domingo, 17 de setembro de 2017

Feira das vaidades

A atriz americana Reese Witherspoon em brilhante atuação
  É comum ouvirmos dizer, muitas vezes, que as adaptações cinematográficas de obras literárias sempre ficam aquém da original, há exceções, é claro. Há também, geralmente, casos em que nem sabemos que o filme do qual gostamos tanto fora adaptado de um romance clássico. Nesse caso nos sentimos tentado a conhecer a obra que serviu de base para a “nova versão”, mesmo que a obra em questão seja um calhamaço de mais de oitocentas páginas.  Essa é minha experiência com “Feira das vaidades” filme estrelado por Reese Witherspoon, adaptado do livro de William Makepeace Thackeray, que mal posso esperar pra ler!
  Enquanto não disponho do livro, vamos a algumas impressões sobre o filme: A protagonista é Rebeca Sharp (Reese) uma jovem orfã que desde criança sonhava em pertencer à alta sociedade de Londres, fazendo de tudo para ser aceita pelas pessoas pertencentes a essa esfera social. Sua determinação e ousadia faz contraponto ao comportamento de sua única amiga Amelia, que é a personificação da inocência e do romantismo. Ao torcer para que Amelia tenha um feliz matrimônio, Rebeca é, a princípio, hostilizada por George Osbourne, noivo de Amélia. George é exatamente um poço de vaidade e arrogância, o que na verdade encobre a sua fraqueza no quesito de homem/soldado prestes a lutar pelo seu país na iminente guerra de Waterloo. Antes desse combate, o cinismo de George em relação à Rebeca cai por terra, quando ele percebe que a ausência de berço daquela não a impediu de ser uma mulher culta e com atitudes dignas das pessoas do high society londrino, fato que o faz cortejá-la num baile, ao passo que Amelia,grávida, fica aos cuidados de um amigo que ,na verdade, é apaixonado por ela.

  Uma das ideias que o filme reforça constantemente vem ao encontro do dito popular “sorte no amor, azar no jogo”, numa cena próxima ao clímax dessa estória, um Lord diz à Beck que o seu pai tinha um excelente talento para as artes, mas nenhum para a vida, o qual ela responde que sua missão é mudar isso. Em verdade o Lord em questão é uma das personagens centrais de Feira das vaidades, aparecendo, inclusive, já na primeira cena, despontando à visão de Beck pelo meio do filme e na segunda metade conduzindo ao clímax, quando descortina toda a opulência da sua classe que Beck tanto admira. Esse descortinar significa revelar toda a hipocrisia e mediocridade que reina, inclusive, na figura das damas inglesas que desprezam Beck e se sentem obrigadas a engolir a presença desta porque os cavalheiros rendem-se a sua beleza e autenticidade.Na verdade, Lord Stern encurrala a própria Beck ao relembrar que ela vendera-lhe, em criança, um retrato de sua mãe. Por um alto preço, porém vendera.  Vale ressaltar que Reese Withespoon está deslumbrante aqui. Recomendo este filme,o que escrevi aqui é só um pequeno recorte, pois Feira das vaidades tem belas imagens, belas canções e a história é muito rica,mas se tiverem oportunidade, leiam o livro também.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A envolvente literatura de Chimamanda Ngozi Adichie

Edição da Companhia das letras, 2017
   A literatura de Chimamanda Ngozi Adichie é muito acessível, tanto pela temática, quanto pela simplicidade de sua linguagem, o que não significa que seus textos não mereçam ser agraciados por importantes prêmios literários ou não ter o grande alcance de público leitor. Em “No seu pescoço”, Chimamanda se revela uma contista de mão cheia, pois em alguns textos é evidente a fabulação bem estruturada desse gênero, ou seja, uma estória redonda, na qual a autora se concentra numa situação específica, num cenário designado e com poucas personagens, aspectos que podemos observar no conto “Uma experiência privada”, que aborda a convivência insólita de duas mulheres escondidas num armazém, uma vez que ocorria uma rebelião nas ruas. Estas mulheres, possuíam muitas diferenças culturais: a protagonista era nigeriana, a outra, muçulmana e tais diferenças, não impediram-nas de criar laços de empatia frente ao desalento e temor por qual passavam, mas antes fortaleceram a humanidade entre elas. Outro aspecto reportado nesse conto é a oralidade, sobretudo na fala da muçulmana, aliás, em outros textos dessa coletânea, as personagens vivem às voltas atentas as entonações e expressões proferidas pelos interlocutores, fato que comprova que Chimamanda trabalha a linguagem e não apenas relata as diferenças culturais, sobretudo a dicotomia Nigéria versos EUA, pois há o risco de ficarmos com a primeira impressão que ela nos passa. E isso, Chimamanda não merece, por isso ela nos disse que o ruim dos estereótipos, é que eles são limitados, nos dão apenas um lado da história.
   Os contos que relatam as personagens nigerianas descobrindo como é viver nos EUA, são cheios de humor, Chimamanda descreve com sutileza, ou uma fina ironia as características reprováveis dos americanos, embora não teça memórias ufanistas da Nigéria, seu país de origem. O fato é que o leitor certamente irá recordar as vezes que pisou em lugares estrangeiros ou mesmo se deslocou da roça para viver numa metrópole  e esteve perdido por não saber os modos de comportamento no novo recinto. Um conto que descreve bem essa situação é “Os casamenteiros”, no qual a protagonista nigeriana se casa com um conterrâneo que mora nos EUA há bastante tempo e este responsabiliza-se por introduzir Chinaza, a personagem principal, ao estilo de vida americano. Como ele faz isso? Interpelando Chinaza todas as vezes que ela utiliza expressões de sua terra, pois ela tinha que ser o mais americanizada possível! Há até mesmo uma passagem bem brasileira, principalmente se você, leitor, for do povão e pegue ônibus lotado:
“No ônibus com ar condicionado, ele me mostrou onde colocar as moedas, como apertar o botão na parede para avisar que eu queria descer.”
“Aqui não é que nem na Nigéria, onde a gente grita para o motorista”, disse com desdém, como se tivesse inventado pessoalmente o superior sistema americano.” (p. 187)
Ainda sobre esse conto, a protagonista refere-se a seu par designando -o “meu novo marido”, como a dizer o quanto seu cônjuge aderiu totalmente ao modo de viver dos americanos, ou seja, era outra pessoa, impedindo-a de utilizar expressões de sua terra e sugerindo que ela começasse a se portar como uma americana também:
“Você não entende como as coisas funcionam nesse país. Se você quiser chegar a algum lugar, tem que ser o mais normal possível. Se não for, vai ser largada na beira da estrada. Tem que usar seu nome inglês aqui.” (p. 186)
Os contos de No seu pescoço são um deleite para nós leitores e certamente nos incute a vontade de conhecer mais sobre a obra de Chimamanda Ngozi Adichie. Até a cantora Beyonce já pegou carona no sucesso da escritora, na canção Flawless, Chimamanda discursa em prol do feminismo. Ouvimos e  leiamos Chimamanda, então!


domingo, 20 de agosto de 2017

Sobre Caio Fernando Abreu

Edição da L&PM, 2012
   O jovem pretensioso mais conhecido como “menino do Acre”, disse em entrevista ao Fantástico, da rede Globo, que as pessoas deviam buscar o “mistério”, seja lá o que raios ele entende por isso e nem estou disposto a ler seu livro para entender. Recordo-me, que nada me aproxima mais  do mistério, que as incansáveis aflições descritas em obras de Clarice Lispector ou de Caio Fernando Abreu, este, totalmente influenciado pela canonizada ucraniana. Certamente Caio adequa-se a categoria formulada por Ezra Pound de escritores que conseguem tornar um estilo de escrita ainda mais consistente, não que “consistente” seja a palavra designada por Ezra, mas a ideia era essa. Os iniciados na literatura de Caio já perceberam que ele utiliza várias passagens clariceanas como epígrafes de seus textos, aliás, numa carta publicada em “Morangos mofados” ele diz ter conhecido pessoalmente a escritora e que ela é infelicíssima por causa de sua “compreensão sagrada de tudo”.
   Bem, devo dizer que sinto um certo incômodo quando “recortam” frases do Caio ou da Clarice, e não sentem curiosidade de saber o contexto em que eles empregaram, ou seja, não buscam o texto na íntegra. Claro que ninguém é obrigado a gostar de ficção, mas por mais que ficção e realidade estejam intrínsecas, há de se considerar o processo escritural, o gênero textual, enfim, o fenômeno texto, então, vale a pena recorrer à obra do escritor. Pois foi só ouvir o “menino do Acre” falar de busca ao conhecimento, ao mistério, etc, corri e peguei da estante  minha edição de bolso de O ovo apunhalado. Confesso que não compreendo muito bem esse projeto escritural do Caio, isto é, entender,  por exemplo, as divisões  dos capítulos, para fazer uma crítica descente, mas esses textos me lançam numa compreensão absurda da existência. São textos que denunciam o estado de negação a que estão submetidas as pessoas que não aceitam, e sequer cogitam aceitar, o outro, pois estão fortemente sob controle das amarras sociais amparadas em arcaísmos religiosos, num poder opressor, etc. Era uma época realmente melancólica, esta descrita nos contos de O ovo apunhalado, o conto “Retratos” que aborda de modo pungente a passagem do tempo, também expõe o quanto a sociedade era impiedosamente excludente nessa época, pois os textos foram escritos entre 1969 e 1973, ou seja o período lembrado como “página infeliz de nossa história”, como canta Chico Buarque.
   O ovo apunhalado foi prefaciado pela genial Lygia Fagundes Telles, só por isso já é digno de ser lido. Sei que os mais entendidos em textos do Caio, são muito tocados pela profundidade ou pelo subjetivismo de textos como “Para uma avenca partindo”- existem inúmeras leituras desse texto no Youtube, entretanto, confesso que os contos que mais me tocaram são: “Gravata”, “Oásis”, “Retratos”, “O afogado” e “Uns sábados, uns agostos”, entre outros. Gravata, porque o conto vai tomando um rumo surpreendente até culminar no desfecho fatal; Oásis porque evoca a infância com toda a ingenuidade e travessuras que muitos de nós tivemos; Retratos, citado anteriormente, porque fala da empatia que devemos ter com os excluídos da sociedade - por que essa resistência, se o outro é feito da mesma matéria? Esse texto abarca um silêncio e um mistério personificado no artista plástico que faz um retrato do protagonista por dia, no decorrer de uma semana; O afogado, porque  além de expôr a ignorância social que encerra outras possibilidades de vivência, num enredo bem construído, é intercalado por um fulminante monólogo interior; e por último, Uns sábados, uns agostos porque, dentre outros motivos, é um conto escrito dentro da técnica clariceana. O ovo apunhalado é um dos meus livros favoritos, da vida.    
  

sábado, 29 de julho de 2017

A Disciplina do Amor, Lygia Fagundes Telles

Edição da Rocco,1998
   O conto A disciplina do amor foi o primeiro contato que tive com os textos de Lygia Fagundes Telles. Na época eu pouco entendia de literatura ou coisas mais profundas, porém aquela estória de um cachorro que ficava  esperando seu dono voltar, sem saber que este morrera na guerra (era tempo de guerra e ele fora convocado)me comoveu de tal modo que o nome da escritora cravou em minha mente. O texto homônimo é escrito no formato do conto tradicional, ou como alguns estudiosos denominam uma “short story”, entretanto, os outros textos que integram a coletânea intitulada A disciplina do amor, não apresentam um formato que se possa designar qual é o gênero específico, não é a toa que a própria Lygia os chama de “fragmentos do real e do imaginário”. Ou para efeito de simplificação, digamos que a maioria dos contos e micro - contos  deste volume possuem temática crônica.
   Talvez seja a “disciplina indisciplinada” do amor que permite a narradora fitar o olho e tentar desvendar a natureza dos animais, a exemplo dos textos sobre gatos e cachorros onde a descrição dos movimentos é minuciosamente narrada com uma precisão de detalhes: “O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos, como se os ferisse a luz. Esse o sorriso do gato – ô bicho sutil! Indecifrável. Inatingível.” (p. 10) Já disse outra escritora, a imortal Clarice Lispector, que bicho é a forma mais acessível de gente. Pois então, nada como um texto que evidencia as diferenças entre os animais domésticos mais comuns: o cão e o gato. E a simplicidade e entrega com a qual Lygia inscreve seu estilo narrativo é um deleite a quem se debruça em suas páginas. Mas não são só os bichos que interessam à vida/escritura de Lygia Fagundes Telles: os relatos de viagens a lugares nada clichês, como a China ou o Irã são surpreendentes por capturar algum incidente na cena vivida/descrita pela narradora, como no conto A mulher de Omsk, onde a narradora-personagem usa a linguagem de sinais para se comunicar com uma mulher na Sibéria, uma vez que precisava pedir linha e agulha para pregar os botões do casaco, pois: “Era evidente que se tratava de uma mulher de uma só língua e essa era tão inacessível quanto a linguagem do vento soprando lá fora.” (p.54)

   Não é exagero afirmar que A disciplina do amor figura como uma obra singular, das mais importantes da carreira literária de Lygia. É através de A disciplina do amor que percebemos o quanto a linha que separa a ficção da realidade é tênue por mais que seja evidente a criatividade da autora em utilizar o verniz literário nos irregulares fragmentos que compõem essa coletânea. Não faltam fragmentos que abordam as leituras empreendidas pela autora e que tanto a comoveram, como atestam os textos sobre o poeta Álvares de Azevedo, pertencente “a escola de morrer cedo”, como também os textos que mostram a indignação perante algo mesquinho, como o sensacionalismo midiático em torno de tragédias como as enchentes, por exemplo, ou mesmo a apelação mostrada nos desfiles carnavalescos televisionados. Nada escapa à percepção certeira de Lygia sobre a vida, sobre nós.



sábado, 15 de julho de 2017

Pitty: emotiva e empoderada em Chiaroscuro

Chiaroscuro, em LP e CD, 3° álbum de Pitty 
   Chiaroscuro é o terceiro álbum de estúdio de Pitty e sua banda e foi lançado em 2009. Trata-se de um de seus trabalhos mais  equilibrados, ou seja, onde todos os elementos atingem  um grau exato, tanto no que se refere as letras, quanto no quesito instrumentação. Talvez pelo fato de seu antecessor “Anacrônico” soar intenso demais, tudo ali é exagerado, da depressão na faixa “Deja vù” à loucura de “Memórias”. Não que aquele seja um disco ruim, mas em Chiaroscuro Pitty conseguiu um certo grau de maturidade, disse o que queria sem os arroubos que lembram a adolescência, ou uma revolta clichê de roqueiros pretenciosos.
   Para quem não é ligado em discografia, Chiaroscuro é o álbum que trouxe o hit “Me adora”, faixa que mostra uma faceta mais pop da cantora, uma agradável canção com ares de jovem guarda e todo um clima retrô,  tão bem produzida que nem sentimos abjeção pelo termo “foda”, entoado logo no refrão! Em verdade, é o tipo de música em que não é preciso ser fã do artista nem do gênero musical para curtir, simplesmente contagia-se logo pelos primeiros versos. Outra faixa de Chiaroscuro com potencial equivalente é a balada “Só agora” faixa que mais parece uma canção de ninar, entretanto, o vídeoclipe para essa música retrata um domingo em família num sítio ou algo do tipo e não delimita-se ao fator maternidade, mas a família como um todo.
   Outro elemento que permeia esse álbum é o feminismo, presente na música “Desconstruindo Amélia”, ou seja, é uma faixa que, obviamente, já diz a que veio: pra mostrar que lugar da mulher é aonde ela quiser! Embora críticos mais severos julgam ser uma letra a nível de ensino médio, prefiro afirmar que só pelo fato da canção mencionar Balzac, já ultrapassa o fato de soar simples demais pra ser escrita por uma “mulher com pouco mais de 30 anos”, desculpe Balzac, ainda não li nada seu...  Bem, penso que é uma daquelas faixas que não pode faltar nos shows, até pelo fato de Pitty ser uma banda em que a cantora é praticamente líder. Chiaroscuro é um álbum que se torna melhor a cada audição, tanto as letras mais pessoais em que Pitty se revela emotiva demais (água contida) ou a referida anteriormente “Só agora” quanto a composições que abrangem o social “Desconstruindo Amélia” ou a que melhor representa a humanidade em luta que é “Todos estão mudos” compõem um trabalho bem executado na carreira da artista.



segunda-feira, 19 de junho de 2017

Ciranda de Pedra

Edição recente da Companhia da letras
        Certamente o título “Ciranda de pedra” pode parecer familiar para muitos devido à adaptação para novelas da Rede Globo. O fato é que a leitura do romance de Lygia Fagundes Telles é de fundamental importância para ratificarmos o valor da literatura brasileira escrita por mulheres. Sabemos que Lygia é “peixe grande”, do mesmo time de Clarice, Hilda Hilst, Raquel de Queiroz, etc. Ainda assim se faz necessário levar  alguns leitores à sua obra, pois com a acirrada concorrência do mercado editorial é provável que ela perca espaço para as modinhas literárias da vez.
   Ciranda de pedra é um romance de formação onde acompanhamos a personagem Virginia desde a fase pré-adolescente até a maioridade. Essa personagem é fruto de um “lar desfeito”, ou seja, ela nasceu  de um adultério – assunto considerado tabu na primeira metade do século XX- sua infância é muito penosa, pois vivendo com uma mãe tida como louca, com um homem, o qual ela chama de tio, mais Luciana, uma espécie de empregada, num ambiente com parcos recursos, resta-lhe alargar sua imaginação e prestar atenção em insetos, em outros animais ou mesmo em seres inanimados. Aliás, o agravante dessa situação é que em contrapartida, suas irmãs e seu “pai” habitam uma confortável casa, onde todos recebem a devida atenção, dentro de casa e também com alguns vizinhos, ao passo que ela conversa com uma mãe desorientada e também suspeita do interesse de Luciana pelo patrão. Virginia é tida como um patinho feio, sem ao menos saber a verdade dos fatos, uma vez que sua pouca idade servira de desculpa para essa omissão.
   Um traço marcante na escrita desse romance são as diversas frases aspeadas que são, na maior parte das vezes, o pensamento de Virginia ou lembranças de frases ditas por suas irmãs. Na verdade todo o romance é narrado pela perspectiva de Virginia, uma protagonista astuta e com uma imaginação muito aguçada. A descrição de suas irmãs não deixa de ser interessante: Bruna usa a Bíblia Sagrada como lema de sua vida, devido a isso condena a atitude da mãe; Já Otávia é descrita com ares românticos, desde a aparência até suas atitudes que supõem uma inconsequência. Vale ressaltar que o título Ciranda de pedra tanto alude a uma fonte com uma roda de anões, localizada numa área da casa de suas irmãs, como também ao grupo formado por Bruna, Otávia, Afonso, Conrado e Letícia, estes últimos vizinhos de infância que no decorrer da adolescência acabam por fortalecer os laços de afeto: Bruna enamora-se de Afonso e Otávia de Conrado. Quanto à Virgínia, esta nutre um amor por Conrado que o acompanha em grande parte do romance.
   Ciranda de pedra é uma narrativa inquietante, o leitor é levado a torcer por uma volta por cima na trajetória de Virginia, não que ela seja uma heroína que sofre horrendos castigos, ela jamais demonstra fraqueza, apesar de ter sofrido tanta rejeição. Aliás, essa volta por cima acontece quando ela retorna à casa das irmãs após o internato – por escolha própria- ou seja, a Virgínia de aproximadamente vinte anos retorna mais astuta e descobre a verdadeira face das pessoas que a desprezaram em sua infância. Trata-se de um romance imperdível, Lygia Fagundes Telles é um dos nossos maiores tesouros literários.

domingo, 4 de junho de 2017

A Bela e a Fera

Edição da Editora Rocco da coletânea 
    A Bela e a fera é um pequeno volume de contos de Clarice Lispector. Nessa obra encontramos contos escritos antes de sua grande estreia com o romance Perto do coração selvagem, sendo que a estes contos, somam-se mais dois escritos em 1977: Um dia a menos e A bela e fera ou A ferida grande demais. Trata-se de uma coletânea que apresenta a Clarice “espiritual”, aquela que escreve densos e belos textos, e também a escritora mais resoluta, despudorada, que escreve “com aponta dos dedos” segundo os apontamentos de Vilma Arêas.
  Como exemplo de texto pertencente a grande literatura  clariceana podemos citar “Gertrudes pede um conselho”, neste conto acompanhamos a trajetória de uma adolescente em busca de uma vida mais significativa, na qual ela fosse mais compreendida ou realizada, apesar da pouca idade para grandes pretensões. O que atordoava Gertrudes (apelidada de Tuda) era a banalidade do cotidiano, a qual sua família simplesmente integrava-se sem questionamentos ao passo que ela esperava por grandes acontecimentos. Era uma personagem ávida pelo extraordinário, curiosa, que não aceitava ir vivendo sem questionar a razão, as crenças, Deus, etc. Numa esperança de aplacar suas grandes dúvidas, Tuda escreve cartas a uma espécie de conselheira de revistas, chegando, inclusive, a ser chamada para conversar no escritório da conselheira, doravante a narradora ora adere às perspectivas de Tuda, ora da conselheira. Por vezes temos a impressão que está havendo um duelo entre ambas, pois Tuda embora seja a paciente, é uma moça esperta, ou perspicaz, como a doutora percebera. Foi uma frustração para Tuda o encontro com a conselheira, pois simplesmente: “Ela era igual a Amélia, a Lídia, a todo o mundo, a todo o mundo!”(p.24)Como Tuda sairá dessa? A leitura do conto na íntegra assim como do livro toda irá surpreender!
  Já como exemplo de texto escrito “com a ponta dos dedos”, podemos citar “Um dia a menos”, um dos últimos textos que Clarice escreveu, cujo manuscrito fora organizado pela amiga Olga Boreli. No conto temos uma narradora-personagem que já inicia questionando sobre a morte: “Eu desconfio que a morte vem. Morte?”(p.89) Clarice é especialista em criar personagens femininas que vivem em busca de algo maior, sublime, e a solidão é uma eficaz maneira de se alcançar uma compreensão de si e da vida mesmo. Entretanto, nos contos de 1974 em diante, Clarice deixava transparecer certa impaciência, o que resultava em personagens cômicas ou mesmo bizarras. Margarida Flores, a narradora desse conto relata sobre o infame apelido de infância: “Margarida Flores de Enterro”; sobre sua solidão insuportável, uma vez que sua empregada passaria o mês de férias e ela esquecia-se dos modos de organização da casa. Havia a espera que o telefone tocasse, ela era uma mulher sozinha de trinta anos. Todavia, após várias tentativas de preencher as horas, o telefone toca e Margarida tem a possibilidade de dividir com alguém os seus pensamentos, o que ela fizera de si. Essa situação, ou seja, a conversa ao telefone, é uma cena cômica onde a narradora conversa educadamente até ir as raias da impaciência e desligar “o aparelho” como dizia sua interlocutora que era uma idosa procurando alguém que Margarida Flores sequer sabia da existência-era praticamente um trote.
  O conto que encerra a coletânea, é o texto que intitula esse volume: A bela e a fera ou A ferida grande demais,um texto onde Clarice aborda a questão social, especificamente a temática das diferenças de classe,no qual temos a narradora-personagem representando a classe alta e um mendigo com uma ferida enorme na perna como pertencente a classe dos marginalizados.O encontro de Carla de Souza e Santos com o mendigo provocara-lhe um abalo em sua rotina de mulher rica e elegante, situação parecida a da personagem de outro texto de Clarice: Perdoando Deus, onde sua personagem estava a contemplar e agradecer pela vida e de repente aparece-lhe a feiura do mundo personificada em um rato morto. Ambos os textos são esplêndidos pelo fato de Clarice extrapolar as fronteiras do maniqueísmo, aliás, nestes contos Clarice expõe um certo grau de empatia com as coisas que estão do nosso lado e, por convenção ou egoísmo tendemos a ignorar. Como a exemplo de sua personagem rica e elegante que após tormentos e reflexões chegou ao mesmo nível do mendigo da ferida grande, Concluímos com a constatação de Carla:
“_ Como é que eu nunca descobri que sou também uma mendiga? Nunca pedi esmola mas mendigo o amor de meu marido que tem duas amantes, mendigo pelo amor de Deus que me achem bonita, alegre e aceitável, e minha roupa de alma está maltrapilha...” (p.108)   

domingo, 21 de maio de 2017

Humanz, Gorillaz

Capa da edição simples do álbum Humanz
  Após seis anos sem lançar material inédito o Gorillaz retorna com o álbum “Humanz”. E o que esperar desse lançamento? Hits grudentos? Como uma nova “Clint Eastwood” ou “Feel good inc”? Ou algo na linha do “The Fall”, que mais parecem b-sides ou sobras de estúdio? A questão é que Humanz está dando o que falar, de um lado, fãs antigos reclamam do excesso de convidados que parecem anular a essência do Gorillaz. Do outro, certa parcela de fãs ou mesmo alguns críticos, celebram essa polifonia caótica organizada pelo gênio Damon Albarn.
A característica mais evidente em Humanz é a polifonia, o que realmente passa uma impressão de bagunça, desorientando aqueles que buscam um trabalho conceitual e coerente. Todavia, é notável em Humanz a preocupação com o coletivo, com a humanidade mesmo, liberta de preconceitos, lembremo-nos da onda conservadora que domina o mundo nos últimos tempos. Foi esse olhar para a realidade opressora que culminou na inteligente letra de “Hallelujah Money”, além, claro, do fato dela ser cantada por Benjamin Clementine, o que é um alívio quando se está cansado da mesmice do cenário musical e de repente deparamo-nos com um vocalista um tanto peculiar. Quanto aos arranjos dessa faixa, esse aspecto sim, é muito do que o Gorillaz mostrou no “The Fall”. No entanto, ao agregar tantos convidados, torna-se inevitável não recordarmos do excelente “Plastic Beach”, álbum de 2010 que teve colaborações de Snoop Dog, Bob Womack, Little Dragon, entre outros. Em Humanz o número de convidados é absurdamente maior. Temos rappers como Pusha T., Popcaan; a diva Grace Jones; o trio de hip hop De la soul; Jehnny Beth, Kelela, entre tantos outros nomes, conhecidos ou não do grande público.
Tudo em Humanz aponta para o fato de que Damon Albarn não quer brilhar sozinho. Na melancólica “Busted and blue” temos Kelela (ótima) colaborando nos vocais, “Andromeda” é um feat D.R.A.M., ambas as faixas estão entre as melhores desse trabalho, principalmente para quem aprecia a interpretação de Damon Albarn, o artista que “me amolece os ossos” quando canta uma balada e que clama para que o público vibre, pule, quando ele e sua banda estão no palco cantando uma música agitada. Certamente ele iria gostar do público brasileiro – que é um bando de louco. Já diz Faustão: “Quem sabe faz ao vivo”, pois então, algumas faixas que parecem insossas no disco tomam outra dimensão ao vivo, é o caso de “We got the power”, que tem uma enérgica Jehnny Beth colaborando nos vocais, e também Noel Gallagher, e também sinos! Numa composição otimista e empolgante que faz querer pular insanamente onde quer que se esteja. Essa pegada agitada, o clima clubber é também a tônica de “Sex Murder Party”, embora eu não fazendo ideia sobre o que essa letra fala eu fico a dançar em êxtase. Humanz divide muito opiniões, como fan do Gorillaz, fiquei satisfeito com esse novo trabalho. “Plastic Beach” continua insuperável, mas Humanz cresce à medida que se ouve e conhecemos os artistas novos que agregam a polifonia caótica desse álbum. Nota 8,0.

domingo, 7 de maio de 2017

O Lobo Atrás Da Porta

Leandra leal em sua premiada atuação do filme
   O lobo atrás da porta, como o título já sugere, é um filme brasileiro que alude a célebre estória da Chapeuzinho Vermelho. É uma produção dirigida por Fernando Coimbra e estrelada por Leandra leal, Milhen Cortaz, Fabíula Nascimento, entre outros nomes de peso do cinema e televisão. A narrativa que fala do sumiço de uma criança no subúrbio carioca é baseada em fatos reais que ocorreram na década de 1960.
   Na cena inicial de O lobo atrás da porta temos um delegado desbocado, interpretado por Juliano Cazarré, colhendo depoimentos dos pais da criança desaparecida, numa cena ágil que já aguça a curiosidade do espectador pra saber como se deu o sumiço de Clarinha, filha da ingênua Sylvia (Fabíula nascimento) e de Bernardo (Milhen Cortaz). O delegado intima com a fome e sagacidade de um lobo, os pais da criança e a tia da creche (Karine Teles), esta, afirmando ter liberado a criança após um telefonema da mãe autorizando que uma amiga levasse Clarinha embora, uma vez que Sylvia estava doente. A cena apesar de tensa – o quão desesperador é a impotência de não saber onde está um filho, sendo criança então..., essa sequência tem alguma dose de humor negro provocada pelo personagem de Cazarré.
   Todavia o lobo dessa narrativa não é o desbocado delegado, há mais pessoas a serem interrogadas. Que segredos os pais de Clarinha escondem? Há quantas andava o casamento deles? É ai que Bernardo relata ao delegado que tinha uma amante, Rosa (Leandra leal), jovem, bela, misteriosa, a presa ideal para um predador tal qual vemos na feição de Milhen ao conhecer Rosa no vagão do trem rumo ao subúrbio carioca. Ressalto que após a sequência do depoimento dos pais de Clarinha, a narrativa abarca um tom de suspense, com vários enfoques na nuca de Rosa, em seus passos intrigantes e maliciosos que tornam-se mais intensos devido a trilha sonora em tais cenas. Nessa altura, o delegado já chegou a Rosa e está ouvindo seu depoimento, não economizando, é claro, no linguajar de baixo calão. A versão de Rosa nos coloca numa sensação de horror, diante das consequências que certas atitudes provocam. Obviamente o verdadeiro lobo dessa história merece cumprir sua pena como está descrito na lei, entretanto, isso não isenta Bernardo de culpa pela forma como conduziu seu caso com Rosa. O machismo ou sem-vergonhice de Bernardo provoca náuseas, não que eu esteja  a justificar Rosa.
   Se este filme fez barulho nos festivais por qual passou, chegando a levar importantes prêmios, isso é mais que merecido. Fernando Coimbra, o diretor, juntamente como estelar elenco entregaram um filme perturbador, apresentando um drama-thriller que configura a força do cinema brasileiro, ou seja, um filme artístico, diferente do que as massas entendem por filme nacional, uma vez que geralmente tendem a ter preconceito com as produções brasileiras, por associarem à temática de favelas ou as comédias toscas como as encabeçadas por Leandro Hassum e Cia.

P.S. Não esqueçam de verificar a classificação indicativa. Bom filme!

sábado, 22 de abril de 2017

"Tropical, Latino-americana"

Céu em foto da fase Tropix
   Tropix é o quarto álbum de estúdio da cantora paulistana Céu, há pouco mais de um ano do seu lançamento, a cantora continua colhendo os frutos desse primoroso trabalho. Seu show na última edição do Lollapalooza Brasil ratifica o quanto a sua música é universal, tanto pela versatilidade dos arranjos, quanto pela poeticidade que emana de suas composições. No aclamado álbum apenas duas faixas não foram compostas por ela: “Chico Buarque song”, um cover da banda Felini e “A nave vai”, composta por Jorge Du peixe, esta, uma das mais irresistíveis do Tropix, sendo a faixa que encerra os shows da turnê. Certamente é uma das melhores do álbum,  essa composição  aborda, entre outras acepções, a nossa insignificância nessa “nave”, ou o nossa inconstância e os desdobramentos – “De manhã sou um, de noite já fui dois.” “Seremos quem somos ou serei quem sois.”
   Outra característica do Tropix é a abordagem do social, ou seja, Céu conserva seu intimismo nas composições, mas abriu o leque para uma esfera maior tematizando a responsabilidade com os filhos, isto é, na faixa “Rapsódia brasilis” o eu lírico incorpora a figura da empregada que fica com a criança durante grande parte do tempo, observando seu crescimento, as brincadeiras, uma vez que, geralmente a patroa/mãe, trabalha fora e “delega” - expressão empregada pela própria Céu numa entrevista –  à empregada ou babá a função de cuidar dos filhos. Basicamente é uma composição que vai ao encontro do que é retratado no filme “Que horas ela volta”, obra de outra ilustre paulistana, Anna Muylaert. Rapsódia brasilis é a faixa que abre os shows da turnê, seguida pela primeira a ser divulgada do álbum “Perfume do invisível”, faixa empolgante e que sintetiza o ideal desse trabalho: a utilização sonora de linguagem eletrônica, o pixel, dai Tropix, um eletrônico somado a brasilidade dos trópicos.

   Já que falei em brasilidade, em tropical, não há como esquecer da faixa que teve mais aceitação nesse trabalho da Céu: “Varanda suspensa”, a letra versa sobre  uma paisagem do litoral norte paulista, reminiscências de quando a cantora ia passar as férias, há muito tempo, provavelmente em criança, em casa de avós em São Sebastião. Impressiona como algo tão simples, transforma-se em pura poesia nos dedos e garganta de Céu. E também o mérito deve ser atribuído aos produtores desta canção e do trabalho como um todo. Tropix é certamente um dos seus melhores trabalhos. Não há faixa que se queira pular, pois cada uma possui uma peculiaridade a ser apreciada e geralmente é a poesia da compositora. Não há como ficar inerte quando ela embala “Saiba, meu amor/Cuidarei de nós/Mesmo quando eu for/ Em busca de mim/Em busca do que/Faz você me amar/Mais. Alguns exaltados até comparam-na com Maria Bethania, o que nem é preciso, Céu é ela mesma!

domingo, 9 de abril de 2017

Nostalgia

Trilha sonora da novela exibida em 1994
  Tudo começou com a volta do vinil, que por sinal custam muito caro, mas a vitrola fora um inestimável presente. O primeiro vinil ganhei antes mesmo do aparelho. Novíssimo claro, o LP Tropix da cantora e compositora paulistana Céu. Todo fim de semana a faxina é com a bolacha girando devagar ao volume que irradie pelo parco ambiente de dois cômodos que habito. O amigo conterrâneo comentou o hábito retrógrado, mas eu disse-lhe “é vintage” ao que ele esboçou um “ahh”. Mas como adquirir os vinis novos com tão salgados preços? O jeito é garimpar os discos do século XX nos sebos, o que não falta em Sampa, não é mesmo? Enquanto 99% das pessoas, meu namorado inclusive, viça o brilho no olhar com o novo comercial do mais novo aparelho celular, do meu lado mesmo, no intervalo da novela. Não sinto nada mesmo por essa inovação toda! Por mais lindo que seja o celular.
  Que sensação radiante! Por outro lado, parece-me, mais um indício da insatisfação pelo presente. Sim, a confirmação veio com o apreço às trilhas internacionais de novelas. As do século passado, claro! Precisamente as da última década, os anos noventa foram minha descoberta do mundo. A imersão na horrível fase que é a adolescência. Bem, mas naquela década, as telenovelas da Globo eram bem contadas. Quem dessa época não recorda de “Quatro por Quatro” ou “Vamp”? E a trilha sonora é um capítulo à parte. Hoje tudo soa previsível demais... as redes sociais tem sua parcela de culpa, os assuntos infestam-se por timelines até esgotarem o sumo e dar vez a outro assunto e no fim tudo é mais do mesmo. O que fica? O presente me aniquila, volto ao passado pra recuperar algum sentimento. As bolachas com os atores na capa servem de antídoto para ultrapassar. Breguice? Que seja, mas as canções até provocam epifanias. Talvez faziam muito sucesso pela pouca competitividade, então os músicos tiveram nessa época sua fase áurea. Quem não recorda o Pet Shop Boys, Bon Jovi, Information Society, Sade, enfim, inúmeros que até continuam na ativa, mas o som daquela época era tudo! Só não consigo lembrar que personagem da novela certa canção era  tema, até porque muitas novelas eu nem assistir. Depois darei uma olhada no canal Viva.

  Pego-me a lembrar que nessa década de noventa muitos assuntos eram um tabu desgraçado! Ah... mesmo assim que saudade que deu... “o passado é uma selva de horrores” disse R. M. D. mas bem que eu voltaria no tempo... pra variar, a beleza de Marion Cotillard leva-me a assistir “Meia noite em Paris” que aborda, entre outras coisas essa insatisfação com o presente – sob o ponto de vista de ilustres como F. Scott Fitzgerald, Salvador Dali, Paul Gauguin, entre outros e do protagonista do filme “Gil Pender” vivido por Owen Wilson, na verdade a personificação do grande Woody Allen. O que seria de mim sem filmes bons como esse... cumpriria meu destino, ora essa! Por enquanto enamoro-me dos LPS baratos de trilhas de novelas com as atrizes nas capas ostentando penteados à moda da época. As canções soam tão autênticas, doces melodias, etéreas, já nem sei como descrever as sensações nostálgicas. Mas nem adianta me convidarem pra festas temáticas tipo “flashbacks” que provavelmente não irei. Velho, eu ao menos, durmo com as galinhas. 

domingo, 26 de março de 2017

Algumas notas sobre "A hora da estrela"

Edição da Editora Rocco, de 1998
   A obra “A hora da estrela”, de Clarice Lispector é geralmente o primeiro contato que os adolescentes obtem com textos da referida autora. Seria sua obra mais palatável? Sobretudo a leitores iniciantes em tão densa literatura? Seria o fato desta novela conter poucas páginas? A questão é que não raro ouvimos um jovem aluno dizer que “odeia” essa autora. Sim, essa autora que possui uma vasta obra tanto singular quanto cheia de desdobramentos que respondem aos vários estados d’alma, ou seja, em sua escritura contém a Clarice jovem, a Clarice mãe ou mesmo a Clarice humana que sonda vários aspectos do homem na Sociedade.
   Levando em conta que o fato da iniciação em Clarice ocorra através de “A hora da estrela”, é provável que o jovem leitor sofra uma perturbação logo nas primeiras páginas, aliás, logo na “Dedicatória do autor” onde somos apresentados a vários músicos clássicos que só mesmo um indivíduo banhado em erudição pode reconhecer nomes como “Schumann”, “Debussy” ou “Richard Strauss”. Pensemos nos adolescentes brasileiros de classe baixa embebidos de funk ostentação ou proibidão mesmo ao adentrar em dedicatória tão rebuscada, o estranhamento é certo. Há também o fato da narrativa “de fato” demorar a engrenar, ou seja, em “A hora da estrela” a metalinguagem é gritante, literalmente é como se houvessem duas narrativas: a do narrador argumentando as possíveis escolhas narrativas e a história em si. Que história? “A de uma inocência pisada”. “De uma miséria anônima”. São palavras da própria autora em sua entrevista na TV Cultura.
   A leitura de “A hora da estrela” tem diversos pontos positivos, além do humor característico da ambígua Clarice, sempre melancólica e feroz, a “tímida e ousada”, apresenta uma personagem, Macabéa, uma nordestina de Alagoas. A esta é atribuída uma série de defeitos e o leitor fica entre a raiva ou a piedade para com personagem tão desprovida de tudo. Macabéa vive sem perspectiva alguma, como um ser “lesado”, desleixado. A personagem é uma sonhadora deslumbrada pelas estrelas de cinema, sobretudo Marilyn Monroe. O narrador indaga sobre como descrever de modo sofisticado uma vida tão parca como a de Macabéa. E mesmo sendo tão despreparada para encarar as coisas práticas da vida, seja no trabalho, nas relações pessoais, a personagem é atraída por alguma informação, pois gasta suas horas ouvindo a Rádio Relógio ou colecionando anúncios. É realmente de uma ironia impressionante esta obra de Clarice, isso sem contar no humor, fator que atinge o ápice quando Macabéa arranja um namorado: Olímpico de Jesus, nordestino assim como ela. O diálogo entre ambos é risível, ele conta-lhe suas ambições ao passo que ela, sempre alheia ao seu papel no mundo, relembra as notícias que ouvira na Rádio Relógio. Outra característica marcante de Macabéa é que, apesar de seu desalento, ela tem a língua afiada, vejamos um diálogo entre ela e Glória, sua colega de trabalho:
- Me desculpe eu perguntar: ser feia dói?
- Nunca pensei nisso, acho que dói um pouquinho. Mas eu lhe pergunto se você que é feia sente dor.
- Eu não sou feia!!!, Gritou Glória. (p. 62)

   Talvez a escolha dessa narrativa para que jovens alunos conheçam a obra de Clarice seja devido ao fato da protagonista servir de exemplo daquilo que não devemos ser. Esclarecendo, os jovens estão sendo educados para que exerçam seu papel de cidadão, agindo em prol do seu bem estar e o progresso da sociedade. Macabéa, coitadinha! Certamente, muitos leitores torcerão por ela, ou seja, em se tratando daqueles que venceram a perturbação das primeiras páginas e prosseguiram na leitura até encontrar, de fato, a história contada por Rodrigo S.M. Acredito que estes jovens leitores que concluíram a novela tem muito a ganhar com o conhecimento de personagens tão envolventes como Macabéa e Olímpico, aliás, com a narrativa por inteiro, soma-se o intricado desenrolar da narrativa, sempre interrompida pelo narrador (sobretudo na primeira metade) aos diálogos entre Macabéa e seu namorado, ou entre Glória e finalmente entre a cartomante que lhe vaticina um futuro brilhante.  

sábado, 4 de março de 2017

La La Land

Os atores Emma Stone e Ryan Gosling em perfeita sintonia
   Para os amantes do cinema, a temporada de premiações, especialmente quando são divulgadas as produções que concorrem ao Oscar, a corrida ao cinema é inevitável. A menos que as condições financeiras impossibilitem, mas nossa curiosidade em conferir os filmes mais indicados é tamanha que tentamos driblar a escassez monetária. No mais, é curiosidade mesmo ou um grau de intelectualidade que nos seduz. Sim, mesmo não sendo expert na sétima arte, apesar do repertório paupérrimo que sei acerca da história do cinema e dos poucos clássicos assistidos, sou um aspirante a cinéfilo. Pretensão? Que seja. Bem, logo que começou a especulação em torno de “La La land”, a curiosidade bateu minha porta. Quando o filme levou vários prêmios no Golden Globe e sucederam-se as catorze indicações ao Oscar a curiosidade foi geral. “Que esse filme tem de tão bom?” “O que significa esse título?” Se o assunto era cinema, o filme de Damien Chazelle era o mais pronunciado. Afinal, trata-se do mesmo diretor de Whiplash: em busca da perfeição, filme vencedor de três Oscars!
   Então corri ao cinema próximo de meu bairro que pertence à região do centro expandido de São Paulo: o cinema do Shopping Metrô Boulevard Tatuapé não é tão lotado quanto o outro, ainda assim, a fila de umas quarenta pessoas estava a me deixar impaciente. Poderia comprar nas máquinas, onde as filas eram menores, mas minha aversão à tecnologia e tudo que soa moderníssimo falou mais alto, preferi encarar o jovem guichê e comprar uma inteira para ver La La land e assim me senti antenado e não  fazer a Glória Pires nos papos sobre cinema. Estava na companhia de meu namorado, literalmente, era só sua companhia mesmo, pois é pessoa que prefere os filmes barulhentos de ação, ou os do tipo “baseado em fatos reais”, e que sejam dublados, "pois nós falamos português!" Como percebem, estou mesmo arranjado. Comecei a entoar “City of stars” ansioso pra  ver a aclamada obra de Damien Chazelle. Ao adentrar a sala cinco, percebo que os assentos eram ocupados por muitas crianças, acompanhadas dos pais ou tios, claro. Pus-me a pensar: Será que viram algo de  lúdico no título? Seriam as indicações ao Oscar que aguçou a curiosidade dos pais dessa ala infantojuvenil? Havia tantas opções de filmes...

   Passado os trailers, concentro-me em La La Land com a devoção de um católico praticante. Seduzido pela estética cinematográfica do jovem Chazelle, tento devorar o estranho e expressivo rosto de Emma Stone; A beleza e o carisma de Ryan Gosling aqui funcionam excepcionalmente. A sintonia do casal proporciona um show de atuação e apesar de não serem dançarinos, suas performances confirmam o empenho dedicado para não fazer feio. Até porque quem conhece o diretor, Chazelle, fala que o moço é perfeccionista. O roteiro é cativante, abordando a busca pelos sonhos, os verdadeiros e quase impossíveis sonhos. Conseguirão? Terá um happy end? E quando os sonhos envolvem a própria arte? Mia (Emma Stone) persegue a carreira de atriz, já Sebastian (Gosling) quer abrir seu próprio clube de jazz e com que propriedade seu personagem detalha seu amor por esse gênero musical! Bom, mas há certas salas de cinemas em que as pessoas parecem confundir com a sala de casa! Sabia que essa plateia infantil não estava caindo nada bem... ora ouvia-se cochichos, ora risadas, um certo incômodo que certamente não ocorreria nos circuitos mais alternativos. Não bastasse os pais a ajeitarem as crianças, do meu lado meu namorado sonha e não é o sonho dos protagonistas de La La Land, mas o seu próprio! Só faltou roncar. Uma sacola caiu-lhe sobre seus pés e o despertou por alguns minutos. A medida que as estações sucediam-se, algumas pessoas resmungavam, a poesia, a beleza do filme não os tocara. Quando apareceram as letrinhas “the end” uma garotinha beirando uns nove anos deu "Graças a Deus" soltou um grito de alegria e em seguida levantou-se eufórica pelo término de tão “péssima” escolha de filme a ser assistido. Uma senhora da fileira da frente indagava como uma “bosta” dessa foi indicada ao Oscar. Já meu namorado, bem melhor não comentar... eu continuo em busca dos meus sonhos nessa ou noutra land.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Comentando o livro Escolha o seu sonho, de Cecília Meireles

Edição de 1996
   Muitos conhecem Cecília Meireles através dos célebres poemas, mesmo os que não se aprofundaram na obra da autora, certamente recordam-se de “Motivo” ou “Retrato”, entretanto, a poeta foi uma cronista de mão cheia! A coletânea “Escolha o seu sonho” é a prova do seu talento de poeta-cronista, ou seria o inverso? Os elementos que servem de tema a sua poesia aqui reverberam de forma mais simples, como é de se esperar de um gênero que prima pela leveza e pela descrição de fatos do cotidiano absorvidos pelo olhar perspicaz do cronista.
As crônicas de Escolha o seu sonho abarcam desde lembranças da infância ao descontentamento frente à nova arquitetura da cidade do Rio de Janeiro (Casas amáveis). Na verdade, o descontentamento da cronista-poeta refere-se ao rumo que a sociedade ia tomando, como relata em tom de perplexidade um perfil das gentes que beira ao individualismo, acarretando uma falta de fé na sociedade, como atesta a frase inicial da crônica “Tempo incerto”: “Os homens tem complicado tanto o mecanismo da vida que já ninguém tem certeza de nada”.  Já no texto “Casas amáveis”, percebemos a falta de autenticidade provocada pela construção dos novos prédios: “Afinal, tudo são arranha-céus." (Ninguém mais quer ser como é: todos querem ser como os outros são.) A indignação chega a tal ponto que Cecília desenha, põe entre parênteses! Nessa crônica, além de descrever as aconchegantes casas de antigamente, Cecília também expõe a visível falta de nacionalismo que o novo perfil arquitetônico adquire: “cujas risonhas proprietárias tem sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny...” O modo como a cronista enumera as qualidades das “Casas amáveis” que tinham “... esse ar humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza...” evocam a sua inerente poeticidade, ou seja, assim como os poemas de Cecília são carregados de efeitos sinestésicos nessa crônica há reverberações desse aspecto tão peculiar da escritora.
Além da angústia perante o caótico futuro que a selvageria de uma cidade a crescer desenfreadamente provocaria (Tempo incerto), a poeta-cronista também dar espaço para que outros artistas sirvam de tema de suas crônicas, como em “Portinari, o trabalhador”, onde enumera o intenso labor pelo qual viveu e ironicamente morreu Cândido Portinari. Em O “Divino Bachô”, ela nos apresenta a um poeta japonês, Bachô, sobretudo nos introduz ao hai-kai e ainda nos ilumina para o entendimento dessa composição poética, pois, “É um engano tomá-lo apenas pelo aspecto superficial: precisa-se penetrar na intimidade da sua significação”. Essa receita é a mesma que precisamos dispor para entender sua branda e envolvente poesia. Entretanto, se os poemas de Cecília não tocarem o leitor numa primeira conferida, o mesmo não poderá se dizer de suas crônicas que conquistam-nos logo nas primeiras linhas. Vale ressaltar que as crônicas deste volume passeiam por vários estados d'alma da poeta-cronista, pois acabei citando excepcionalmente os textos que demonstram indignação por algo. O leitor será presenteado com uma obra que o levará dos risos às lágrimas, isso é fato. Há vários textos em que Cecília permite-se rir de algo inusitado ou patético mesmo, a crônica "Mundo engraçado" onde a cronista discorre sobre tipos como "o mentiroso" e o "posudo", ou seja, aquele que ostenta algo em tom de solenidade; algo como os "posers" ou "fakes" dos nossos dias. E, claro, há os textos que revelam a canônica escritora que conhecemos: sublime; branda; profunda.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O lugar à mesa de Solange

 O aclamado álbum, A Seat at The Table.
   Quem está sempre rondando o que acontece no meio musical sabe que a cantora Solange Knowles era sempre designada como “a irmã da Beyoncé”, principalmente após o famigerado episódio do elevador, doravante era a “irmã barraqueira”, a “estranha”, o fato é que os trabalhos musicais de Solange pouco repercutiam, apesar do potencial artístico da moça. Ressalto que o EP True, lançado em 2013 fez um respectivo barulho encabeçado especialmente pela dançante “losing you”, uma faixa grudenta toda calcada numa batida oitentista. Entretanto, apesar das músicas com potencial de hit, do carisma, da beleza e do fashionismo de Solange, a carreira desta parecia não decolar ao passo que a irmã famosa recebia a alcunha de Queen B. com seu reinado a prosperar estratosfericamente.
   Bom, mas se a família Knowles é uma família de artistas, a estrela de Solange uma hora despontaria com uma de 1° grandeza. Com garra e afinco ela dedicou mais de três anos na elaboração do álbum “A Seat At The Table”. Viajou com engenheiros de som, testou inúmeros arranjos musicais, compôs letras para o álbum, fez coreografia com o filho Jules e o resultado disso é um álbum presente em várias listas de “os melhores de 2016” e até mesmo concorre a um grammy pela faixa “Cranes In The Sky”, uma das músicas de maior destaque, figurando até como uma das melhores do ano pela revista Rolling Stones Brasil. A recepção positiva do álbum somada a insana repercussão e euforia dos fãs talvez explique o visível nervosismo na apresentação do Saturday Night Live em novembro; mês depois Solange entregou uma performance excepcional de Rise e Weare, as faixas que abrem o álbum, no The Tonight Show.

   O sucesso de “A Seat At The Table” é inquestionável, pois Solange entregou um trabalho conceitual de grande expressividade, principalmente no quesito composição. Suas letras falam de empoderamento negro com muita propriedade, algumas canções são introduzidas por depoimentos que corroboram com o conceito do álbum que é mostrar que os afro-americanos tem e merecem o seu “lugar à mesa”, ainda mais em tempos retrógrados (vide a xenofobia de Donald Trump). Uma das faixas que reforçam o amor próprio é “Don’t Touch My Hair”, onde Solange entoa poeticamente: “Don’t touch my hair/ When it’s the feelings I wear/ Don’t touch my soul/ When it’s the rhythm I know”. Algumas faixas versam sobre experiências pessoais de Solange, como a melancólica e pulsante “Cranes In The Sky”, faixa que  nos remete a uma doída alegria, talvez por ser tão visceral entoado pelo doce timbre de Solange. “Don’t Wish Me Well” envereda pelo mesmo estilo. Este novo trabalho de Solange não tem apelo pop, entretanto, possui tamanho o potencial que todo amante de música aprecia e necessita para não se distrair com trabalhos descartáveis e sem conceito algum. Não é exagero afirmar que Solange, com esse trabalho, influenciará muitos artistas a serem verdadeiros e compromissados com sua arte.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Impressões sobre a peça "As divinas mãos de Adam"

Os competentes atores em cena da premiada peça
   “As divinas mãos de Adam” é um texto teatral da autoria de Roberto Muniz Dias, um dos mais significativos nomes da “literatura LGBT”. A peça foi apresentada em São Paulo na última edição do Festival Mix Brasil e reuniu um grande número de espectadores, muitos certamente entrando em contato pela primeira vez com o texto do escritor piauiense, cuja obra, reforça o potencial criativo de Roberto exacerbando uma profundidade que aproxima a literatura da filosofia.
   O diferencial da literatura de Muniz Dias provém da fuga ao “lugar comum”, ou seja, seus textos não giram em torno da opressão sofrida pelas personagens homossexuais, tampouco descambam para uma “literatura para maiores”, embora aborde essas questões, o modo como descreve tais fatos é sofisticado e extrai o máximo de filosofia; a maioria de seus personagens parece possuir um segundo olhar para os eventos ocorridos em suas vidas. Na peça “As divinas mãos de Adam” essa verve filosófica é representada pelos dois personagens masculinos, que nutridos de um desespero comum (apesar de suas diferenças pessoais) conseguem chegar a uma equiparação de seus estados de vida, após dialogarem, entre confidências e doses de conhaque,“O grande nivelador social”. O acaso que arrebata Stephen e Adam tanto permite a ambos “depurar a verdade” como permite-lhes extrair humor de algum aspecto, o que traz leveza para o melancólico texto de Roberto.
   Como em toda obra fictícia espera-se um “happy end”, este não vem sem antes passar por duríssimas penas, nesta peça o entendimento de Stephen e Adam é atacado por Rita, irmã de Stephen, esta munida de um fanatismo religioso que reprime qualquer atitude que não corresponda aos ditames cristãos pregados, geralmente, pelos evangélicos. Entretanto, o texto sutilmente alude a esses conceitos, sequer designa “Deus”, refere-se ao Divino ou na fala eloquente de Rita: “Ele”, o pronome substantivo apodera-se da personagem com um fervor de devoção. Já que falamos em pronomes, cabe ressaltar que essa precisão da escrita de Muniz Dias, reflete o apuro de seu ofício e também nos remete ao “Pronominais” de Oswald  de Andrade, especificamente quando Stephen pede a Adam uma dose de conhaque: - Dá-me uma dose!
   Os aspectos apontados acerca da peça “As divinas mãos de Adam” são poucos levando em conta os vários efeitos de sentido que ela propicia a cada espectador. Certamente, um indivíduo é tocado por determinada frase, outro fora afligido pelo insólito do tema; algum letrado absorveu diversos paradoxos e ficou com a peça semanas na cabeça, entre outras razões que corroboram para designar o texto de Roberto Muniz Dias como Literatura utilitária, ou seja, aquela que conjuga estética e humanização. Esta, decorre numa crescente até o clímax explosivo, literalmente tocando o dedo na ferida, quando a personagem Rita expõe um dos principais argumentos contra a homossexualidade: “não há nada de divino neste seu pensamento que não germina, nunca germinará...” as respostas dadas por Stephen e Adam representam menos as pretensas verdades limitadoras, impostas por religiões, que a própria consciência é capaz de buscar uma autonomia perante seus desejos e a própria condição humana.

Ficha Técnica

Texto/ Text: Roberto Muniz Dias
Diretor/ Director: Emer lavinni
Preparadora de elenco/ Casting director: Claudiana Cotrim
Elenco/ Cast: Ana Carolina Rainha (Rita), Héctor Medina (Adam) & Mário Cardona (Stephen)
Iluminadores/ Lightning designer: Anauã Vilhena e Héctor Medina
Músico/ Musician: lucas Simonetti
Figurinista/ Costume designer; Nina Nabuco
Cenógrafa/ Set designer: Renata Belich
Visagista/ Make up artist: Hugo Régis
Fotógrafo/ Photographer: Mackson Cruz
Criação e produção/ Creation and production: Cia Popular Versátil