segunda-feira, 19 de junho de 2017

Ciranda de Pedra

Edição recente da Companhia da letras
        Certamente o título “Ciranda de pedra” pode parecer familiar para muitos devido à adaptação para novelas da Rede Globo. O fato é que a leitura do romance de Lygia Fagundes Telles é de fundamental importância para ratificarmos o valor da literatura brasileira escrita por mulheres. Sabemos que Lygia é “peixe grande”, do mesmo time de Clarice, Hilda Hilst, Raquel de Queiroz, etc. Ainda assim se faz necessário levar  alguns leitores à sua obra, pois com a acirrada concorrência do mercado editorial é provável que ela perca espaço para as modinhas literárias da vez.
   Ciranda de pedra é um romance de formação onde acompanhamos a personagem Virginia desde a fase pré-adolescente até a maioridade. Essa personagem é fruto de um “lar desfeito”, ou seja, ela nasceu  de um adultério – assunto considerado tabu na primeira metade do século XX- sua infância é muito penosa, pois vivendo com uma mãe tida como louca, com um homem, o qual ela chama de tio, mais Luciana, uma espécie de empregada, num ambiente com parcos recursos, resta-lhe alargar sua imaginação e prestar atenção em insetos, em outros animais ou mesmo em seres inanimados. Aliás, o agravante dessa situação é que em contrapartida, suas irmãs e seu “pai” habitam uma confortável casa, onde todos recebem a devida atenção, dentro de casa e também com alguns vizinhos, ao passo que ela conversa com uma mãe desorientada e também suspeita do interesse de Luciana pelo patrão. Virginia é tida como um patinho feio, sem ao menos saber a verdade dos fatos, uma vez que sua pouca idade servira de desculpa para essa omissão.
   Um traço marcante na escrita desse romance são as diversas frases aspeadas que são, na maior parte das vezes, o pensamento de Virginia ou lembranças de frases ditas por suas irmãs. Na verdade todo o romance é narrado pela perspectiva de Virginia, uma protagonista astuta e com uma imaginação muito aguçada. A descrição de suas irmãs não deixa de ser interessante: Bruna usa a Bíblia Sagrada como lema de sua vida, devido a isso condena a atitude da mãe; Já Otávia é descrita com ares românticos, desde a aparência até suas atitudes que supõem uma inconsequência. Vale ressaltar que o título Ciranda de pedra tanto alude a uma fonte com uma roda de anões, localizada numa área da casa de suas irmãs, como também ao grupo formado por Bruna, Otávia, Afonso, Conrado e Letícia, estes últimos vizinhos de infância que no decorrer da adolescência acabam por fortalecer os laços de afeto: Bruna enamora-se de Afonso e Otávia de Conrado. Quanto à Virgínia, esta nutre um amor por Conrado que o acompanha em grande parte do romance.
   Ciranda de pedra é uma narrativa inquietante, o leitor é levado a torcer por uma volta por cima na trajetória de Virginia, não que ela seja uma heroína que sofre horrendos castigos, ela jamais demonstra fraqueza, apesar de ter sofrido tanta rejeição. Aliás, essa volta por cima acontece quando ela retorna à casa das irmãs após o internato – por escolha própria- ou seja, a Virgínia de aproximadamente vinte anos retorna mais astuta e descobre a verdadeira face das pessoas que a desprezaram em sua infância. Trata-se de um romance imperdível, Lygia Fagundes Telles é um dos nossos maiores tesouros literários.

domingo, 4 de junho de 2017

A Bela e a Fera

Edição da Editora Rocco da coletânea 
    A Bela e a fera é um pequeno volume de contos de Clarice Lispector. Nessa obra encontramos contos escritos antes de sua grande estreia com o romance Perto do coração selvagem, sendo que a estes contos, somam-se mais dois escritos em 1977: Um dia a menos e A bela e fera ou A ferida grande demais. Trata-se de uma coletânea que apresenta a Clarice “espiritual”, aquela que escreve densos e belos textos, e também a escritora mais resoluta, despudorada, que escreve “com aponta dos dedos” segundo os apontamentos de Vilma Arêas.
  Como exemplo de texto pertencente a grande literatura  clariceana podemos citar “Gertrudes pede um conselho”, neste conto acompanhamos a trajetória de uma adolescente em busca de uma vida mais significativa, na qual ela fosse mais compreendida ou realizada, apesar da pouca idade para grandes pretensões. O que atordoava Gertrudes (apelidada de Tuda) era a banalidade do cotidiano, a qual sua família simplesmente integrava-se sem questionamentos ao passo que ela esperava por grandes acontecimentos. Era uma personagem ávida pelo extraordinário, curiosa, que não aceitava ir vivendo sem questionar a razão, as crenças, Deus, etc. Numa esperança de aplacar suas grandes dúvidas, Tuda escreve cartas a uma espécie de conselheira de revistas, chegando, inclusive, a ser chamada para conversar no escritório da conselheira, doravante a narradora ora adere às perspectivas de Tuda, ora da conselheira. Por vezes temos a impressão que está havendo um duelo entre ambas, pois Tuda embora seja a paciente, é uma moça esperta, ou perspicaz, como a doutora percebera. Foi uma frustração para Tuda o encontro com a conselheira, pois simplesmente: “Ela era igual a Amélia, a Lídia, a todo o mundo, a todo o mundo!”(p.24)Como Tuda sairá dessa? A leitura do conto na íntegra assim como do livro toda irá surpreender!
  Já como exemplo de texto escrito “com a ponta dos dedos”, podemos citar “Um dia a menos”, um dos últimos textos que Clarice escreveu, cujo manuscrito fora organizado pela amiga Olga Boreli. No conto temos uma narradora-personagem que já inicia questionando sobre a morte: “Eu desconfio que a morte vem. Morte?”(p.89) Clarice é especialista em criar personagens femininas que vivem em busca de algo maior, sublime, e a solidão é uma eficaz maneira de se alcançar uma compreensão de si e da vida mesmo. Entretanto, nos contos de 1974 em diante, Clarice deixava transparecer certa impaciência, o que resultava em personagens cômicas ou mesmo bizarras. Margarida Flores, a narradora desse conto relata sobre o infame apelido de infância: “Margarida Flores de Enterro”; sobre sua solidão insuportável, uma vez que sua empregada passaria o mês de férias e ela esquecia-se dos modos de organização da casa. Havia a espera que o telefone tocasse, ela era uma mulher sozinha de trinta anos. Todavia, após várias tentativas de preencher as horas, o telefone toca e Margarida tem a possibilidade de dividir com alguém os seus pensamentos, o que ela fizera de si. Essa situação, ou seja, a conversa ao telefone, é uma cena cômica onde a narradora conversa educadamente até ir as raias da impaciência e desligar “o aparelho” como dizia sua interlocutora que era uma idosa procurando alguém que Margarida Flores sequer sabia da existência-era praticamente um trote.
  O conto que encerra a coletânea, é o texto que intitula esse volume: A bela e a fera ou A ferida grande demais,um texto onde Clarice aborda a questão social, especificamente a temática das diferenças de classe,no qual temos a narradora-personagem representando a classe alta e um mendigo com uma ferida enorme na perna como pertencente a classe dos marginalizados.O encontro de Carla de Souza e Santos com o mendigo provocara-lhe um abalo em sua rotina de mulher rica e elegante, situação parecida a da personagem de outro texto de Clarice: Perdoando Deus, onde sua personagem estava a contemplar e agradecer pela vida e de repente aparece-lhe a feiura do mundo personificada em um rato morto. Ambos os textos são esplêndidos pelo fato de Clarice extrapolar as fronteiras do maniqueísmo, aliás, nestes contos Clarice expõe um certo grau de empatia com as coisas que estão do nosso lado e, por convenção ou egoísmo tendemos a ignorar. Como a exemplo de sua personagem rica e elegante que após tormentos e reflexões chegou ao mesmo nível do mendigo da ferida grande, Concluímos com a constatação de Carla:
“_ Como é que eu nunca descobri que sou também uma mendiga? Nunca pedi esmola mas mendigo o amor de meu marido que tem duas amantes, mendigo pelo amor de Deus que me achem bonita, alegre e aceitável, e minha roupa de alma está maltrapilha...” (p.108)   

domingo, 21 de maio de 2017

Humanz, Gorillaz

Capa da edição simples do álbum Humanz
  Após seis anos sem lançar material inédito o Gorillaz retorna com o álbum “Humanz”. E o que esperar desse lançamento? Hits grudentos? Como uma nova “Clint Eastwood” ou “Feel good inc”? Ou algo na linha do “The Fall”, que mais parecem b-sides ou sobras de estúdio? A questão é que Humanz está dando o que falar, de um lado, fãs antigos reclamam do excesso de convidados que parecem anular a essência do Gorillaz. Do outro, certa parcela de fãs ou mesmo alguns críticos, celebram essa polifonia caótica organizada pelo gênio Damon Albarn.
A característica mais evidente em Humanz é a polifonia, o que realmente passa uma impressão de bagunça, desorientando aqueles que buscam um trabalho conceitual e coerente. Todavia, é notável em Humanz a preocupação com o coletivo, com a humanidade mesmo, liberta de preconceitos, lembremo-nos da onda conservadora que domina o mundo nos últimos tempos. Foi esse olhar para a realidade opressora que culminou na inteligente letra de “Hallelujah Money”, além, claro, do fato dela ser cantada por Benjamin Clementine, o que é um alívio quando se está cansado da mesmice do cenário musical e de repente deparamo-nos com um vocalista um tanto peculiar. Quanto aos arranjos dessa faixa, esse aspecto sim, é muito do que o Gorillaz mostrou no “The Fall”. No entanto, ao agregar tantos convidados, torna-se inevitável não recordarmos do excelente “Plastic Beach”, álbum de 2010 que teve colaborações de Snoop Dog, Bob Womack, Little Dragon, entre outros. Em Humanz o número de convidados é absurdamente maior. Temos rappers como Pusha T., Popcaan; a diva Grace Jones; o trio de hip hop De la soul; Jehnny Beth, Kelela, entre tantos outros nomes, conhecidos ou não do grande público.
Tudo em Humanz aponta para o fato de que Damon Albarn não quer brilhar sozinho. Na melancólica “Busted and blue” temos Kelela (ótima) colaborando nos vocais, “Andromeda” é um feat D.R.A.M., ambas as faixas estão entre as melhores desse trabalho, principalmente para quem aprecia a interpretação de Damon Albarn, o artista que “me amolece os ossos” quando canta uma balada e que clama para que o público vibre, pule, quando ele e sua banda estão no palco cantando uma música agitada. Certamente ele iria gostar do público brasileiro – que é um bando de louco. Já diz Faustão: “Quem sabe faz ao vivo”, pois então, algumas faixas que parecem insossas no disco tomam outra dimensão ao vivo, é o caso de “We got the power”, que tem uma enérgica Jehnny Beth colaborando nos vocais, e também Noel Gallagher, e também sinos! Numa composição otimista e empolgante que faz querer pular insanamente onde quer que se esteja. Essa pegada agitada, o clima clubber é também a tônica de “Sex Murder Party”, embora eu não fazendo ideia sobre o que essa letra fala eu fico a dançar em êxtase. Humanz divide muito opiniões, como fan do Gorillaz, fiquei satisfeito com esse novo trabalho. “Plastic Beach” continua insuperável, mas Humanz cresce à medida que se ouve e conhecemos os artistas novos que agregam a polifonia caótica desse álbum. Nota 8,0.

domingo, 7 de maio de 2017

O Lobo Atrás Da Porta

Leandra leal em sua premiada atuação do filme
   O lobo atrás da porta, como o título já sugere, é um filme brasileiro que alude a célebre estória da Chapeuzinho Vermelho. É uma produção dirigida por Fernando Coimbra e estrelada por Leandra leal, Milhen Cortaz, Fabíula Nascimento, entre outros nomes de peso do cinema e televisão. A narrativa que fala do sumiço de uma criança no subúrbio carioca é baseada em fatos reais que ocorreram na década de 1960.
   Na cena inicial de O lobo atrás da porta temos um delegado desbocado, interpretado por Juliano Cazarré, colhendo depoimentos dos pais da criança desaparecida, numa cena ágil que já aguça a curiosidade do espectador pra saber como se deu o sumiço de Clarinha, filha da ingênua Sylvia (Fabíula nascimento) e de Bernardo (Milhen Cortaz). O delegado intima com a fome e sagacidade de um lobo, os pais da criança e a tia da creche (Karine Teles), esta, afirmando ter liberado a criança após um telefonema da mãe autorizando que uma amiga levasse Clarinha embora, uma vez que Sylvia estava doente. A cena apesar de tensa – o quão desesperador é a impotência de não saber onde está um filho, sendo criança então..., essa sequência tem alguma dose de humor negro provocada pelo personagem de Cazarré.
   Todavia o lobo dessa narrativa não é o desbocado delegado, há mais pessoas a serem interrogadas. Que segredos os pais de Clarinha escondem? Há quantas andava o casamento deles? É ai que Bernardo relata ao delegado que tinha uma amante, Rosa (Leandra leal), jovem, bela, misteriosa, a presa ideal para um predador tal qual vemos na feição de Milhen ao conhecer Rosa no vagão do trem rumo ao subúrbio carioca. Ressalto que após a sequência do depoimento dos pais de Clarinha, a narrativa abarca um tom de suspense, com vários enfoques na nuca de Rosa, em seus passos intrigantes e maliciosos que tornam-se mais intensos devido a trilha sonora em tais cenas. Nessa altura, o delegado já chegou a Rosa e está ouvindo seu depoimento, não economizando, é claro, no linguajar de baixo calão. A versão de Rosa nos coloca numa sensação de horror, diante das consequências que certas atitudes provocam. Obviamente o verdadeiro lobo dessa história merece cumprir sua pena como está descrito na lei, entretanto, isso não isenta Bernardo de culpa pela forma como conduziu seu caso com Rosa. O machismo ou sem-vergonhice de Bernardo provoca náuseas, não que eu esteja  a justificar Rosa.
   Se este filme fez barulho nos festivais por qual passou, chegando a levar importantes prêmios, isso é mais que merecido. Fernando Coimbra, o diretor, juntamente como estelar elenco entregaram um filme perturbador, apresentando um drama-thriller que configura a força do cinema brasileiro, ou seja, um filme artístico, diferente do que as massas entendem por filme nacional, uma vez que geralmente tendem a ter preconceito com as produções brasileiras, por associarem à temática de favelas ou as comédias toscas como as encabeçadas por Leandro Hassum e Cia.

P.S. Não esqueçam de verificar a classificação indicativa. Bom filme!

sábado, 22 de abril de 2017

"Tropical, Latino-americana"

Céu em foto da fase Tropix
   Tropix é o quarto álbum de estúdio da cantora paulistana Céu, há pouco mais de um ano do seu lançamento, a cantora continua colhendo os frutos desse primoroso trabalho. Seu show na última edição do Lollapalooza Brasil ratifica o quanto a sua música é universal, tanto pela versatilidade dos arranjos, quanto pela poeticidade que emana de suas composições. No aclamado álbum apenas duas faixas não foram compostas por ela: “Chico Buarque song”, um cover da banda Felini e “A nave vai”, composta por Jorge Du peixe, esta, uma das mais irresistíveis do Tropix, sendo a faixa que encerra os shows da turnê. Certamente é uma das melhores do álbum,  essa composição  aborda, entre outras acepções, a nossa insignificância nessa “nave”, ou o nossa inconstância e os desdobramentos – “De manhã sou um, de noite já fui dois.” “Seremos quem somos ou serei quem sois.”
   Outra característica do Tropix é a abordagem do social, ou seja, Céu conserva seu intimismo nas composições, mas abriu o leque para uma esfera maior tematizando a responsabilidade com os filhos, isto é, na faixa “Rapsódia brasilis” o eu lírico incorpora a figura da empregada que fica com a criança durante grande parte do tempo, observando seu crescimento, as brincadeiras, uma vez que, geralmente a patroa/mãe, trabalha fora e “delega” - expressão empregada pela própria Céu numa entrevista –  à empregada ou babá a função de cuidar dos filhos. Basicamente é uma composição que vai ao encontro do que é retratado no filme “Que horas ela volta”, obra de outra ilustre paulistana, Anna Muylaert. Rapsódia brasilis é a faixa que abre os shows da turnê, seguida pela primeira a ser divulgada do álbum “Perfume do invisível”, faixa empolgante e que sintetiza o ideal desse trabalho: a utilização sonora de linguagem eletrônica, o pixel, dai Tropix, um eletrônico somado a brasilidade dos trópicos.

   Já que falei em brasilidade, em tropical, não há como esquecer da faixa que teve mais aceitação nesse trabalho da Céu: “Varanda suspensa”, a letra versa sobre  uma paisagem do litoral norte paulista, reminiscências de quando a cantora ia passar as férias, há muito tempo, provavelmente em criança, em casa de avós em São Sebastião. Impressiona como algo tão simples, transforma-se em pura poesia nos dedos e garganta de Céu. E também o mérito deve ser atribuído aos produtores desta canção e do trabalho como um todo. Tropix é certamente um dos seus melhores trabalhos. Não há faixa que se queira pular, pois cada uma possui uma peculiaridade a ser apreciada e geralmente é a poesia da compositora. Não há como ficar inerte quando ela embala “Saiba, meu amor/Cuidarei de nós/Mesmo quando eu for/ Em busca de mim/Em busca do que/Faz você me amar/Mais. Alguns exaltados até comparam-na com Maria Bethania, o que nem é preciso, Céu é ela mesma!

domingo, 9 de abril de 2017

Nostalgia

Trilha sonora da novela exibida em 1994
  Tudo começou com a volta do vinil, que por sinal custam muito caro, mas a vitrola fora um inestimável presente. O primeiro vinil ganhei antes mesmo do aparelho. Novíssimo claro, o LP Tropix da cantora e compositora paulistana Céu. Todo fim de semana a faxina é com a bolacha girando devagar ao volume que irradie pelo parco ambiente de dois cômodos que habito. O amigo conterrâneo comentou o hábito retrógrado, mas eu disse-lhe “é vintage” ao que ele esboçou um “ahh”. Mas como adquirir os vinis novos com tão salgados preços? O jeito é garimpar os discos do século XX nos sebos, o que não falta em Sampa, não é mesmo? Enquanto 99% das pessoas, meu namorado inclusive, viça o brilho no olhar com o novo comercial do mais novo aparelho celular, do meu lado mesmo, no intervalo da novela. Não sinto nada mesmo por essa inovação toda! Por mais lindo que seja o celular.
  Que sensação radiante! Por outro lado, parece-me, mais um indício da insatisfação pelo presente. Sim, a confirmação veio com o apreço às trilhas internacionais de novelas. As do século passado, claro! Precisamente as da última década, os anos noventa foram minha descoberta do mundo. A imersão na horrível fase que é a adolescência. Bem, mas naquela década, as telenovelas da Globo eram bem contadas. Quem dessa época não recorda de “Quatro por Quatro” ou “Vamp”? E a trilha sonora é um capítulo à parte. Hoje tudo soa previsível demais... as redes sociais tem sua parcela de culpa, os assuntos infestam-se por timelines até esgotarem o sumo e dar vez a outro assunto e no fim tudo é mais do mesmo. O que fica? O presente me aniquila, volto ao passado pra recuperar algum sentimento. As bolachas com os atores na capa servem de antídoto para ultrapassar. Breguice? Que seja, mas as canções até provocam epifanias. Talvez faziam muito sucesso pela pouca competitividade, então os músicos tiveram nessa época sua fase áurea. Quem não recorda o Pet Shop Boys, Bon Jovi, Information Society, Sade, enfim, inúmeros que até continuam na ativa, mas o som daquela época era tudo! Só não consigo lembrar que personagem da novela certa canção era  tema, até porque muitas novelas eu nem assistir. Depois darei uma olhada no canal Viva.

  Pego-me a lembrar que nessa década de noventa muitos assuntos eram um tabu desgraçado! Ah... mesmo assim que saudade que deu... “o passado é uma selva de horrores” disse R. M. D. mas bem que eu voltaria no tempo... pra variar, a beleza de Marion Cotillard leva-me a assistir “Meia noite em Paris” que aborda, entre outras coisas essa insatisfação com o presente – sob o ponto de vista de ilustres como F. Scott Fitzgerald, Salvador Dali, Paul Gauguin, entre outros e do protagonista do filme “Gil Pender” vivido por Owen Wilson, na verdade a personificação do grande Woody Allen. O que seria de mim sem filmes bons como esse... cumpriria meu destino, ora essa! Por enquanto enamoro-me dos LPS baratos de trilhas de novelas com as atrizes nas capas ostentando penteados à moda da época. As canções soam tão autênticas, doces melodias, etéreas, já nem sei como descrever as sensações nostálgicas. Mas nem adianta me convidarem pra festas temáticas tipo “flashbacks” que provavelmente não irei. Velho, eu ao menos, durmo com as galinhas. 

domingo, 26 de março de 2017

Algumas notas sobre "A hora da estrela"

Edição da Editora Rocco, de 1998
   A obra “A hora da estrela”, de Clarice Lispector é geralmente o primeiro contato que os adolescentes obtem com textos da referida autora. Seria sua obra mais palatável? Sobretudo a leitores iniciantes em tão densa literatura? Seria o fato desta novela conter poucas páginas? A questão é que não raro ouvimos um jovem aluno dizer que “odeia” essa autora. Sim, essa autora que possui uma vasta obra tanto singular quanto cheia de desdobramentos que respondem aos vários estados d’alma, ou seja, em sua escritura contém a Clarice jovem, a Clarice mãe ou mesmo a Clarice humana que sonda vários aspectos do homem na Sociedade.
   Levando em conta que o fato da iniciação em Clarice ocorra através de “A hora da estrela”, é provável que o jovem leitor sofra uma perturbação logo nas primeiras páginas, aliás, logo na “Dedicatória do autor” onde somos apresentados a vários músicos clássicos que só mesmo um indivíduo banhado em erudição pode reconhecer nomes como “Schumann”, “Debussy” ou “Richard Strauss”. Pensemos nos adolescentes brasileiros de classe baixa embebidos de funk ostentação ou proibidão mesmo ao adentrar em dedicatória tão rebuscada, o estranhamento é certo. Há também o fato da narrativa “de fato” demorar a engrenar, ou seja, em “A hora da estrela” a metalinguagem é gritante, literalmente é como se houvessem duas narrativas: a do narrador argumentando as possíveis escolhas narrativas e a história em si. Que história? “A de uma inocência pisada”. “De uma miséria anônima”. São palavras da própria autora em sua entrevista na TV Cultura.
   A leitura de “A hora da estrela” tem diversos pontos positivos, além do humor característico da ambígua Clarice, sempre melancólica e feroz, a “tímida e ousada”, apresenta uma personagem, Macabéa, uma nordestina de Alagoas. A esta é atribuída uma série de defeitos e o leitor fica entre a raiva ou a piedade para com personagem tão desprovida de tudo. Macabéa vive sem perspectiva alguma, como um ser “lesado”, desleixado. A personagem é uma sonhadora deslumbrada pelas estrelas de cinema, sobretudo Marilyn Monroe. O narrador indaga sobre como descrever de modo sofisticado uma vida tão parca como a de Macabéa. E mesmo sendo tão despreparada para encarar as coisas práticas da vida, seja no trabalho, nas relações pessoais, a personagem é atraída por alguma informação, pois gasta suas horas ouvindo a Rádio Relógio ou colecionando anúncios. É realmente de uma ironia impressionante esta obra de Clarice, isso sem contar no humor, fator que atinge o ápice quando Macabéa arranja um namorado: Olímpico de Jesus, nordestino assim como ela. O diálogo entre ambos é risível, ele conta-lhe suas ambições ao passo que ela, sempre alheia ao seu papel no mundo, relembra as notícias que ouvira na Rádio Relógio. Outra característica marcante de Macabéa é que, apesar de seu desalento, ela tem a língua afiada, vejamos um diálogo entre ela e Glória, sua colega de trabalho:
- Me desculpe eu perguntar: ser feia dói?
- Nunca pensei nisso, acho que dói um pouquinho. Mas eu lhe pergunto se você que é feia sente dor.
- Eu não sou feia!!!, Gritou Glória. (p. 62)

   Talvez a escolha dessa narrativa para que jovens alunos conheçam a obra de Clarice seja devido ao fato da protagonista servir de exemplo daquilo que não devemos ser. Esclarecendo, os jovens estão sendo educados para que exerçam seu papel de cidadão, agindo em prol do seu bem estar e o progresso da sociedade. Macabéa, coitadinha! Certamente, muitos leitores torcerão por ela, ou seja, em se tratando daqueles que venceram a perturbação das primeiras páginas e prosseguiram na leitura até encontrar, de fato, a história contada por Rodrigo S.M. Acredito que estes jovens leitores que concluíram a novela tem muito a ganhar com o conhecimento de personagens tão envolventes como Macabéa e Olímpico, aliás, com a narrativa por inteiro, soma-se o intricado desenrolar da narrativa, sempre interrompida pelo narrador (sobretudo na primeira metade) aos diálogos entre Macabéa e seu namorado, ou entre Glória e finalmente entre a cartomante que lhe vaticina um futuro brilhante.