domingo, 26 de março de 2017

Algumas notas sobre "A hora da estrela"

Edição da Editora Rocco, de 1998
   A obra “A hora da estrela”, de Clarice Lispector é geralmente o primeiro contato que os adolescentes obtem com textos da referida autora. Seria sua obra mais palatável? Sobretudo a leitores iniciantes em tão densa literatura? Seria o fato desta novela conter poucas páginas? A questão é que não raro ouvimos um jovem aluno dizer que “odeia” essa autora. Sim, essa autora que possui uma vasta obra tanto singular quanto cheia de desdobramentos que respondem aos vários estados d’alma, ou seja, em sua escritura contém a Clarice jovem, a Clarice mãe ou mesmo a Clarice humana que sonda vários aspectos do homem na Sociedade.
   Levando em conta que o fato da iniciação em Clarice ocorra através de “A hora da estrela”, é provável que o jovem leitor sofra uma perturbação logo nas primeiras páginas, aliás, logo na “Dedicatória do autor” onde somos apresentados a vários músicos clássicos que só mesmo um indivíduo banhado em erudição pode reconhecer nomes como “Schumann”, “Debussy” ou “Richard Strauss”. Pensemos nos adolescentes brasileiros de classe baixa embebidos de funk ostentação ou proibidão mesmo ao adentrar em dedicatória tão rebuscada, o estranhamento é certo. Há também o fato da narrativa “de fato” demorar a engrenar, ou seja, em “A hora da estrela” a metalinguagem é gritante, literalmente é como se houvessem duas narrativas: a do narrador argumentando as possíveis escolhas narrativas e a história em si. Que história? “A de uma inocência pisada”. “De uma miséria anônima”. São palavras da própria autora em sua entrevista na TV Cultura.
   A leitura de “A hora da estrela” tem diversos pontos positivos, além do humor característico da ambígua Clarice, sempre melancólica e feroz, a “tímida e ousada”, apresenta uma personagem, Macabéa, uma nordestina de Alagoas. A esta é atribuída uma série de defeitos e o leitor fica entre a raiva ou a piedade para com personagem tão desprovida de tudo. Macabéa vive sem perspectiva alguma, como um ser “lesado”, desleixado. A personagem é uma sonhadora deslumbrada pelas estrelas de cinema, sobretudo Marilyn Monroe. O narrador indaga sobre como descrever de modo sofisticado uma vida tão parca como a de Macabéa. E mesmo sendo tão despreparada para encarar as coisas práticas da vida, seja no trabalho, nas relações pessoais, a personagem é atraída por alguma informação, pois gasta suas horas ouvindo a Rádio Relógio ou colecionando anúncios. É realmente de uma ironia impressionante esta obra de Clarice, isso sem contar no humor, fator que atinge o ápice quando Macabéa arranja um namorado: Olímpico de Jesus, nordestino assim como ela. O diálogo entre ambos é risível, ele conta-lhe suas ambições ao passo que ela, sempre alheia ao seu papel no mundo, relembra as notícias que ouvira na Rádio Relógio. Outra característica marcante de Macabéa é que, apesar de seu desalento, ela tem a língua afiada, vejamos um diálogo entre ela e Glória, sua colega de trabalho:
- Me desculpe eu perguntar: ser feia dói?
- Nunca pensei nisso, acho que dói um pouquinho. Mas eu lhe pergunto se você que é feia sente dor.
- Eu não sou feia!!!, Gritou Glória. (p. 62)

   Talvez a escolha dessa narrativa para que jovens alunos conheçam a obra de Clarice seja devido ao fato da protagonista servir de exemplo daquilo que não devemos ser. Esclarecendo, os jovens estão sendo educados para que exerçam seu papel de cidadão, agindo em prol do seu bem estar e o progresso da sociedade. Macabéa, coitadinha! Certamente, muitos leitores torcerão por ela, ou seja, em se tratando daqueles que venceram a perturbação das primeiras páginas e prosseguiram na leitura até encontrar, de fato, a história contada por Rodrigo S.M. Acredito que estes jovens leitores que concluíram a novela tem muito a ganhar com o conhecimento de personagens tão envolventes como Macabéa e Olímpico, aliás, com a narrativa por inteiro, soma-se o intricado desenrolar da narrativa, sempre interrompida pelo narrador (sobretudo na primeira metade) aos diálogos entre Macabéa e seu namorado, ou entre Glória e finalmente entre a cartomante que lhe vaticina um futuro brilhante.  

sábado, 4 de março de 2017

La La Land

Os atores Emma Stone e Ryan Gosling em perfeita sintonia
   Para os amantes do cinema, a temporada de premiações, especialmente quando são divulgadas as produções que concorrem ao Oscar, a corrida ao cinema é inevitável. A menos que as condições financeiras impossibilitem, mas nossa curiosidade em conferir os filmes mais indicados é tamanha que tentamos driblar a escassez monetária. No mais, é curiosidade mesmo ou um grau de intelectualidade que nos seduz. Sim, mesmo não sendo expert na sétima arte, apesar do repertório paupérrimo que sei acerca da história do cinema e dos poucos clássicos assistidos, sou um aspirante a cinéfilo. Pretensão? Que seja. Bem, logo que começou a especulação em torno de “La La land”, a curiosidade bateu minha porta. Quando o filme levou vários prêmios no Golden Globe e sucederam-se as catorze indicações ao Oscar a curiosidade foi geral. “Que esse filme tem de tão bom?” “O que significa esse título?” Se o assunto era cinema, o filme de Damien Chazelle era o mais pronunciado. Afinal, trata-se do mesmo diretor de Whiplash: em busca da perfeição, filme vencedor de três Oscars!
   Então corri ao cinema próximo de meu bairro que pertence à região do centro expandido de São Paulo: o cinema do Shopping Metrô Boulevard Tatuapé não é tão lotado quanto o outro, ainda assim, a fila de umas quarenta pessoas estava a me deixar impaciente. Poderia comprar nas máquinas, onde as filas eram menores, mas minha aversão à tecnologia e tudo que soa moderníssimo falou mais alto, preferi encarar o jovem guichê e comprar uma inteira para ver La La land e assim me senti antenado e não  fazer a Glória Pires nos papos sobre cinema. Estava na companhia de meu namorado, literalmente, era só sua companhia mesmo, pois é pessoa que prefere os filmes barulhentos de ação, ou os do tipo “baseado em fatos reais”, e que sejam dublados, "pois nós falamos português!" Como percebem, estou mesmo arranjado. Comecei a entoar “City of stars” ansioso pra  ver a aclamada obra de Damien Chazelle. Ao adentrar a sala cinco, percebo que os assentos eram ocupados por muitas crianças, acompanhadas dos pais ou tios, claro. Pus-me a pensar: Será que viram algo de  lúdico no título? Seriam as indicações ao Oscar que aguçou a curiosidade dos pais dessa ala infantojuvenil? Havia tantas opções de filmes...

   Passado os trailers, concentro-me em La La Land com a devoção de um católico praticante. Seduzido pela estética cinematográfica do jovem Chazelle, tento devorar o estranho e expressivo rosto de Emma Stone; A beleza e o carisma de Ryan Gosling aqui funcionam excepcionalmente. A sintonia do casal proporciona um show de atuação e apesar de não serem dançarinos, suas performances confirmam o empenho dedicado para não fazer feio. Até porque quem conhece o diretor, Chazelle, fala que o moço é perfeccionista. O roteiro é cativante, abordando a busca pelos sonhos, os verdadeiros e quase impossíveis sonhos. Conseguirão? Terá um happy end? E quando os sonhos envolvem a própria arte? Mia (Emma Stone) persegue a carreira de atriz, já Sebastian (Gosling) quer abrir seu próprio clube de jazz e com que propriedade seu personagem detalha seu amor por esse gênero musical! Bom, mas há certas salas de cinemas em que as pessoas parecem confundir com a sala de casa! Sabia que essa plateia infantil não estava caindo nada bem... ora ouvia-se cochichos, ora risadas, um certo incômodo que certamente não ocorreria nos circuitos mais alternativos. Não bastasse os pais a ajeitarem as crianças, do meu lado meu namorado sonha e não é o sonho dos protagonistas de La La Land, mas o seu próprio! Só faltou roncar. Uma sacola caiu-lhe sobre seus pés e o despertou por alguns minutos. A medida que as estações sucediam-se, algumas pessoas resmungavam, a poesia, a beleza do filme não os tocara. Quando apareceram as letrinhas “the end” uma garotinha beirando uns nove anos deu "Graças a Deus" soltou um grito de alegria e em seguida levantou-se eufórica pelo término de tão “péssima” escolha de filme a ser assistido. Uma senhora da fileira da frente indagava como uma “bosta” dessa foi indicada ao Oscar. Já meu namorado, bem melhor não comentar... eu continuo em busca dos meus sonhos nessa ou noutra land.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

Comentando o livro Escolha o seu sonho, de Cecília Meireles

Edição de 1996
   Muitos conhecem Cecília Meireles através dos célebres poemas, mesmo os que não se aprofundaram na obra da autora, certamente recordam-se de “Motivo” ou “Retrato”, entretanto, a poeta foi uma cronista de mão cheia! A coletânea “Escolha o seu sonho” é a prova do seu talento de poeta-cronista, ou seria o inverso? Os elementos que servem de tema a sua poesia aqui reverberam de forma mais simples, como é de se esperar de um gênero que prima pela leveza e pela descrição de fatos do cotidiano absorvidos pelo olhar perspicaz do cronista.
As crônicas de Escolha o seu sonho abarcam desde lembranças da infância ao descontentamento frente à nova arquitetura da cidade do Rio de Janeiro (Casas amáveis). Na verdade, o descontentamento da cronista-poeta refere-se ao rumo que a sociedade ia tomando, como relata em tom de perplexidade um perfil das gentes que beira ao individualismo, acarretando uma falta de fé na sociedade, como atesta a frase inicial da crônica “Tempo incerto”: “Os homens tem complicado tanto o mecanismo da vida que já ninguém tem certeza de nada”.  Já no texto “Casas amáveis”, percebemos a falta de autenticidade provocada pela construção dos novos prédios: “Afinal, tudo são arranha-céus." (Ninguém mais quer ser como é: todos querem ser como os outros são.) A indignação chega a tal ponto que Cecília desenha, põe entre parênteses! Nessa crônica, além de descrever as aconchegantes casas de antigamente, Cecília também expõe a visível falta de nacionalismo que o novo perfil arquitetônico adquire: “cujas risonhas proprietárias tem sempre um Y no nome, Yara, Nancy, Jeny...” O modo como a cronista enumera as qualidades das “Casas amáveis” que tinham “... esse ar humano, esse modo comunicativo, essa expressão de gentileza...” evocam a sua inerente poeticidade, ou seja, assim como os poemas de Cecília são carregados de efeitos sinestésicos nessa crônica há reverberações desse aspecto tão peculiar da escritora.
Além da angústia perante o caótico futuro que a selvageria de uma cidade a crescer desenfreadamente provocaria (Tempo incerto), a poeta-cronista também dar espaço para que outros artistas sirvam de tema de suas crônicas, como em “Portinari, o trabalhador”, onde enumera o intenso labor pelo qual viveu e ironicamente morreu Cândido Portinari. Em O “Divino Bachô”, ela nos apresenta a um poeta japonês, Bachô, sobretudo nos introduz ao hai-kai e ainda nos ilumina para o entendimento dessa composição poética, pois, “É um engano tomá-lo apenas pelo aspecto superficial: precisa-se penetrar na intimidade da sua significação”. Essa receita é a mesma que precisamos dispor para entender sua branda e envolvente poesia. Entretanto, se os poemas de Cecília não tocarem o leitor numa primeira conferida, o mesmo não poderá se dizer de suas crônicas que conquistam-nos logo nas primeiras linhas. Vale ressaltar que as crônicas deste volume passeiam por vários estados d'alma da poeta-cronista, pois acabei citando excepcionalmente os textos que demonstram indignação por algo. O leitor será presenteado com uma obra que o levará dos risos às lágrimas, isso é fato. Há vários textos em que Cecília permite-se rir de algo inusitado ou patético mesmo, a crônica "Mundo engraçado" onde a cronista discorre sobre tipos como "o mentiroso" e o "posudo", ou seja, aquele que ostenta algo em tom de solenidade; algo como os "posers" ou "fakes" dos nossos dias. E, claro, há os textos que revelam a canônica escritora que conhecemos: sublime; branda; profunda.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O lugar à mesa de Solange

 O aclamado álbum, A Seat at The Table.
   Quem está sempre rondando o que acontece no meio musical sabe que a cantora Solange Knowles era sempre designada como “a irmã da Beyoncé”, principalmente após o famigerado episódio do elevador, doravante era a “irmã barraqueira”, a “estranha”, o fato é que os trabalhos musicais de Solange pouco repercutiam, apesar do potencial artístico da moça. Ressalto que o EP True, lançado em 2013 fez um respectivo barulho encabeçado especialmente pela dançante “losing you”, uma faixa grudenta toda calcada numa batida oitentista. Entretanto, apesar das músicas com potencial de hit, do carisma, da beleza e do fashionismo de Solange, a carreira desta parecia não decolar ao passo que a irmã famosa recebia a alcunha de Queen B. com seu reinado a prosperar estratosfericamente.
   Bom, mas se a família Knowles é uma família de artistas, a estrela de Solange uma hora despontaria com uma de 1° grandeza. Com garra e afinco ela dedicou mais de três anos na elaboração do álbum “A Seat At The Table”. Viajou com engenheiros de som, testou inúmeros arranjos musicais, compôs letras para o álbum, fez coreografia com o filho Jules e o resultado disso é um álbum presente em várias listas de “os melhores de 2016” e até mesmo concorre a um grammy pela faixa “Cranes In The Sky”, uma das músicas de maior destaque, figurando até como uma das melhores do ano pela revista Rolling Stones Brasil. A recepção positiva do álbum somada a insana repercussão e euforia dos fãs talvez explique o visível nervosismo na apresentação do Saturday Night Live em novembro; mês depois Solange entregou uma performance excepcional de Rise e Weare, as faixas que abrem o álbum, no The Tonight Show.

   O sucesso de “A Seat At The Table” é inquestionável, pois Solange entregou um trabalho conceitual de grande expressividade, principalmente no quesito composição. Suas letras falam de empoderamento negro com muita propriedade, algumas canções são introduzidas por depoimentos que corroboram com o conceito do álbum que é mostrar que os afro-americanos tem e merecem o seu “lugar à mesa”, ainda mais em tempos retrógrados (vide a xenofobia de Donald Trump). Uma das faixas que reforçam o amor próprio é “Don’t Touch My Hair”, onde Solange entoa poeticamente: “Don’t touch my hair/ When it’s the feelings I wear/ Don’t touch my soul/ When it’s the rhythm I know”. Algumas faixas versam sobre experiências pessoais de Solange, como a melancólica e pulsante “Cranes In The Sky”, faixa que  nos remete a uma doída alegria, talvez por ser tão visceral entoado pelo doce timbre de Solange. “Don’t Wish Me Well” envereda pelo mesmo estilo. Este novo trabalho de Solange não tem apelo pop, entretanto, possui tamanho o potencial que todo amante de música aprecia e necessita para não se distrair com trabalhos descartáveis e sem conceito algum. Não é exagero afirmar que Solange, com esse trabalho, influenciará muitos artistas a serem verdadeiros e compromissados com sua arte.

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Impressões sobre a peça "As divinas mãos de Adam"

Os competentes atores em cena da premiada peça
   “As divinas mãos de Adam” é um texto teatral da autoria de Roberto Muniz Dias, um dos mais significativos nomes da “literatura LGBT”. A peça foi apresentada em São Paulo na última edição do Festival Mix Brasil e reuniu um grande número de espectadores, muitos certamente entrando em contato pela primeira vez com o texto do escritor piauiense, cuja obra, reforça o potencial criativo de Roberto exacerbando uma profundidade que aproxima a literatura da filosofia.
   O diferencial da literatura de Muniz Dias provém da fuga ao “lugar comum”, ou seja, seus textos não giram em torno da opressão sofrida pelas personagens homossexuais, tampouco descambam para uma “literatura para maiores”, embora aborde essas questões, o modo como descreve tais fatos é sofisticado e extrai o máximo de filosofia; a maioria de seus personagens parece possuir um segundo olhar para os eventos ocorridos em suas vidas. Na peça “As divinas mãos de Adam” essa verve filosófica é representada pelos dois personagens masculinos, que nutridos de um desespero comum (apesar de suas diferenças pessoais) conseguem chegar a uma equiparação de seus estados de vida, após dialogarem, entre confidências e doses de conhaque,“O grande nivelador social”. O acaso que arrebata Stephen e Adam tanto permite a ambos “depurar a verdade” como permite-lhes extrair humor de algum aspecto, o que traz leveza para o melancólico texto de Roberto.
   Como em toda obra fictícia espera-se um “happy end”, este não vem sem antes passar por duríssimas penas, nesta peça o entendimento de Stephen e Adam é atacado por Rita, irmã de Stephen, esta munida de um fanatismo religioso que reprime qualquer atitude que não corresponda aos ditames cristãos pregados, geralmente, pelos evangélicos. Entretanto, o texto sutilmente alude a esses conceitos, sequer designa “Deus”, refere-se ao Divino ou na fala eloquente de Rita: “Ele”, o pronome substantivo apodera-se da personagem com um fervor de devoção. Já que falamos em pronomes, cabe ressaltar que essa precisão da escrita de Muniz Dias, reflete o apuro de seu ofício e também nos remete ao “Pronominais” de Oswald  de Andrade, especificamente quando Stephen pede a Adam uma dose de conhaque: - Dá-me uma dose!
   Os aspectos apontados acerca da peça “As divinas mãos de Adam” são poucos levando em conta os vários efeitos de sentido que ela propicia a cada espectador. Certamente, um indivíduo é tocado por determinada frase, outro fora afligido pelo insólito do tema; algum letrado absorveu diversos paradoxos e ficou com a peça semanas na cabeça, entre outras razões que corroboram para designar o texto de Roberto Muniz Dias como Literatura utilitária, ou seja, aquela que conjuga estética e humanização. Esta, decorre numa crescente até o clímax explosivo, literalmente tocando o dedo na ferida, quando a personagem Rita expõe um dos principais argumentos contra a homossexualidade: “não há nada de divino neste seu pensamento que não germina, nunca germinará...” as respostas dadas por Stephen e Adam representam menos as pretensas verdades limitadoras, impostas por religiões, que a própria consciência é capaz de buscar uma autonomia perante seus desejos e a própria condição humana.

Ficha Técnica

Texto/ Text: Roberto Muniz Dias
Diretor/ Director: Emer lavinni
Preparadora de elenco/ Casting director: Claudiana Cotrim
Elenco/ Cast: Ana Carolina Rainha (Rita), Héctor Medina (Adam) & Mário Cardona (Stephen)
Iluminadores/ Lightning designer: Anauã Vilhena e Héctor Medina
Músico/ Musician: lucas Simonetti
Figurinista/ Costume designer; Nina Nabuco
Cenógrafa/ Set designer: Renata Belich
Visagista/ Make up artist: Hugo Régis
Fotógrafo/ Photographer: Mackson Cruz
Criação e produção/ Creation and production: Cia Popular Versátil


domingo, 25 de dezembro de 2016

Comentando o filme Aquarius, de kleber Mendonça Filho

Sônia Braga em cena do aclamado Aquarius
    Tive receio em assistir Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, devido o posicionamento (assertivo) do filme perante  o caótico contexto político brasileiro. A questão que me perturbava era: Será que o filme, apesar de falar sobre resistência, não é significativo o suficiente para falar por si? Não é artístico o suficiente para não precisar denunciar o golpe? Foi um descarado golpe sim! Mas e os prêmios ganhos pelo diretor e pela atriz principal? Estas e outras questões me instigavam a conferir a obra para formar uma opinião livre de tanto julgamento alheio.
    Não estava de todo errado, Aquarius fala de resistência mas, o que salta na tela é a criatividade do diretor em mostrar uma grande personagem feminina, Clara, interpretada de forma magnífica por Sônia Braga. Basicamente o roteiro é sobre uma senhora que resiste bravamente às investidas de uma construtora em comprar o seu apartamento,único que falta  ser vendido no Edifício Aquarius. Ao passo que vamos conhecendo Clara, entendemos porque ela não quer se desfazer do apartamento. Clara sobreviveu a um câncer no passado e hoje é aposentada, mãe de três filhos, viúva e avó. Ela segue sua rotina quase como um ritual, morando com sua empregada de décadas, Ladjane. Outra grande característica da personagem é que ela é uma senhora muito culta, inclusive, sendo convidada a dar entrevistas onde fala sobre seu apurado gosto musical.
    Aquarius é construído assim como a obra anterior de Kleber, O som ao redor, entretanto, os recursos inerente a ambos aqui falam mais alto: As fotografias em preto e branco do início já denunciam tratar-se de um filme de memória; a caracterização do começo dos anos oitenta é excepcional; a divisão em capítulos também é outro detalhe importante dos filmes do diretor pernambucano. Esses aspectos, artísticos, permitem ao filme falar por si só, ou seja, é um filme de arte, devido as características como fotografia, atuação, roteiro, etc, trazerem potencial digno de reconhecimento em festivais mundo a fora. Todavia, seria ingenuidade minha não reconhecer o viés político de Aquarius, uma obra fruto do nosso conturbado tempo. O filme é uma convincente crítica ao capitalismo selvagem que ignora o fator humano. O indivíduo e sua história afetiva, doravante Clara não se desfaz de seus discos de vinís apesar da praticidade que é ouvir música em celulares, hábito que ela também possui.
    A personagem de Sônia Braga é apaixonante por ser uma mulher extremamente humana, família, inclusive convivendo com sua empregada como se fosse membro dela, como vemos na cena em que Clara canta e toca ao piano no aniversário de Ladjane. Ressalto que não conhecia a música cantada em aniversários de Aquarius, deve ser algo característico de Pernambuco, local onde se passa o filme. Já o personagem antagonista, vivido por Humberto Carrão, pouco aparece, embora em suas poucas cenas já destila um cinismo insuportável que nos faz esquecer que ele é o mocinho da atual novela das 21. 
   
Não posso deixar de falar que Aquarius é um tapa na cara da sociedade sim, para aquelas pessoas que se acham acima da lei, que discriminam as minorias, que não acreditam nos ideais esquerdistas, por exemplo: na cena do exercício na praia onde aparecem uns três garotos morenos, as pessoas tendem a pensar que se trata de arruaceiros, de assaltantes, entretanto o grupo se junta aos que estão se exercitando. O mau sujeito é um branquinho playboy, sujeito traficante como denuncia o salva vidas, vivido por Irandhir Santos, para Clara. Nas cenas finais do filme o racismo se faz presente na fala do antagonista. E é assim mesmo em filmes de Kleber Mendonça Filho, as situações vão se encaminhando pra uma sufocante tenção que culmina nos segundos finais.
 

domingo, 27 de novembro de 2016

As Histórias de fadas de Oscar Wilde

Edição de bolso da Saraiva
   Oscar Wilde sempre nos remete ao tema beleza e tentações, e claro, a sua obra prima “O retrato de Dorian Gray”. Certamente, foi uma personalidade muito controversa segundo consta sua biografia. Entretanto, mesmo analisando seus textos diversos, as controvérsias acentuam-se cada vez mais. Apesar que soa ingênuo da minha parte querer separar o autor da novela “O retrato de Dorian Gray” do autor de contos infantis, escritos para os próprios filhos. Pois mesmo em contos como “O príncipe feliz” ou “O jovem rei”, entre outros, o apelo descritivo construído com metáforas designadas por pedras preciosas estão lá, em demasia. A mesma tentação ocasionada pela beleza, ou melhor, valendo-se de um signo atual, a “ostentação” era a armadilha visual que Wilde tanto tematizava em seus textos.
   Em seu “Histórias de fadas” não temos o esperado “happy end”, o que leva-me a acreditar que Wilde intencionava incutir em seus filhos ( e possíveis leitores) os valores reais que salvariam a alma, ou seja, resistir as tentações, que podem nos cegar de tão belas, é o que deve-se fazer para  não padecermos tão tragicamente como seus personagens. No conto “O jovem rei” vemos que o belo e valioso  que ornamenta os reis é obtido através do sofrido trabalho dos pobres, ou melhor, de um trabalho degradante e arriscado o qual o jovem rei toma conhecimento em seus sonhos. O texto comove pela narrativa dramática, entretanto com o propósito disciplinador que exalta a renúncia ao ornamento que enfeita o reinado mas traz um rastro de morte consigo.
   Além das tentações pelas pedras preciosas e todo o requinte dos abastados do século XIX, outra armadilha á qual Wilde alude em seu “Histórias de fadas” é o próprio ego inflado de alguns. O texto “O foguete notável” funciona como um apólogo e narra a estória de um foguete que se considera superior a todos os outros. Um tom de leveza e humor perpassa o texto devido aos disparates proferidos pelo foguete que crer que todos os acontecimentos giram em torno dele. Um “notável” exemplo: os foguetes serão lançados na ocasião do casamento do príncipe – o foguete notável enxerga o oposto, é sorte do príncipe casar-se no dia em que ele será lançado. O cúmulo é o fato deste foguete distorcer os comentários a seu favor, vejamos um excerto:
- Ora essa! – exclamou. – Olha só um foguete que não presta! – e atirou-o por cima do muro, em uma vala.
-Foguete que não presta? Que não presta? –disse ele, enquanto voava pelos ares.  – Impossível! Foguete de dar festa, foi isso que o homem disse. Não presta e dar festa tem quase o mesmo som, e para falar a verdade são praticamente a mesma coisa- e caiu na lama. (p. 47, 48).
   Os contos de “Histórias de fadas” são muito comoventes. Os textos, apesar de destinados ao público infanto-juvenil, explanam os vastos caminhos que rondam a alma do homem, os medos, os objetivos e também a inevitável morte. Que não esperemos princesas que ressuscitam após um beijo do amado ou que perdem sapatinhos... a matéria-prima de Wilde é a sociedade moderna e seu homem preso ao presente e refém da sua alma.