domingo, 19 de novembro de 2017

Intérprete de Males, de Jhumpa Lahiri

Editora Globo, 2014
   Intérprete de Males é a primeira obra literária da escritora Jhumpa Lahiri. O livro de contos foi o vencedor do importante prêmio Pulitzer e aborda, entre vários fatores, a condição dos imigrantes indianos nos Estados Unidos. A adaptação aos costumes americanos, a saudade da família que ficou na Índia e principalmente o choque cultural dão a tônica de grande parte dos contos dessa coletânea. Os personagens retratados, em sua maioria, são casais indianos que moram nos EUA, crianças nascidas nos EUA filhos de pais indianos, ou ainda filhos de americanos que de alguma forma convivem com indianos, sendo que alguns contos são narrados sob a perspectiva do olhar infantil, como os textos  “Quando o senhor Pirzada vinha jantar” e “A senhora Sen”.
   Os textos citados acima são narrados de maneira simples, a escrita de Jhumpa não dispõe de maneirismos estilísticos ou algum recurso que traga complexidade na linguagem, ela apenas descreve as vivências das personagens de modo sutil, injetando certa dose de surpresa à medida que elas constroem sua visão de mundo mediante a observação das pessoas com a qual convivem. É o que acontece no referido “A senhora Sen”, onde acompanhamos um menino, de família americana, que passa o dia sob os cuidados de uma babá indiana, esta, a Senhora Sen. Essa convivência permite à criança aprender sobre a cultura indiana, uma vez que sua babá vive como se ainda habitasse seu país de origem, ou seja, da cozinha à indumentária e até mesmo sua pronúncia do inglês, tudo na senhora Sen evocava a Índia e seus sabores, suas cores, etc. Mas, a verdade, é que a senhora Sen sofria deveras com a saudade dos parentes que ficaram no Oriente, doravante, uma carta que chegava da índia era motivo de grande alegria, em contrapartida, saber que só poderia ver um sobrinho que nascera quando ele tivesse três anos não era nada auspicioso para ela. É um dos textos mais tocantes e expõe uma inversão de papéis, pois Eliot, o menino sob os cuidados da senhora Sen, acaba sendo um alento para sua babá, uma vez que ela tem para quem falar de sua terra e do que sente falta de lá, ou seja, quase tudo. Além do fato de que ela ainda não sabia dirigir, e recebia uma certa pressão do senhor Sen, para que perdesse o medo e conseguisse tirar a habilitação, afinal, eles moravam nos EUA, era primordial que ela soubesse dirigir. Vejamos um excerto: 
  - Como espera passar no exame se você se recusa a dirigir na rua com os outros carros?
  - Eliot está aqui hoje.
  - Ele está aqui todo dia. É para o seu próprio bem. Eliot, diga para a senhora Sen que é para o próprio bem dela.
   Ela se recusou. (p. 133-134)
   Daria para falar sobre cada um dos nove contos desse livro, pois cada um é, a sua maneira, um primor literário! Jhumpa lahiri é mestra em traçar esse encontro de culturas diferentes; de gerações diferentes, como percebemos nos textos narrados sob uma ótica infantil, mas com um aguçado senso de apuração do que se passa ao redor. Vale ressaltar que o conto que intitula a coletânea é um dos mais interessantes, pois é daqueles textos onde, sutilmente, uma verdade vem à tona, revelando coisas improváveis, passeando por devaneios que só uma mente sempre ligada (do narrador) expõe. O intérprete de males é na verdade uma espécie de tradutor, trabalhando num hospital onde aparecem pacientes portando um dialeto que o médico não entende, então, cabe ao senhor kapasi traduzir, isto é, relatar ao médico os “males” que acometem estes pacientes. Todavia, é no seu outro emprego onde ele é guia turístico, conduzindo uma família americana aos pontos turísticos indianos, que uma mulher, com marido e três filhos, desperta para outras sensações diante de um trabalho, em sua própria expressão: “romântico”. Resumindo, no passeio turístico está o pai entretido a fotografar; as crianças distraídas com os animais e há a senhora Das com expressão de enfado, mas quando o guia conta que traduz os males dos outros ela subitamente julga ter encontrado a pessoa certa pra contar um grave segredo. E o que se sucede? Pois não disse que Jhumpa constrói narrativas interessantíssimas? Uma verdadeira viagem pelos labirintos da mente humana e seus devaneios e segredos. Como será esse embate entre o guia e a senhora Das? haverá reciprocidade? Leiam o incrível Intérprete de males. 


terça-feira, 31 de outubro de 2017

O teatro de Roberto Muniz Dias

Editora Metanoia
Páginas: 202
Ano: 2017


Experientia (O teatro de Roberto Muniz Dias)

             “Quando é que a saudade daquilo que a gente não viveu passa?”
                                                                                               Tulipa Ruiz

              “Escrever é organizar os sentimentos perdidos.”
                                                                                       Marcelino Freire

   Com uma produção crescente que só ratifica o talento com as palavras, Roberto Muniz Dias entrega o volume Experientia, coletânea composta por cinco peças teatrais. São elas: As divinas mãos de Adam; Raroquerer haraquiri; A volta do cometa; Bonecxs desalmadxs e Uma cama quebrada. Para efeito de síntese, comentarei sobre as duas primeiras, o que não significa que as demais não sejam dignas de análise, ao contrário, em cada uma nota-se o cuidado e afinco para com os elementos a serem retratados. Da descrição do cenário à criação da personagem, em todos os aspectos é notável o trabalho de concatenação empreendido, seja pela linguagem sofisticada, que jamais sucumbe a termos abjetos, ou pela tramitação entre a técnica tradicional e outros  métodos mais  ousados, repletos de subjetivismo, idiossincrasias.
   A peça As divinas mãos de Adam - que já foi encenada em São Paulo e Rio de janeiro – aborda, entre outros aspectos, a impotência que aniquila um indivíduo, restrito a imobilidade numa cama, vegetando. Não há relatos do que provocou a perda dos movimentos de Stephen, apenas sua atual situação, além da cegueira. Numa tentativa de resgatar o que sobrou de sua natureza, Stephen põe um anúncio de jornal à procura de alguém que lhe preste serviços de masturbação, “ambos os sexos”. Bate-lhe à porta o jovem imigrante Adam, munido pela necessidade e o medo do desconhecido: “Mas... (com espanto) não devo usar luvas? (Dúvida atordoante)” (p. 11) Percebe-se, pelo livro o quanto o texto fora criado especialmente para fins de encenação, ou seja, a sonoplastia, a feição da personagem que  antecede ao leitor o momento da fala, praticamente joga o leitor para o teatro. Ou antes confirma o forte teor imagético da literatura de Muniz Dias. Talvez a experiência como romancista explique a maneira como gradativamente, Muniz Dias conduz os diálogos em As divinas mãos de Adam, ou seja, tudo vai aos poucos se revelando, os personagens se dando a conhecer com uma intensidade à flor da pele que revela as agonias que permeiam suas vidas. Os personagens, ao dividirem suas experiências, procuram resgatar as poucas alegrias que algum dia tiveram, o que traz beleza ao texto. Outro fator que torna bela essa estória (triste, assim como as melhores estórias) é a construção da empatia entre duas personagens tão distintas, mas que possuem a mesma abertura para mergulhar na busca do real e se desprender de qualquer amarra ideológica. A juventude e inexperiência de Adam não o impede de acolher os sentimentos que emanam de Stephen. Certamente, As divinas mãos de Adam é um dos mais belos trabalhos do escritor piauiense. E como filosofia pouca é bobagem, o inteligente diálogo entre Stephen e Adam é confrontado com a chegada de Rita, irmã daquele, doravante a peça atinge o clímax e caminha para um sublime final.
  Já a segunda peça do volume Experientia, “Raroquerer haraquiri”, é um monólogo inspirado no romance A teia de Germano, um texto predominantemente metalinguístico. Carregado de metáforas que ora recorrem a referências culturais japonesas, ora a problematização da literatura. Como produzir o melhor texto? Buscando o ideal de uma infância desejada? Esperando que o seu amor também compartilhe o amor para com os livros, ou seja, tenha afinidade? É um texto que fala, especialmente, a propensos escritores ou aos apreciadores das artes, enfim, aos sensíveis. Não esqueçamos que Muniz Dias tem a mesma formação de Clarice Lispector e de Caio Fernando Abreu, ou seja, não apenas esse fator os coloca num mesmo patamar, as obsessões literárias são as mesmas. O mesmo mergulho no insondável, a verve filosófica, as personagens inaptas à realidade, entre outros aspectos, colocam Muniz Dias trilhando corajosamente esse árduo caminho. É a sua via crucis, só para lembrar alguma passagem clariceana em sua visceral obra.
  Contando com uma cena única, Raroquerer haraquiri mergulha fundo no sentimento universal que é a angústia, uma vez que o personagem é um escritor, ou seja, categoria possuidora de um múltiplo universo de ideias e sempre a trabalhar a melhor maneira de narrar poeticamente tais ideias ou vivências para enfim, compartilhar com os possíveis leitores. O interessante nesse monólogo, é que apesar do personagem chegar às raias do desespero, indagando sobre as incertezas do seu futuro como escritor, ele consegue criar um texto nos moldes do que é  considerado um conto tradicional. Trazendo referências clássicas, extraindo uma fantasia da infância “que os anos não trazem mais” e evocando um belo final epifânico para sua short storie de cunho infanto-juvenil. Assim como As divinas mãos de Adam, essa peça também tematiza os impasses que a busca de uma saudosa lembrança implica. Seja ao resgatar um hábito de um ente querido (falecido) ou em guardar objetos que testemunhem algo vivido de bom, nota-se que em ambos os textos as personagens, embora de modo implícito, retomam os conceitos de Santo Agostinho acerca da ultrapassagem do tempo presente, ou seja, as tentativas de resgatar as memórias mais revelam a impossibilidade do presente, que restauram  o sentimento de outrora.



domingo, 17 de setembro de 2017

Feira das vaidades

A atriz americana Reese Witherspoon em brilhante atuação
  É comum ouvirmos dizer, muitas vezes, que as adaptações cinematográficas de obras literárias sempre ficam aquém da original, Há exceções, é claro. Há também, geralmente, casos em que nem sabemos que o filme do qual gostamos tanto fora adaptado de um romance clássico. Nesse caso nos sentimos tentado a conhecer a obra que serviu de base para a “nova versão”, mesmo que a obra em questão seja um calhamaço de mais de oitocentas páginas.  Essa é minha experiência com “Feira das vaidades” filme estrelado por Reese Witherspoon, adaptado do livro de William Makepeace Thackeray, que mal posso esperar pra ler!
  Enquanto não disponho do livro, vamos a algumas impressões sobre o filme: A protagonista é Rebeca Sharp (Reese) uma jovem orfã que desde criança sonhava em pertencer à alta sociedade de Londres, fazendo de tudo para ser aceita pelas pessoas pertencentes a essa esfera social. Sua determinação e ousadia faz contraponto ao comportamento de sua única amiga Amelia, que é a personificação da inocência e do romantismo. Ao torcer para que Amelia tenha um feliz matrimônio, Rebeca é, a princípio, hostilizada por George Osbourne, noivo de Amélia. George é exatamente um poço de vaidade e arrogância, o que na verdade encobre a sua fraqueza no quesito de homem/soldado prestes a lutar pelo seu país na iminente guerra de Waterloo. Antes desse combate, o cinismo de George em relação à Rebeca cai por terra, quando ele percebe que a ausência de berço daquela não a impediu de ser uma mulher culta e com atitudes dignas das pessoas do high society londrino, fato que o faz cortejá-la num baile, ao passo que Amelia,grávida, fica aos cuidados de um amigo que ,na verdade, é apaixonado por ela.

  Uma das ideias que o filme reforça constantemente vem ao encontro do dito popular “sorte no amor, azar no jogo”, numa cena próxima ao clímax dessa estória, um Lord diz à Beck que o seu pai tinha um excelente talento para as artes, mas nenhum para a vida, o qual ela responde que sua missão é mudar isso. Em verdade o Lord em questão é uma das personagens centrais de Feira das vaidades, aparecendo, inclusive, já na primeira cena, despontando à visão de Beck pelo meio do filme e na segunda metade conduzindo ao clímax, quando descortina toda a opulência da sua classe que Beck tanto admira. Esse descortinar significa revelar toda a hipocrisia e mediocridade que reina, inclusive, na figura das damas inglesas que desprezam Beck e se sentem obrigadas a engolir a presença desta porque os cavalheiros rendem-se a sua beleza e autenticidade.Na verdade, Lord Stern encurrala a própria Beck ao relembrar que ela vendera-lhe, em criança, um retrato de sua mãe. Por um alto preço, porém vendera.  Vale ressaltar que Reese Withespoon está deslumbrante aqui. Recomendo este filme,o que escrevi aqui é só um pequeno recorte, pois Feira das vaidades tem belas imagens, belas canções e a história é muito rica,mas se tiverem oportunidade, leiam o livro também.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

A envolvente literatura de Chimamanda Ngozi Adichie

Edição da Companhia das letras, 2017
   A literatura de Chimamanda Ngozi Adichie é muito acessível, tanto pela temática, quanto pela simplicidade de sua linguagem, o que não significa que seus textos não mereçam ser agraciados por importantes prêmios literários ou não ter o grande alcance de público leitor. Em “No seu pescoço”, Chimamanda se revela uma contista de mão cheia, pois em alguns textos é evidente a fabulação bem estruturada desse gênero, ou seja, uma estória redonda, na qual a autora se concentra numa situação específica, num cenário designado e com poucas personagens, aspectos que podemos observar no conto “Uma experiência privada”, que aborda a convivência insólita de duas mulheres escondidas num armazém, uma vez que ocorria uma rebelião nas ruas. Estas mulheres, possuíam muitas diferenças culturais: a protagonista era nigeriana, a outra, muçulmana e tais diferenças, não impediram-nas de criar laços de empatia frente ao desalento e temor por qual passavam, mas antes fortaleceram a humanidade entre elas. Outro aspecto reportado nesse conto é a oralidade, sobretudo na fala da muçulmana, aliás, em outros textos dessa coletânea, as personagens vivem às voltas atentas as entonações e expressões proferidas pelos interlocutores, fato que comprova que Chimamanda trabalha a linguagem e não apenas relata as diferenças culturais, sobretudo a dicotomia Nigéria versos EUA, pois há o risco de ficarmos com a primeira impressão que ela nos passa. E isso, Chimamanda não merece, por isso ela nos disse que o ruim dos estereótipos, é que eles são limitados, nos dão apenas um lado da história.
   Os contos que relatam as personagens nigerianas descobrindo como é viver nos EUA, são cheios de humor, Chimamanda descreve com sutileza, ou uma fina ironia as características reprováveis dos americanos, embora não teça memórias ufanistas da Nigéria, seu país de origem. O fato é que o leitor certamente irá recordar as vezes que pisou em lugares estrangeiros ou mesmo se deslocou da roça para viver numa metrópole  e esteve perdido por não saber os modos de comportamento no novo recinto. Um conto que descreve bem essa situação é “Os casamenteiros”, no qual a protagonista nigeriana se casa com um conterrâneo que mora nos EUA há bastante tempo e este responsabiliza-se por introduzir Chinaza, a personagem principal, ao estilo de vida americano. Como ele faz isso? Interpelando Chinaza todas as vezes que ela utiliza expressões de sua terra, pois ela tinha que ser o mais americanizada possível! Há até mesmo uma passagem bem brasileira, principalmente se você, leitor, for do povão e pegue ônibus lotado:
“No ônibus com ar condicionado, ele me mostrou onde colocar as moedas, como apertar o botão na parede para avisar que eu queria descer.”
“Aqui não é que nem na Nigéria, onde a gente grita para o motorista”, disse com desdém, como se tivesse inventado pessoalmente o superior sistema americano.” (p. 187)
Ainda sobre esse conto, a protagonista refere-se a seu par designando -o “meu novo marido”, como a dizer o quanto seu cônjuge aderiu totalmente ao modo de viver dos americanos, ou seja, era outra pessoa, impedindo-a de utilizar expressões de sua terra e sugerindo que ela começasse a se portar como uma americana também:
“Você não entende como as coisas funcionam nesse país. Se você quiser chegar a algum lugar, tem que ser o mais normal possível. Se não for, vai ser largada na beira da estrada. Tem que usar seu nome inglês aqui.” (p. 186)
Os contos de No seu pescoço são um deleite para nós leitores e certamente nos incute a vontade de conhecer mais sobre a obra de Chimamanda Ngozi Adichie. Até a cantora Beyonce já pegou carona no sucesso da escritora, na canção Flawless, Chimamanda discursa em prol do feminismo. Ouvimos e  leiamos Chimamanda, então!


domingo, 20 de agosto de 2017

Sobre Caio Fernando Abreu

Edição da L&PM, 2012
   O jovem pretensioso mais conhecido como “menino do Acre”, disse em entrevista ao Fantástico, da rede Globo, que as pessoas deviam buscar o “mistério”, seja lá o que raios ele entende por isso e nem estou disposto a ler seu livro para entender. Recordo-me, que nada me aproxima mais  do mistério, que as incansáveis aflições descritas em obras de Clarice Lispector ou de Caio Fernando Abreu, este, totalmente influenciado pela canonizada ucraniana. Certamente Caio adequa-se a categoria formulada por Ezra Pound de escritores que conseguem tornar um estilo de escrita ainda mais consistente, não que “consistente” seja a palavra designada por Ezra, mas a ideia era essa. Os iniciados na literatura de Caio já perceberam que ele utiliza várias passagens clariceanas como epígrafes de seus textos, aliás, numa carta publicada em “Morangos mofados” ele diz ter conhecido pessoalmente a escritora e que ela é infelicíssima por causa de sua “compreensão sagrada de tudo”.
   Bem, devo dizer que sinto um certo incômodo quando “recortam” frases do Caio ou da Clarice, e não sentem curiosidade de saber o contexto em que eles empregaram, ou seja, não buscam o texto na íntegra. Claro que ninguém é obrigado a gostar de ficção, mas por mais que ficção e realidade estejam intrínsecas, há de se considerar o processo escritural, o gênero textual, enfim, o fenômeno texto, então, vale a pena recorrer à obra do escritor. Pois foi só ouvir o “menino do Acre” falar de busca ao conhecimento, ao mistério, etc, corri e peguei da estante  minha edição de bolso de O ovo apunhalado. Confesso que não compreendo muito bem esse projeto escritural do Caio, isto é, entender,  por exemplo, as divisões  dos capítulos, para fazer uma crítica descente, mas esses textos me lançam numa compreensão absurda da existência. São textos que denunciam o estado de negação a que estão submetidas as pessoas que não aceitam, e sequer cogitam aceitar, o outro, pois estão fortemente sob controle das amarras sociais amparadas em arcaísmos religiosos, num poder opressor, etc. Era uma época realmente melancólica, esta descrita nos contos de O ovo apunhalado, o conto “Retratos” que aborda de modo pungente a passagem do tempo, também expõe o quanto a sociedade era impiedosamente excludente nessa época, pois os textos foram escritos entre 1969 e 1973, ou seja o período lembrado como “página infeliz de nossa história”, como canta Chico Buarque.
   O ovo apunhalado foi prefaciado pela genial Lygia Fagundes Telles, só por isso já é digno de ser lido. Sei que os mais entendidos em textos do Caio, são muito tocados pela profundidade ou pelo subjetivismo de textos como “Para uma avenca partindo”- existem inúmeras leituras desse texto no Youtube, entretanto, confesso que os contos que mais me tocaram são: “Gravata”, “Oásis”, “Retratos”, “O afogado” e “Uns sábados, uns agostos”, entre outros. Gravata, porque o conto vai tomando um rumo surpreendente até culminar no desfecho fatal; Oásis porque evoca a infância com toda a ingenuidade e travessuras que muitos de nós tivemos; Retratos, citado anteriormente, porque fala da empatia que devemos ter com os excluídos da sociedade - por que essa resistência, se o outro é feito da mesma matéria? Esse texto abarca um silêncio e um mistério personificado no artista plástico que faz um retrato do protagonista por dia, no decorrer de uma semana; O afogado, porque  além de expôr a ignorância social que encerra outras possibilidades de vivência, num enredo bem construído, é intercalado por um fulminante monólogo interior; e por último, Uns sábados, uns agostos porque, dentre outros motivos, é um conto escrito dentro da técnica clariceana. O ovo apunhalado é um dos meus livros favoritos, da vida.    
  

sábado, 29 de julho de 2017

A Disciplina do Amor, Lygia Fagundes Telles

Edição da Rocco,1998
   O conto A disciplina do amor foi o primeiro contato que tive com os textos de Lygia Fagundes Telles. Na época eu pouco entendia de literatura ou coisas mais profundas, porém aquela estória de um cachorro que ficava  esperando seu dono voltar, sem saber que este morrera na guerra (era tempo de guerra e ele fora convocado)me comoveu de tal modo que o nome da escritora cravou em minha mente. O texto homônimo é escrito no formato do conto tradicional, ou como alguns estudiosos denominam uma “short story”, entretanto, os outros textos que integram a coletânea intitulada A disciplina do amor, não apresentam um formato que se possa designar qual é o gênero específico, não é a toa que a própria Lygia os chama de “fragmentos do real e do imaginário”. Ou para efeito de simplificação, digamos que a maioria dos contos e micro - contos  deste volume possuem temática crônica.
   Talvez seja a “disciplina indisciplinada” do amor que permite a narradora fitar o olho e tentar desvendar a natureza dos animais, a exemplo dos textos sobre gatos e cachorros onde a descrição dos movimentos é minuciosamente narrada com uma precisão de detalhes: “O gato apenas sorri no ligeiro movimento de baixar as orelhas e apertar um pouco os olhos, como se os ferisse a luz. Esse o sorriso do gato – ô bicho sutil! Indecifrável. Inatingível.” (p. 10) Já disse outra escritora, a imortal Clarice Lispector, que bicho é a forma mais acessível de gente. Pois então, nada como um texto que evidencia as diferenças entre os animais domésticos mais comuns: o cão e o gato. E a simplicidade e entrega com a qual Lygia inscreve seu estilo narrativo é um deleite a quem se debruça em suas páginas. Mas não são só os bichos que interessam à vida/escritura de Lygia Fagundes Telles: os relatos de viagens a lugares nada clichês, como a China ou o Irã são surpreendentes por capturar algum incidente na cena vivida/descrita pela narradora, como no conto A mulher de Omsk, onde a narradora-personagem usa a linguagem de sinais para se comunicar com uma mulher na Sibéria, uma vez que precisava pedir linha e agulha para pregar os botões do casaco, pois: “Era evidente que se tratava de uma mulher de uma só língua e essa era tão inacessível quanto a linguagem do vento soprando lá fora.” (p.54)

   Não é exagero afirmar que A disciplina do amor figura como uma obra singular, das mais importantes da carreira literária de Lygia. É através de A disciplina do amor que percebemos o quanto a linha que separa a ficção da realidade é tênue por mais que seja evidente a criatividade da autora em utilizar o verniz literário nos irregulares fragmentos que compõem essa coletânea. Não faltam fragmentos que abordam as leituras empreendidas pela autora e que tanto a comoveram, como atestam os textos sobre o poeta Álvares de Azevedo, pertencente “a escola de morrer cedo”, como também os textos que mostram a indignação perante algo mesquinho, como o sensacionalismo midiático em torno de tragédias como as enchentes, por exemplo, ou mesmo a apelação mostrada nos desfiles carnavalescos televisionados. Nada escapa à percepção certeira de Lygia sobre a vida, sobre nós.



sábado, 15 de julho de 2017

Pitty: emotiva e empoderada em Chiaroscuro

Chiaroscuro, em LP e CD, 3° álbum de Pitty 
   Chiaroscuro é o terceiro álbum de estúdio de Pitty e sua banda e foi lançado em 2009. Trata-se de um de seus trabalhos mais  equilibrados, ou seja, onde todos os elementos atingem  um grau exato, tanto no que se refere as letras, quanto no quesito instrumentação. Talvez pelo fato de seu antecessor “Anacrônico” soar intenso demais, tudo ali é exagerado, da depressão na faixa “Deja vù” à loucura de “Memórias”. Não que aquele seja um disco ruim, mas em Chiaroscuro Pitty conseguiu um certo grau de maturidade, disse o que queria sem os arroubos que lembram a adolescência, ou uma revolta clichê de roqueiros pretenciosos.
   Para quem não é ligado em discografia, Chiaroscuro é o álbum que trouxe o hit “Me adora”, faixa que mostra uma faceta mais pop da cantora, uma agradável canção com ares de jovem guarda e todo um clima retrô,  tão bem produzida que nem sentimos abjeção pelo termo “foda”, entoado logo no refrão! Em verdade, é o tipo de música em que não é preciso ser fã do artista nem do gênero musical para curtir, simplesmente contagia-se logo pelos primeiros versos. Outra faixa de Chiaroscuro com potencial equivalente é a balada “Só agora” faixa que mais parece uma canção de ninar, entretanto, o vídeoclipe para essa música retrata um domingo em família num sítio ou algo do tipo e não delimita-se ao fator maternidade, mas a família como um todo.
   Outro elemento que permeia esse álbum é o feminismo, presente na música “Desconstruindo Amélia”, ou seja, é uma faixa que, obviamente, já diz a que veio: pra mostrar que lugar da mulher é aonde ela quiser! Embora críticos mais severos julgam ser uma letra a nível de ensino médio, prefiro afirmar que só pelo fato da canção mencionar Balzac, já ultrapassa o fato de soar simples demais pra ser escrita por uma “mulher com pouco mais de 30 anos”, desculpe Balzac, ainda não li nada seu...  Bem, penso que é uma daquelas faixas que não pode faltar nos shows, até pelo fato de Pitty ser uma banda em que a cantora é praticamente líder. Chiaroscuro é um álbum que se torna melhor a cada audição, tanto as letras mais pessoais em que Pitty se revela emotiva demais (água contida) ou a referida anteriormente “Só agora” quanto a composições que abrangem o social “Desconstruindo Amélia” ou a que melhor representa a humanidade em luta que é “Todos estão mudos” compõem um trabalho bem executado na carreira da artista.