assim até minha fundição ao Universo nesse plano. 

domingo, 24 de maio de 2015

Sobre Tatuagem, o filme

O ator Jesuíta Barbosa em cena de Tatuagem
    Para muitas pessoas, o cinema brasileiro se resume a filmes sobre o mundo cão das favelas, comédias com atores globais, alguns até protagonizam um roteiro feito para um personagem de telenovela que emplacou, por exemplo, o mordomo Crô, de Fina Estampa. Sem falar que a maioria maldam os filmes tupiniquins porque “falam muito palavrão”. Pergunto-me, qual a razão disso? Será um fato ou o público que não procura diversificar, assistir outros que não os exibidos em grande circuito?
       Recentemente revi Tatuagem, filme de Hilton Lacerda, de 2013 e vejo que esse cinema, que não atende aos apelos do comercio, do mainstream sempre  tão apelativo e redundante, representa uma efetivação aliás, valorização da sétima arte em nosso solo. Afirmo, no que tange a ousadia de realizar um projeto consistente, com roteiro enérgico carregado de metalinguagem, onde as cenas ora flertam com o drama (gênero do filme) ora com números teatrais carregados de erotismo, uma transgressão onde no cinema surte a catarse tão necessária à existência. Tatuagem remonta o período ditatorial brasileiro, onde uma trupe teatral, por meio de espetáculos altamente provocativos, combatia esse regime, a censura e a dita moral dos bons costumes, tão apregoada na época, esta representada no filme pela religiosa família de Fininha (Jesuíta Barbosa). Bem, em nossos dias essa mesma moral ainda é usada como arma contra a liberdade das minorias. Nem é preciso recorrer às redes sociais, na TV, em nosso dia a dia os discursos preconceituosos prevalecem sob o manto de uma moral cristã.
       Em Tatuagem, as atuações do par romântico são envolventes de forma magnífica. O conflito da trama proporciona cenas intensas, sensuais que não nos deixa tirar o olho da tela. O romance entre o performático Clécio (Irandhir Santos) e Fininha  incendeia a imaginação: este um jovem servindo o exército, aquele uma “ameaça” à ditadura, logo esse impasse dar a tônica do roteiro, sem falar da inocência de Fininha, a meu ver os “olhinhos infantis” adquire a perfeita personificação em seu personagem. Extrapolando o filme personifica é o ator mesmo...
      O que é evidenciado em Tatuagem é a luta pela liberdade individual, seja num ambiente propício a esse exercício como nos espetáculos da trupe Chão de estrelas, que se vale de discursos irreverentes, poéticos e até filosóficos, mesmo lançando mão do “deboche” como arma maior e em contrapartida, num ambiente contrário à liberdade (o quartel), que ainda assim não consegue negar instintos e seus agentes resguardam-se na clandestinidade, que quase sempre atiça, alimenta a efetivação, a paixão intensa de usufruir da liberdade negada.