sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A ousadia de Clarice

1° edição, Artenova,1974
  A Via Crucis do Corpo é um pequeno volume de contos escritos por Clarice Lispector em 1974. Desnecessário falar que essa obra praticamente fica nas sombras dos aclamados trabalhos da autora, como a novela A hora da estrela ou os romances A paixão segundo G. H. e Perto do coração selvagem. Mesmo no ambiente acadêmico, onde as pesquisas sobre a obra de Lispector são abundantes, são raros os que se detém sobre A via crucis do corpo. Por qual motivo esse livro é considerado obra menor? Não haveria neste o mesmo elemento criativo presente nos livros consagrados?
  O fato é que o livro foi muito mal recebido quando da época do seu lançamento, 1974, alguns críticos taxaram a obra de lixo e que seria melhor não ter sido lançada. A professora Vilma Âreas, argumenta que a ousadia do livro, sobretudo por apresentar personagens pouco convencionais, como senhoras sexagenárias (octogenárias também) com desejos sexuais, prostitutas e travestis disputando o mesmo homem, moças recatadas seduzidas por extraterrestres e até uma paródia do texto bíblico da Anunciação, entre outros, foi um dos fatores que gerou o desprezo por essa obra. Inclusive a própria autora, relata um desprezo no texto Explicação: “Uma pessoa leu meus contos e disse que aquilo não era literatura, era lixo. Concordo. Mas há hora para tudo. Há também a hora do lixo.” (P.12). Todavia, como Clarice Lispector é uma escritora intuitiva - os romances comprovam isso - é fácil compreender que uma obra sob encomenda como é o caso de A via crucis do corpo, acaba por tolher a sua liberdade criativa. Na melhor das hipóteses testa os seus limites, uma vez que a própria argumenta que “tratava-se de um desafio”.

  Além dos contos polêmicos, que são cheios  de humor, essa coletânea apresenta quatro crônicas que relatam o processo escritural dos conto de A via crucis, ou seja, a autora permite-se a uma proximidade com o seu leitor, até então desconhecida do público que a imaginavam uma pessoa tão misteriosa quanto a esfinge. Essa aura de mistério em torno de Clarice é oriunda de seus profundos textos como A paixão segundo G.H. , romance denso que jamais se esgotaria numa só leitura. Em contrapartida, o volume A via crucis do corpo é escrito numa linguagem simples, apesar que é uma obra repleta de referências que vão de elementos do cinema ao texto bíblico, ou seja, o simbolismo acompanha Clarice até mesmo em seus trabalhos menos rebuscados. Vale ressaltar, que é necessário ler A via crucis do corpo, atendo-se que é um trabalho meramente ficcional, onde a autora concatena suas ideias com a finalidade de tecer uma imitação da vida. Nessa imitação da vida, há espaço pra muita fantasia. Contrariando aquela música popular do nosso tempo, em A via crucis do corpo há espaço para ousadia e tristeza. Mas eu dissera que há muito humor nos textos... bem, leiam esse livro de Clarice.

sábado, 2 de dezembro de 2017

O filho de mil homens, Valter Hugo Mãe

2°edição, Editora Globo,2016
   



   Durante as aulas de literatura do curso de letras, a professora sempre salientava que a literatura era fundamental porque humaniza, incomoda, ou seja, nos desperta para uma verdade camuflada pelo automatismo do nosso cotidiano. Todavia, não são todos os textos literários que possuem tal capacidade de transcender nosso estado de espírito, essa é uma qualidade que só as boas obras possuem. Aquelas em que as palavras não apenas contam algo, mas nos tocam pela construção poética das frases ou períodos. Existem aquelas obras que nos acompanham por toda a vida, que volta e meia teremos a vontade de reler, não por alguma complexidade linguística, mas porque a delicadeza, o lirismo está presente em cada capítulo da narrativa.
    Uma obra que veio a se tornar um achado literário, não só para esse simplório leitor, é O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe, um romance que abarca inúmeros elementos de maneira  assertivamente construída. Valter Hugo Mãe tece com maestria seu enredo, inicialmente, devido à concisão dos capítulos, cada um apresentando um personagem central: o Crisóstomo; a anã; o Camilo, entre outros a seguir, remete-nos ao formato do conto, entretanto, trata-se da apresentação dos personagens em seus núcleos, para que no decorrer da narrativa vejamos a construção dos laços afetivos em que se atarão alguns desses personagens. Como o título da obra sugere, O filho de mil homens, ou seja, a temática do parentesco não se resume ao fator sanguíneo,mas é elevada  a um alto grau do sentimento de amor, de cuidado para com as pessoas que por alguma razão se cruzaram nessa estória. Por esse motivo, o Crisóstomo, homem de quarenta anos, sozinho no mundo que “Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos” (p. 19)sente-se enormemente realizado ao adotar o órfão Camilo. Além do fato de que as personagens desse livro habitavam um vilarejo litorâneo, ou seja, eram pessoas simples que viviam felizes com o que lhes era possível de realização.
  Conforme afirmei ser essa obra uma narrativa completa, ratifico apontando alguns elementos, pois temos a poesia, o lirismo, sobretudo personificado em Crisóstomo que adota Camilo e enamora-se pela rústica Isaura; O humor também aparece no tratamento das mulheres da vila com a personagem anã, na verdade aquele humor que esconde sentimentos nada virtuosos, há exemplo das mulheres que não aceitavam o fato de que anã era capaz de ser feliz apesar de sua diminuta condição. Consta na narrativa também, uma espécie de realismo mágico como no capítulo do velho que tinha uma galinha gigante, “uma avestruz” como deduz a criança filha de Rosinha, criada respondona, cujo velho, um dos raros personagens com posses, pretende passar com ela o resto dos seus dias. Outro aspecto importante nessa obra, é o humanismo, sobretudo na figura do personagem homossexual: o Antonino, cuja mãe vive a duelar mentalmente seus sentimentos para com o filho. O trunfo nesse núcleo é que o autor não recorre ao lugar-comum, que seria apresentar um discurso limitado, redutivo, mas assertivamente toca no cerne da questão, ou seja, apresenta um personagem vítima de inúmeras suposições sem fundamentos. Doravante os moradores da vila teciam comentários maldosos calcados em seus próprios preconceitos, sequer tinham vistos o Antonino a cometer atitudes comprometedoras. A parte em que Antonino põe uma maquiagem na sofrida e apagada Isaura, fazendo-a renascer,é quase uma epifania, apesar de que essa, a epifania aparece em inúmeras passagens do livro.
   Certamente, os personagens do Crisóstomo e do Antonino são os mais cativantes, ambos são dotados de um genuíno sentimento de amor ao próximo, cada qual ao seu modo , já que “amar uma pessoa é o destino do mundo”, conforme aparece numa passagem dessa obra belíssima que é O filho de mil homens. Nos momentos de tristeza, sobretudo do Crisóstomo, ele caia para dentro de si, caia e levava também o leitor, completamente caído de amores pela prosa poética de Valter Hugo Mãe, uma prosa que aborda o reencontro da alegria de viver em companhia daqueles que amamos. Os personagens viviam a sonhar com o amor: Crisóstomo queria um filho; Isaura um marido; Antonino a aceitação de todos, começando por sua própria mãe, ao final todos conquistaram isso e muito mais. Fica a dica de um ótimo presente de natal, O filho de mil homens é uma leitura fácil, porém cheia de encanto e criatividade, qualidades tão peculiares em Valter Hugo Mãe.



domingo, 19 de novembro de 2017

Intérprete de Males, de Jhumpa Lahiri

Editora Globo, 2014
   Intérprete de Males é a primeira obra literária da escritora Jhumpa Lahiri. O livro de contos foi o vencedor do importante prêmio Pulitzer e aborda, entre vários fatores, a condição dos imigrantes indianos nos Estados Unidos. A adaptação aos costumes americanos, a saudade da família que ficou na Índia e principalmente o choque cultural dão a tônica de grande parte dos contos dessa coletânea. Os personagens retratados, em sua maioria, são casais indianos que moram nos EUA, crianças nascidas nos EUA filhos de pais indianos, ou ainda filhos de americanos que de alguma forma convivem com indianos, sendo que alguns contos são narrados sob a perspectiva do olhar infantil, como os textos  “Quando o senhor Pirzada vinha jantar” e “A senhora Sen”.
   Os textos citados acima são narrados de maneira simples, a escrita de Jhumpa não dispõe de maneirismos estilísticos ou algum recurso que traga complexidade na linguagem, ela apenas descreve as vivências das personagens de modo sutil, injetando certa dose de surpresa à medida que elas constroem sua visão de mundo mediante a observação das pessoas com a qual convivem. É o que acontece no referido “A senhora Sen”, onde acompanhamos um menino, de família americana, que passa o dia sob os cuidados de uma babá indiana, esta, a Senhora Sen. Essa convivência permite à criança aprender sobre a cultura indiana, uma vez que sua babá vive como se ainda habitasse seu país de origem, ou seja, da cozinha à indumentária e até mesmo sua pronúncia do inglês, tudo na senhora Sen evocava a Índia e seus sabores, suas cores, etc. Mas, a verdade, é que a senhora Sen sofria deveras com a saudade dos parentes que ficaram no Oriente, doravante, uma carta que chegava da índia era motivo de grande alegria, em contrapartida, saber que só poderia ver um sobrinho que nascera quando ele tivesse três anos não era nada auspicioso para ela. É um dos textos mais tocantes e expõe uma inversão de papéis, pois Eliot, o menino sob os cuidados da senhora Sen, acaba sendo um alento para sua babá, uma vez que ela tem para quem falar de sua terra e do que sente falta de lá, ou seja, quase tudo. Além do fato de que ela ainda não sabia dirigir, e recebia uma certa pressão do senhor Sen, para que perdesse o medo e conseguisse tirar a habilitação, afinal, eles moravam nos EUA, era primordial que ela soubesse dirigir. Vejamos um excerto: 
  - Como espera passar no exame se você se recusa a dirigir na rua com os outros carros?
  - Eliot está aqui hoje.
  - Ele está aqui todo dia. É para o seu próprio bem. Eliot, diga para a senhora Sen que é para o próprio bem dela.
   Ela se recusou. (p. 133-134)
   Daria para falar sobre cada um dos nove contos desse livro, pois cada um é, a sua maneira, um primor literário! Jhumpa lahiri é mestra em traçar esse encontro de culturas diferentes; de gerações diferentes, como percebemos nos textos narrados sob uma ótica infantil, mas com um aguçado senso de apuração do que se passa ao redor. Vale ressaltar que o conto que intitula a coletânea é um dos mais interessantes, pois é daqueles textos onde, sutilmente, uma verdade vem à tona, revelando coisas improváveis, passeando por devaneios que só uma mente sempre ligada (do narrador) expõe. O intérprete de males é na verdade uma espécie de tradutor, trabalhando num hospital onde aparecem pacientes portando um dialeto que o médico não entende, então, cabe ao senhor kapasi traduzir, isto é, relatar ao médico os “males” que acometem estes pacientes. Todavia, é no seu outro emprego onde ele é guia turístico, conduzindo uma família americana aos pontos turísticos indianos, que uma mulher, com marido e três filhos, desperta para outras sensações diante de um trabalho, em sua própria expressão: “romântico”. Resumindo, no passeio turístico está o pai entretido a fotografar; as crianças distraídas com os animais e há a senhora Das com expressão de enfado, mas quando o guia conta que traduz os males dos outros ela subitamente julga ter encontrado a pessoa certa pra contar um grave segredo. E o que se sucede? Pois não disse que Jhumpa constrói narrativas interessantíssimas? Uma verdadeira viagem pelos labirintos da mente humana e seus devaneios e segredos. Como será esse embate entre o guia e a senhora Das? haverá reciprocidade? Leiam o incrível Intérprete de males. 


terça-feira, 31 de outubro de 2017

O teatro de Roberto Muniz Dias

Editora Metanoia
Páginas: 202
Ano: 2017


Experientia (O teatro de Roberto Muniz Dias)

             “Quando é que a saudade daquilo que a gente não viveu passa?”
                                                                                               Tulipa Ruiz

              “Escrever é organizar os sentimentos perdidos.”
                                                                                       Marcelino Freire

   Com uma produção crescente que só ratifica o talento com as palavras, Roberto Muniz Dias entrega o volume Experientia, coletânea composta por cinco peças teatrais. São elas: As divinas mãos de Adam; Raroquerer haraquiri; A volta do cometa; Bonecxs desalmadxs e Uma cama quebrada. Para efeito de síntese, comentarei sobre as duas primeiras, o que não significa que as demais não sejam dignas de análise, ao contrário, em cada uma nota-se o cuidado e afinco para com os elementos a serem retratados. Da descrição do cenário à criação da personagem, em todos os aspectos é notável o trabalho de concatenação empreendido, seja pela linguagem sofisticada, que jamais sucumbe a termos abjetos, ou pela tramitação entre a técnica tradicional e outros  métodos mais  ousados, repletos de subjetivismo, idiossincrasias.
   A peça As divinas mãos de Adam - que já foi encenada em São Paulo e Rio de janeiro – aborda, entre outros aspectos, a impotência que aniquila um indivíduo, restrito a imobilidade numa cama, vegetando. Não há relatos do que provocou a perda dos movimentos de Stephen, apenas sua atual situação, além da cegueira. Numa tentativa de resgatar o que sobrou de sua natureza, Stephen põe um anúncio de jornal à procura de alguém que lhe preste serviços de masturbação, “ambos os sexos”. Bate-lhe à porta o jovem imigrante Adam, munido pela necessidade e o medo do desconhecido: “Mas... (com espanto) não devo usar luvas? (Dúvida atordoante)” (p. 11) Percebe-se, pelo livro o quanto o texto fora criado especialmente para fins de encenação, ou seja, a sonoplastia, a feição da personagem que  antecede ao leitor o momento da fala, praticamente joga o leitor para o teatro. Ou antes confirma o forte teor imagético da literatura de Muniz Dias. Talvez a experiência como romancista explique a maneira como gradativamente, Muniz Dias conduz os diálogos em As divinas mãos de Adam, ou seja, tudo vai aos poucos se revelando, os personagens se dando a conhecer com uma intensidade à flor da pele que revela as agonias que permeiam suas vidas. Os personagens, ao dividirem suas experiências, procuram resgatar as poucas alegrias que algum dia tiveram, o que traz beleza ao texto. Outro fator que torna bela essa estória (triste, assim como as melhores estórias) é a construção da empatia entre duas personagens tão distintas, mas que possuem a mesma abertura para mergulhar na busca do real e se desprender de qualquer amarra ideológica. A juventude e inexperiência de Adam não o impede de acolher os sentimentos que emanam de Stephen. Certamente, As divinas mãos de Adam é um dos mais belos trabalhos do escritor piauiense. E como filosofia pouca é bobagem, o inteligente diálogo entre Stephen e Adam é confrontado com a chegada de Rita, irmã daquele, doravante a peça atinge o clímax e caminha para um sublime final.
  Já a segunda peça do volume Experientia, “Raroquerer haraquiri”, é um monólogo inspirado no romance A teia de Germano, um texto predominantemente metalinguístico. Carregado de metáforas que ora recorrem a referências culturais japonesas, ora a problematização da literatura. Como produzir o melhor texto? Buscando o ideal de uma infância desejada? Esperando que o seu amor também compartilhe o amor para com os livros, ou seja, tenha afinidade? É um texto que fala, especialmente, a propensos escritores ou aos apreciadores das artes, enfim, aos sensíveis. Não esqueçamos que Muniz Dias tem a mesma formação de Clarice Lispector e de Caio Fernando Abreu, ou seja, não apenas esse fator os coloca num mesmo patamar, as obsessões literárias são as mesmas. O mesmo mergulho no insondável, a verve filosófica, as personagens inaptas à realidade, entre outros aspectos, colocam Muniz Dias trilhando corajosamente esse árduo caminho. É a sua via crucis, só para lembrar alguma passagem clariceana em sua visceral obra.
  Contando com uma cena única, Raroquerer haraquiri mergulha fundo no sentimento universal que é a angústia, uma vez que o personagem é um escritor, ou seja, categoria possuidora de um múltiplo universo de ideias e sempre a trabalhar a melhor maneira de narrar poeticamente tais ideias ou vivências para enfim, compartilhar com os possíveis leitores. O interessante nesse monólogo, é que apesar do personagem chegar às raias do desespero, indagando sobre as incertezas do seu futuro como escritor, ele consegue criar um texto nos moldes do que é  considerado um conto tradicional. Trazendo referências clássicas, extraindo uma fantasia da infância “que os anos não trazem mais” e evocando um belo final epifânico para sua short storie de cunho infanto-juvenil. Assim como As divinas mãos de Adam, essa peça também tematiza os impasses que a busca de uma saudosa lembrança implica. Seja ao resgatar um hábito de um ente querido (falecido) ou em guardar objetos que testemunhem algo vivido de bom, nota-se que em ambos os textos as personagens, embora de modo implícito, retomam os conceitos de Santo Agostinho acerca da ultrapassagem do tempo presente, ou seja, as tentativas de resgatar as memórias mais revelam a impossibilidade do presente, que restauram  o sentimento de outrora.



domingo, 17 de setembro de 2017

Feira das vaidades

A atriz americana Reese Witherspoon em brilhante atuação
  É comum ouvirmos dizer, muitas vezes, que as adaptações cinematográficas de obras literárias sempre ficam aquém da original, Há exceções, é claro. Há também, geralmente, casos em que nem sabemos que o filme do qual gostamos tanto fora adaptado de um romance clássico. Nesse caso nos sentimos tentado a conhecer a obra que serviu de base para a “nova versão”, mesmo que a obra em questão seja um calhamaço de mais de oitocentas páginas.  Essa é minha experiência com “Feira das vaidades” filme estrelado por Reese Witherspoon, adaptado do livro de William Makepeace Thackeray, que mal posso esperar pra ler!
  Enquanto não disponho do livro, vamos a algumas impressões sobre o filme: A protagonista é Rebeca Sharp (Reese) uma jovem orfã que desde criança sonhava em pertencer à alta sociedade de Londres, fazendo de tudo para ser aceita pelas pessoas pertencentes a essa esfera social. Sua determinação e ousadia faz contraponto ao comportamento de sua única amiga Amelia, que é a personificação da inocência e do romantismo. Ao torcer para que Amelia tenha um feliz matrimônio, Rebeca é, a princípio, hostilizada por George Osbourne, noivo de Amélia. George é exatamente um poço de vaidade e arrogância, o que na verdade encobre a sua fraqueza no quesito de homem/soldado prestes a lutar pelo seu país na iminente guerra de Waterloo. Antes desse combate, o cinismo de George em relação à Rebeca cai por terra, quando ele percebe que a ausência de berço daquela não a impediu de ser uma mulher culta e com atitudes dignas das pessoas do high society londrino, fato que o faz cortejá-la num baile, ao passo que Amelia,grávida, fica aos cuidados de um amigo que ,na verdade, é apaixonado por ela.

  Uma das ideias que o filme reforça constantemente vem ao encontro do dito popular “sorte no amor, azar no jogo”, numa cena próxima ao clímax dessa estória, um Lord diz à Beck que o seu pai tinha um excelente talento para as artes, mas nenhum para a vida, o qual ela responde que sua missão é mudar isso. Em verdade o Lord em questão é uma das personagens centrais de Feira das vaidades, aparecendo, inclusive, já na primeira cena, despontando à visão de Beck pelo meio do filme e na segunda metade conduzindo ao clímax, quando descortina toda a opulência da sua classe que Beck tanto admira. Esse descortinar significa revelar toda a hipocrisia e mediocridade que reina, inclusive, na figura das damas inglesas que desprezam Beck e se sentem obrigadas a engolir a presença desta porque os cavalheiros rendem-se a sua beleza e autenticidade.Na verdade, Lord Stern encurrala a própria Beck ao relembrar que ela vendera-lhe, em criança, um retrato de sua mãe. Por um alto preço, porém vendera.  Vale ressaltar que Reese Withespoon está deslumbrante aqui. Recomendo este filme,o que escrevi aqui é só um pequeno recorte, pois Feira das vaidades tem belas imagens, belas canções e a história é muito rica,mas se tiverem oportunidade, leiam o livro também.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A envolvente literatura de Chimamanda Ngozi Adichie

Edição da Companhia das letras, 2017
   A literatura de Chimamanda Ngozi Adichie é muito acessível, tanto pela temática, quanto pela simplicidade de sua linguagem, o que não significa que seus textos não mereçam ser agraciados por importantes prêmios literários ou não ter o grande alcance de público leitor. Em “No seu pescoço”, Chimamanda se revela uma contista de mão cheia, pois em alguns textos é evidente a fabulação bem estruturada desse gênero, ou seja, uma estória redonda, na qual a autora se concentra numa situação específica, num cenário designado e com poucas personagens, aspectos que podemos observar no conto “Uma experiência privada”, que aborda a convivência insólita de duas mulheres escondidas num armazém, uma vez que ocorria uma rebelião nas ruas. Estas mulheres, possuíam muitas diferenças culturais: a protagonista era nigeriana, a outra, muçulmana e tais diferenças, não impediram-nas de criar laços de empatia frente ao desalento e temor por qual passavam, mas antes fortaleceram a humanidade entre elas. Outro aspecto reportado nesse conto é a oralidade, sobretudo na fala da muçulmana, aliás, em outros textos dessa coletânea, as personagens vivem às voltas atentas as entonações e expressões proferidas pelos interlocutores, fato que comprova que Chimamanda trabalha a linguagem e não apenas relata as diferenças culturais, sobretudo a dicotomia Nigéria versos EUA, pois há o risco de ficarmos com a primeira impressão que ela nos passa. E isso, Chimamanda não merece, por isso ela nos disse que o ruim dos estereótipos, é que eles são limitados, nos dão apenas um lado da história.
   Os contos que relatam as personagens nigerianas descobrindo como é viver nos EUA, são cheios de humor, Chimamanda descreve com sutileza, ou uma fina ironia as características reprováveis dos americanos, embora não teça memórias ufanistas da Nigéria, seu país de origem. O fato é que o leitor certamente irá recordar as vezes que pisou em lugares estrangeiros ou mesmo se deslocou da roça para viver numa metrópole  e esteve perdido por não saber os modos de comportamento no novo recinto. Um conto que descreve bem essa situação é “Os casamenteiros”, no qual a protagonista nigeriana se casa com um conterrâneo que mora nos EUA há bastante tempo e este responsabiliza-se por introduzir Chinaza, a personagem principal, ao estilo de vida americano. Como ele faz isso? Interpelando Chinaza todas as vezes que ela utiliza expressões de sua terra, pois ela tinha que ser o mais americanizada possível! Há até mesmo uma passagem bem brasileira, principalmente se você, leitor, for do povão e pegue ônibus lotado:
“No ônibus com ar condicionado, ele me mostrou onde colocar as moedas, como apertar o botão na parede para avisar que eu queria descer.”
“Aqui não é que nem na Nigéria, onde a gente grita para o motorista”, disse com desdém, como se tivesse inventado pessoalmente o superior sistema americano.” (p. 187)
Ainda sobre esse conto, a protagonista refere-se a seu par designando -o “meu novo marido”, como a dizer o quanto seu cônjuge aderiu totalmente ao modo de viver dos americanos, ou seja, era outra pessoa, impedindo-a de utilizar expressões de sua terra e sugerindo que ela começasse a se portar como uma americana também:
“Você não entende como as coisas funcionam nesse país. Se você quiser chegar a algum lugar, tem que ser o mais normal possível. Se não for, vai ser largada na beira da estrada. Tem que usar seu nome inglês aqui.” (p. 186)
Os contos de No seu pescoço são um deleite para nós leitores e certamente nos incute a vontade de conhecer mais sobre a obra de Chimamanda Ngozi Adichie. Até a cantora Beyonce já pegou carona no sucesso da escritora, na canção Flawless, Chimamanda discursa em prol do feminismo. Ouvimos e  leiamos Chimamanda, então!


domingo, 20 de agosto de 2017

Sobre Caio Fernando Abreu

Edição da L&PM, 2012
   O jovem pretensioso mais conhecido como “menino do Acre”, disse em entrevista ao Fantástico, da rede Globo, que as pessoas deviam buscar o “mistério”, seja lá o que raios ele entende por isso e nem estou disposto a ler seu livro para entender. Recordo-me, que nada me aproxima mais  do mistério, que as incansáveis aflições descritas em obras de Clarice Lispector ou de Caio Fernando Abreu, este, totalmente influenciado pela canonizada ucraniana. Certamente Caio adequa-se a categoria formulada por Ezra Pound de escritores que conseguem tornar um estilo de escrita ainda mais consistente, não que “consistente” seja a palavra designada por Ezra, mas a ideia era essa. Os iniciados na literatura de Caio já perceberam que ele utiliza várias passagens clariceanas como epígrafes de seus textos, aliás, numa carta publicada em “Morangos mofados” ele diz ter conhecido pessoalmente a escritora e que ela é infelicíssima por causa de sua “compreensão sagrada de tudo”.
   Bem, devo dizer que sinto um certo incômodo quando “recortam” frases do Caio ou da Clarice, e não sentem curiosidade de saber o contexto em que eles empregaram, ou seja, não buscam o texto na íntegra. Claro que ninguém é obrigado a gostar de ficção, mas por mais que ficção e realidade estejam intrínsecas, há de se considerar o processo escritural, o gênero textual, enfim, o fenômeno texto, então, vale a pena recorrer à obra do escritor. Pois foi só ouvir o “menino do Acre” falar de busca ao conhecimento, ao mistério, etc, corri e peguei da estante  minha edição de bolso de O ovo apunhalado. Confesso que não compreendo muito bem esse projeto escritural do Caio, isto é, entender,  por exemplo, as divisões  dos capítulos, para fazer uma crítica descente, mas esses textos me lançam numa compreensão absurda da existência. São textos que denunciam o estado de negação a que estão submetidas as pessoas que não aceitam, e sequer cogitam aceitar, o outro, pois estão fortemente sob controle das amarras sociais amparadas em arcaísmos religiosos, num poder opressor, etc. Era uma época realmente melancólica, esta descrita nos contos de O ovo apunhalado, o conto “Retratos” que aborda de modo pungente a passagem do tempo, também expõe o quanto a sociedade era impiedosamente excludente nessa época, pois os textos foram escritos entre 1969 e 1973, ou seja o período lembrado como “página infeliz de nossa história”, como canta Chico Buarque.
   O ovo apunhalado foi prefaciado pela genial Lygia Fagundes Telles, só por isso já é digno de ser lido. Sei que os mais entendidos em textos do Caio, são muito tocados pela profundidade ou pelo subjetivismo de textos como “Para uma avenca partindo”- existem inúmeras leituras desse texto no Youtube, entretanto, confesso que os contos que mais me tocaram são: “Gravata”, “Oásis”, “Retratos”, “O afogado” e “Uns sábados, uns agostos”, entre outros. Gravata, porque o conto vai tomando um rumo surpreendente até culminar no desfecho fatal; Oásis porque evoca a infância com toda a ingenuidade e travessuras que muitos de nós tivemos; Retratos, citado anteriormente, porque fala da empatia que devemos ter com os excluídos da sociedade - por que essa resistência, se o outro é feito da mesma matéria? Esse texto abarca um silêncio e um mistério personificado no artista plástico que faz um retrato do protagonista por dia, no decorrer de uma semana; O afogado, porque  além de expôr a ignorância social que encerra outras possibilidades de vivência, num enredo bem construído, é intercalado por um fulminante monólogo interior; e por último, Uns sábados, uns agostos porque, dentre outros motivos, é um conto escrito dentro da técnica clariceana. O ovo apunhalado é um dos meus livros favoritos, da vida.