domingo, 17 de setembro de 2017

Feira das vaidades

A atriz americana Reese Witherspoon em brilhante atuação
  É comum ouvirmos dizer, muitas vezes, que as adaptações cinematográficas de obras literárias sempre ficam aquém da original, há exceções, é claro. Há também, geralmente, casos em que nem sabemos que o filme do qual gostamos tanto fora adaptado de um romance clássico. Nesse caso nos sentimos tentado a conhecer a obra que serviu de base para a “nova versão”, mesmo que a obra em questão seja um calhamaço de mais de oitocentas páginas.  Essa é minha experiência com “Feira das vaidades” filme estrelado por Reese Witherspoon, adaptado do livro de William Makepeace Thackeray, que mal posso esperar pra ler!
  Enquanto não disponho do livro, vamos a algumas impressões sobre o filme: A protagonista é Rebeca Sharp (Reese) uma jovem orfã que desde criança sonhava em pertencer à alta sociedade de Londres, fazendo de tudo para ser aceita pelas pessoas pertencentes a essa esfera social. Sua determinação e ousadia faz contraponto ao comportamento de sua única amiga Amelia, que é a personificação da inocência e do romantismo. Ao torcer para que Amelia tenha um feliz matrimônio, Rebeca é, a princípio, hostilizada por George Osbourne, noivo de Amélia. George é exatamente um poço de vaidade e arrogância, o que na verdade encobre a sua fraqueza no quesito de homem/soldado prestes a lutar pelo seu país na iminente guerra de Waterloo. Antes desse combate, o cinismo de George em relação à Rebeca cai por terra, quando ele percebe que a ausência de berço daquela não a impediu de ser uma mulher culta e com atitudes dignas das pessoas do high society londrino, fato que o faz cortejá-la num baile, ao passo que Amelia,grávida, fica aos cuidados de um amigo que ,na verdade, é apaixonado por ela.

  Uma das ideias que o filme reforça constantemente vem ao encontro do dito popular “sorte no amor, azar no jogo”, numa cena próxima ao clímax dessa estória, um Lord diz à Beck que o seu pai tinha um excelente talento para as artes, mas nenhum para a vida, o qual ela responde que sua missão é mudar isso. Em verdade o Lord em questão é uma das personagens centrais de Feira das vaidades, aparecendo, inclusive, já na primeira cena, despontando à visão de Beck pelo meio do filme e na segunda metade conduzindo ao clímax, quando descortina toda a opulência da sua classe que Beck tanto admira. Esse descortinar significa revelar toda a hipocrisia e mediocridade que reina, inclusive, na figura das damas inglesas que desprezam Beck e se sentem obrigadas a engolir a presença desta porque os cavalheiros rendem-se a sua beleza e autenticidade.Na verdade, Lord Stern encurrala a própria Beck ao relembrar que ela vendera-lhe, em criança, um retrato de sua mãe. Por um alto preço, porém vendera.  Vale ressaltar que Reese Withespoon está deslumbrante aqui. Recomendo este filme,o que escrevi aqui é só um pequeno recorte, pois Feira das vaidades tem belas imagens, belas canções e a história é muito rica,mas se tiverem oportunidade, leiam o livro também.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A envolvente literatura de Chimamanda Ngozi Adichie

Edição da Companhia das letras, 2017
   A literatura de Chimamanda Ngozi Adichie é muito acessível, tanto pela temática, quanto pela simplicidade de sua linguagem, o que não significa que seus textos não mereçam ser agraciados por importantes prêmios literários ou não ter o grande alcance de público leitor. Em “No seu pescoço”, Chimamanda se revela uma contista de mão cheia, pois em alguns textos é evidente a fabulação bem estruturada desse gênero, ou seja, uma estória redonda, na qual a autora se concentra numa situação específica, num cenário designado e com poucas personagens, aspectos que podemos observar no conto “Uma experiência privada”, que aborda a convivência insólita de duas mulheres escondidas num armazém, uma vez que ocorria uma rebelião nas ruas. Estas mulheres, possuíam muitas diferenças culturais: a protagonista era nigeriana, a outra, muçulmana e tais diferenças, não impediram-nas de criar laços de empatia frente ao desalento e temor por qual passavam, mas antes fortaleceram a humanidade entre elas. Outro aspecto reportado nesse conto é a oralidade, sobretudo na fala da muçulmana, aliás, em outros textos dessa coletânea, as personagens vivem às voltas atentas as entonações e expressões proferidas pelos interlocutores, fato que comprova que Chimamanda trabalha a linguagem e não apenas relata as diferenças culturais, sobretudo a dicotomia Nigéria versos EUA, pois há o risco de ficarmos com a primeira impressão que ela nos passa. E isso, Chimamanda não merece, por isso ela nos disse que o ruim dos estereótipos, é que eles são limitados, nos dão apenas um lado da história.
   Os contos que relatam as personagens nigerianas descobrindo como é viver nos EUA, são cheios de humor, Chimamanda descreve com sutileza, ou uma fina ironia as características reprováveis dos americanos, embora não teça memórias ufanistas da Nigéria, seu país de origem. O fato é que o leitor certamente irá recordar as vezes que pisou em lugares estrangeiros ou mesmo se deslocou da roça para viver numa metrópole  e esteve perdido por não saber os modos de comportamento no novo recinto. Um conto que descreve bem essa situação é “Os casamenteiros”, no qual a protagonista nigeriana se casa com um conterrâneo que mora nos EUA há bastante tempo e este responsabiliza-se por introduzir Chinaza, a personagem principal, ao estilo de vida americano. Como ele faz isso? Interpelando Chinaza todas as vezes que ela utiliza expressões de sua terra, pois ela tinha que ser o mais americanizada possível! Há até mesmo uma passagem bem brasileira, principalmente se você, leitor, for do povão e pegue ônibus lotado:
“No ônibus com ar condicionado, ele me mostrou onde colocar as moedas, como apertar o botão na parede para avisar que eu queria descer.”
“Aqui não é que nem na Nigéria, onde a gente grita para o motorista”, disse com desdém, como se tivesse inventado pessoalmente o superior sistema americano.” (p. 187)
Ainda sobre esse conto, a protagonista refere-se a seu par designando -o “meu novo marido”, como a dizer o quanto seu cônjuge aderiu totalmente ao modo de viver dos americanos, ou seja, era outra pessoa, impedindo-a de utilizar expressões de sua terra e sugerindo que ela começasse a se portar como uma americana também:
“Você não entende como as coisas funcionam nesse país. Se você quiser chegar a algum lugar, tem que ser o mais normal possível. Se não for, vai ser largada na beira da estrada. Tem que usar seu nome inglês aqui.” (p. 186)
Os contos de No seu pescoço são um deleite para nós leitores e certamente nos incute a vontade de conhecer mais sobre a obra de Chimamanda Ngozi Adichie. Até a cantora Beyonce já pegou carona no sucesso da escritora, na canção Flawless, Chimamanda discursa em prol do feminismo. Ouvimos e  leiamos Chimamanda, então!


domingo, 20 de agosto de 2017

Sobre Caio Fernando Abreu

Edição da L&PM, 2012
   O jovem pretensioso mais conhecido como “menino do Acre”, disse em entrevista ao Fantástico, da rede Globo, que as pessoas deviam buscar o “mistério”, seja lá o que raios ele entende por isso e nem estou disposto a ler seu livro para entender. Recordo-me, que nada me aproxima mais  do mistério, que as incansáveis aflições descritas em obras de Clarice Lispector ou de Caio Fernando Abreu, este, totalmente influenciado pela canonizada ucraniana. Certamente Caio adequa-se a categoria formulada por Ezra Pound de escritores que conseguem tornar um estilo de escrita ainda mais consistente, não que “consistente” seja a palavra designada por Ezra, mas a ideia era essa. Os iniciados na literatura de Caio já perceberam que ele utiliza várias passagens clariceanas como epígrafes de seus textos, aliás, numa carta publicada em “Morangos mofados” ele diz ter conhecido pessoalmente a escritora e que ela é infelicíssima por causa de sua “compreensão sagrada de tudo”.
   Bem, devo dizer que sinto um certo incômodo quando “recortam” frases do Caio ou da Clarice, e não sentem curiosidade de saber o contexto em que eles empregaram, ou seja, não buscam o texto na íntegra. Claro que ninguém é obrigado a gostar de ficção, mas por mais que ficção e realidade estejam intrínsecas, há de se considerar o processo escritural, o gênero textual, enfim, o fenômeno texto, então, vale a pena recorrer à obra do escritor. Pois foi só ouvir o “menino do Acre” falar de busca ao conhecimento, ao mistério, etc, corri e peguei da estante  minha edição de bolso de O ovo apunhalado. Confesso que não compreendo muito bem esse projeto escritural do Caio, isto é, entender,  por exemplo, as divisões  dos capítulos, para fazer uma crítica descente, mas esses textos me lançam numa compreensão absurda da existência. São textos que denunciam o estado de negação a que estão submetidas as pessoas que não aceitam, e sequer cogitam aceitar, o outro, pois estão fortemente sob controle das amarras sociais amparadas em arcaísmos religiosos, num poder opressor, etc. Era uma época realmente melancólica, esta descrita nos contos de O ovo apunhalado, o conto “Retratos” que aborda de modo pungente a passagem do tempo, também expõe o quanto a sociedade era impiedosamente excludente nessa época, pois os textos foram escritos entre 1969 e 1973, ou seja o período lembrado como “página infeliz de nossa história”, como canta Chico Buarque.
   O ovo apunhalado foi prefaciado pela genial Lygia Fagundes Telles, só por isso já é digno de ser lido. Sei que os mais entendidos em textos do Caio, são muito tocados pela profundidade ou pelo subjetivismo de textos como “Para uma avenca partindo”- existem inúmeras leituras desse texto no Youtube, entretanto, confesso que os contos que mais me tocaram são: “Gravata”, “Oásis”, “Retratos”, “O afogado” e “Uns sábados, uns agostos”, entre outros. Gravata, porque o conto vai tomando um rumo surpreendente até culminar no desfecho fatal; Oásis porque evoca a infância com toda a ingenuidade e travessuras que muitos de nós tivemos; Retratos, citado anteriormente, porque fala da empatia que devemos ter com os excluídos da sociedade - por que essa resistência, se o outro é feito da mesma matéria? Esse texto abarca um silêncio e um mistério personificado no artista plástico que faz um retrato do protagonista por dia, no decorrer de uma semana; O afogado, porque  além de expôr a ignorância social que encerra outras possibilidades de vivência, num enredo bem construído, é intercalado por um fulminante monólogo interior; e por último, Uns sábados, uns agostos porque, dentre outros motivos, é um conto escrito dentro da técnica clariceana. O ovo apunhalado é um dos meus livros favoritos, da vida.    
  

sábado, 29 de julho de 2017

A Disciplina do Amor, Lygia Fagundes Telles

Edição da Rocco,1998
   O conto A disciplina do amor foi o primeiro contato que tive com os textos de Lygia Fagundes Telles. Na época eu pouco entendia de literatura ou coisas mais profundas, porém aquela estória de um cachorro que ficava  esperando seu dono voltar, sem saber que este morrera na guerra (era tempo de guerra e ele fora convocado)me comoveu de tal modo que o nome da escritora cravou em minha mente. O texto homônimo é escrito no formato do conto tradicional, ou como alguns estudiosos denominam uma “short story”, entretanto, os outros textos que integram a coletânea intitulada A disciplina do amor, não apresentam um formato que se possa designar qual é o gênero específico, não é a toa que a própria Lygia os chama de “fragmentos do real e do imaginário”. Ou para efeito de simplificação, digamos que a maioria dos contos e micro - contos  deste volume possuem temática crônica.
   Talvez seja a “disciplina indisciplinada” do amor que permite a narradora fitar o olho e tentar desvendar a natureza dos animais, a exemplo dos textos sobre gatos e cachorros onde a descrição dos movimentos é minuciosamente narrada com uma precisão de detalhes: “O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos, como se os ferisse a luz. Esse o sorriso do gato – ô bicho sutil! Indecifrável. Inatingível.” (p. 10) Já disse outra escritora, a imortal Clarice Lispector, que bicho é a forma mais acessível de gente. Pois então, nada como um texto que evidencia as diferenças entre os animais domésticos mais comuns: o cão e o gato. E a simplicidade e entrega com a qual Lygia inscreve seu estilo narrativo é um deleite a quem se debruça em suas páginas. Mas não são só os bichos que interessam à vida/escritura de Lygia Fagundes Telles: os relatos de viagens a lugares nada clichês, como a China ou o Irã são surpreendentes por capturar algum incidente na cena vivida/descrita pela narradora, como no conto A mulher de Omsk, onde a narradora-personagem usa a linguagem de sinais para se comunicar com uma mulher na Sibéria, uma vez que precisava pedir linha e agulha para pregar os botões do casaco, pois: “Era evidente que se tratava de uma mulher de uma só língua e essa era tão inacessível quanto a linguagem do vento soprando lá fora.” (p.54)

   Não é exagero afirmar que A disciplina do amor figura como uma obra singular, das mais importantes da carreira literária de Lygia. É através de A disciplina do amor que percebemos o quanto a linha que separa a ficção da realidade é tênue por mais que seja evidente a criatividade da autora em utilizar o verniz literário nos irregulares fragmentos que compõem essa coletânea. Não faltam fragmentos que abordam as leituras empreendidas pela autora e que tanto a comoveram, como atestam os textos sobre o poeta Álvares de Azevedo, pertencente “a escola de morrer cedo”, como também os textos que mostram a indignação perante algo mesquinho, como o sensacionalismo midiático em torno de tragédias como as enchentes, por exemplo, ou mesmo a apelação mostrada nos desfiles carnavalescos televisionados. Nada escapa à percepção certeira de Lygia sobre a vida, sobre nós.



sábado, 15 de julho de 2017

Pitty: emotiva e empoderada em Chiaroscuro

Chiaroscuro, em LP e CD, 3° álbum de Pitty 
   Chiaroscuro é o terceiro álbum de estúdio de Pitty e sua banda e foi lançado em 2009. Trata-se de um de seus trabalhos mais  equilibrados, ou seja, onde todos os elementos atingem  um grau exato, tanto no que se refere as letras, quanto no quesito instrumentação. Talvez pelo fato de seu antecessor “Anacrônico” soar intenso demais, tudo ali é exagerado, da depressão na faixa “Deja vù” à loucura de “Memórias”. Não que aquele seja um disco ruim, mas em Chiaroscuro Pitty conseguiu um certo grau de maturidade, disse o que queria sem os arroubos que lembram a adolescência, ou uma revolta clichê de roqueiros pretenciosos.
   Para quem não é ligado em discografia, Chiaroscuro é o álbum que trouxe o hit “Me adora”, faixa que mostra uma faceta mais pop da cantora, uma agradável canção com ares de jovem guarda e todo um clima retrô,  tão bem produzida que nem sentimos abjeção pelo termo “foda”, entoado logo no refrão! Em verdade, é o tipo de música em que não é preciso ser fã do artista nem do gênero musical para curtir, simplesmente contagia-se logo pelos primeiros versos. Outra faixa de Chiaroscuro com potencial equivalente é a balada “Só agora” faixa que mais parece uma canção de ninar, entretanto, o vídeoclipe para essa música retrata um domingo em família num sítio ou algo do tipo e não delimita-se ao fator maternidade, mas a família como um todo.
   Outro elemento que permeia esse álbum é o feminismo, presente na música “Desconstruindo Amélia”, ou seja, é uma faixa que, obviamente, já diz a que veio: pra mostrar que lugar da mulher é aonde ela quiser! Embora críticos mais severos julgam ser uma letra a nível de ensino médio, prefiro afirmar que só pelo fato da canção mencionar Balzac, já ultrapassa o fato de soar simples demais pra ser escrita por uma “mulher com pouco mais de 30 anos”, desculpe Balzac, ainda não li nada seu...  Bem, penso que é uma daquelas faixas que não pode faltar nos shows, até pelo fato de Pitty ser uma banda em que a cantora é praticamente líder. Chiaroscuro é um álbum que se torna melhor a cada audição, tanto as letras mais pessoais em que Pitty se revela emotiva demais (água contida) ou a referida anteriormente “Só agora” quanto a composições que abrangem o social “Desconstruindo Amélia” ou a que melhor representa a humanidade em luta que é “Todos estão mudos” compõem um trabalho bem executado na carreira da artista.



segunda-feira, 19 de junho de 2017

Ciranda de Pedra

Edição recente da Companhia da letras
        Certamente o título “Ciranda de pedra” pode parecer familiar para muitos devido à adaptação para novelas da Rede Globo. O fato é que a leitura do romance de Lygia Fagundes Telles é de fundamental importância para ratificarmos o valor da literatura brasileira escrita por mulheres. Sabemos que Lygia é “peixe grande”, do mesmo time de Clarice, Hilda Hilst, Raquel de Queiroz, etc. Ainda assim se faz necessário levar  alguns leitores à sua obra, pois com a acirrada concorrência do mercado editorial é provável que ela perca espaço para as modinhas literárias da vez.
   Ciranda de pedra é um romance de formação onde acompanhamos a personagem Virginia desde a fase pré-adolescente até a maioridade. Essa personagem é fruto de um “lar desfeito”, ou seja, ela nasceu  de um adultério – assunto considerado tabu na primeira metade do século XX- sua infância é muito penosa, pois vivendo com uma mãe tida como louca, com um homem, o qual ela chama de tio, mais Luciana, uma espécie de empregada, num ambiente com parcos recursos, resta-lhe alargar sua imaginação e prestar atenção em insetos, em outros animais ou mesmo em seres inanimados. Aliás, o agravante dessa situação é que em contrapartida, suas irmãs e seu “pai” habitam uma confortável casa, onde todos recebem a devida atenção, dentro de casa e também com alguns vizinhos, ao passo que ela conversa com uma mãe desorientada e também suspeita do interesse de Luciana pelo patrão. Virginia é tida como um patinho feio, sem ao menos saber a verdade dos fatos, uma vez que sua pouca idade servira de desculpa para essa omissão.
   Um traço marcante na escrita desse romance são as diversas frases aspeadas que são, na maior parte das vezes, o pensamento de Virginia ou lembranças de frases ditas por suas irmãs. Na verdade todo o romance é narrado pela perspectiva de Virginia, uma protagonista astuta e com uma imaginação muito aguçada. A descrição de suas irmãs não deixa de ser interessante: Bruna usa a Bíblia Sagrada como lema de sua vida, devido a isso condena a atitude da mãe; Já Otávia é descrita com ares românticos, desde a aparência até suas atitudes que supõem uma inconsequência. Vale ressaltar que o título Ciranda de pedra tanto alude a uma fonte com uma roda de anões, localizada numa área da casa de suas irmãs, como também ao grupo formado por Bruna, Otávia, Afonso, Conrado e Letícia, estes últimos vizinhos de infância que no decorrer da adolescência acabam por fortalecer os laços de afeto: Bruna enamora-se de Afonso e Otávia de Conrado. Quanto à Virgínia, esta nutre um amor por Conrado que o acompanha em grande parte do romance.
   Ciranda de pedra é uma narrativa inquietante, o leitor é levado a torcer por uma volta por cima na trajetória de Virginia, não que ela seja uma heroína que sofre horrendos castigos, ela jamais demonstra fraqueza, apesar de ter sofrido tanta rejeição. Aliás, essa volta por cima acontece quando ela retorna à casa das irmãs após o internato – por escolha própria- ou seja, a Virgínia de aproximadamente vinte anos retorna mais astuta e descobre a verdadeira face das pessoas que a desprezaram em sua infância. Trata-se de um romance imperdível, Lygia Fagundes Telles é um dos nossos maiores tesouros literários.

domingo, 4 de junho de 2017

A Bela e a Fera

Edição da Editora Rocco da coletânea 
    A Bela e a fera é um pequeno volume de contos de Clarice Lispector. Nessa obra encontramos contos escritos antes de sua grande estreia com o romance Perto do coração selvagem, sendo que a estes contos, somam-se mais dois escritos em 1977: Um dia a menos e A bela e fera ou A ferida grande demais. Trata-se de uma coletânea que apresenta a Clarice “espiritual”, aquela que escreve densos e belos textos, e também a escritora mais resoluta, despudorada, que escreve “com aponta dos dedos” segundo os apontamentos de Vilma Arêas.
  Como exemplo de texto pertencente a grande literatura  clariceana podemos citar “Gertrudes pede um conselho”, neste conto acompanhamos a trajetória de uma adolescente em busca de uma vida mais significativa, na qual ela fosse mais compreendida ou realizada, apesar da pouca idade para grandes pretensões. O que atordoava Gertrudes (apelidada de Tuda) era a banalidade do cotidiano, a qual sua família simplesmente integrava-se sem questionamentos ao passo que ela esperava por grandes acontecimentos. Era uma personagem ávida pelo extraordinário, curiosa, que não aceitava ir vivendo sem questionar a razão, as crenças, Deus, etc. Numa esperança de aplacar suas grandes dúvidas, Tuda escreve cartas a uma espécie de conselheira de revistas, chegando, inclusive, a ser chamada para conversar no escritório da conselheira, doravante a narradora ora adere às perspectivas de Tuda, ora da conselheira. Por vezes temos a impressão que está havendo um duelo entre ambas, pois Tuda embora seja a paciente, é uma moça esperta, ou perspicaz, como a doutora percebera. Foi uma frustração para Tuda o encontro com a conselheira, pois simplesmente: “Ela era igual a Amélia, a Lídia, a todo o mundo, a todo o mundo!”(p.24)Como Tuda sairá dessa? A leitura do conto na íntegra assim como do livro toda irá surpreender!
  Já como exemplo de texto escrito “com a ponta dos dedos”, podemos citar “Um dia a menos”, um dos últimos textos que Clarice escreveu, cujo manuscrito fora organizado pela amiga Olga Boreli. No conto temos uma narradora-personagem que já inicia questionando sobre a morte: “Eu desconfio que a morte vem. Morte?”(p.89) Clarice é especialista em criar personagens femininas que vivem em busca de algo maior, sublime, e a solidão é uma eficaz maneira de se alcançar uma compreensão de si e da vida mesmo. Entretanto, nos contos de 1974 em diante, Clarice deixava transparecer certa impaciência, o que resultava em personagens cômicas ou mesmo bizarras. Margarida Flores, a narradora desse conto relata sobre o infame apelido de infância: “Margarida Flores de Enterro”; sobre sua solidão insuportável, uma vez que sua empregada passaria o mês de férias e ela esquecia-se dos modos de organização da casa. Havia a espera que o telefone tocasse, ela era uma mulher sozinha de trinta anos. Todavia, após várias tentativas de preencher as horas, o telefone toca e Margarida tem a possibilidade de dividir com alguém os seus pensamentos, o que ela fizera de si. Essa situação, ou seja, a conversa ao telefone, é uma cena cômica onde a narradora conversa educadamente até ir as raias da impaciência e desligar “o aparelho” como dizia sua interlocutora que era uma idosa procurando alguém que Margarida Flores sequer sabia da existência-era praticamente um trote.
  O conto que encerra a coletânea, é o texto que intitula esse volume: A bela e a fera ou A ferida grande demais,um texto onde Clarice aborda a questão social, especificamente a temática das diferenças de classe,no qual temos a narradora-personagem representando a classe alta e um mendigo com uma ferida enorme na perna como pertencente a classe dos marginalizados.O encontro de Carla de Souza e Santos com o mendigo provocara-lhe um abalo em sua rotina de mulher rica e elegante, situação parecida a da personagem de outro texto de Clarice: Perdoando Deus, onde sua personagem estava a contemplar e agradecer pela vida e de repente aparece-lhe a feiura do mundo personificada em um rato morto. Ambos os textos são esplêndidos pelo fato de Clarice extrapolar as fronteiras do maniqueísmo, aliás, nestes contos Clarice expõe um certo grau de empatia com as coisas que estão do nosso lado e, por convenção ou egoísmo tendemos a ignorar. Como a exemplo de sua personagem rica e elegante que após tormentos e reflexões chegou ao mesmo nível do mendigo da ferida grande, Concluímos com a constatação de Carla:
“_ Como é que eu nunca descobri que sou também uma mendiga? Nunca pedi esmola mas mendigo o amor de meu marido que tem duas amantes, mendigo pelo amor de Deus que me achem bonita, alegre e aceitável, e minha roupa de alma está maltrapilha...” (p.108)