domingo, 27 de novembro de 2016

As Histórias de fadas de Oscar Wilde

Edição de bolso da Saraiva
   Oscar Wilde sempre nos remete ao tema beleza e tentações, e claro, a sua obra prima “O retrato de Dorian Gray”. Certamente, foi uma personalidade muito controversa segundo consta sua biografia. Entretanto, mesmo analisando seus textos diversos, as controvérsias acentuam-se cada vez mais. Apesar que soa ingênuo da minha parte querer separar o autor da novela “O retrato de Dorian Gray” do autor de contos infantis, escritos para os próprios filhos. Pois mesmo em contos como “O príncipe feliz” ou “O jovem rei”, entre outros, o apelo descritivo construído com metáforas designadas por pedras preciosas estão lá, em demasia. A mesma tentação ocasionada pela beleza, ou melhor, valendo-se de um signo atual, a “ostentação” era a armadilha visual que Wilde tanto tematizava em seus textos.
   Em seu “Histórias de fadas” não temos o esperado “happy end”, o que leva-me a acreditar que Wilde intencionava incutir em seus filhos ( e possíveis leitores) os valores reais que salvariam a alma, ou seja, resistir as tentações, que podem nos cegar de tão belas, é o que deve-se fazer para  não padecermos tão tragicamente como seus personagens. No conto “O jovem rei” vemos que o belo e valioso  que ornamenta os reis é obtido através do sofrido trabalho dos pobres, ou melhor, de um trabalho degradante e arriscado o qual o jovem rei toma conhecimento em seus sonhos. O texto comove pela narrativa dramática, entretanto com o propósito disciplinador que exalta a renúncia ao ornamento que enfeita o reinado mas traz um rastro de morte consigo.
   Além das tentações pelas pedras preciosas e todo o requinte dos abastados do século XIX, outra armadilha á qual Wilde alude em seu “Histórias de fadas” é o próprio ego inflado de alguns. O texto “O foguete notável” funciona como um apólogo e narra a estória de um foguete que se considera superior a todos os outros. Um tom de leveza e humor perpassa o texto devido aos disparates proferidos pelo foguete que crer que todos os acontecimentos giram em torno dele. Um “notável” exemplo: os foguetes serão lançados na ocasião do casamento do príncipe – o foguete notável enxerga o oposto, é sorte do príncipe casar-se no dia em que ele será lançado. O cúmulo é o fato deste foguete distorcer os comentários a seu favor, vejamos um excerto:
- Ora essa! – exclamou. – Olha só um foguete que não presta! – e atirou-o por cima do muro, em uma vala.
-Foguete que não presta? Que não presta? –disse ele, enquanto voava pelos ares.  – Impossível! Foguete de dar festa, foi isso que o homem disse. Não presta e dar festa tem quase o mesmo som, e para falar a verdade são praticamente a mesma coisa- e caiu na lama. (p. 47, 48).
   Os contos de “Histórias de fadas” são muito comoventes. Os textos, apesar de destinados ao público infanto-juvenil, explanam os vastos caminhos que rondam a alma do homem, os medos, os objetivos e também a inevitável morte. Que não esperemos princesas que ressuscitam após um beijo do amado ou que perdem sapatinhos... a matéria-prima de Wilde é a sociedade moderna e seu homem preso ao presente e refém da sua alma.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Os "Laços de família", de Clarice Lispector

Recente edição da Rocco
   A coletânea de contos “Laços de família” é o livro ideal para quem pretende conhecer a obra de Clarice Lispector. Devido a popularidade da autora ter aumentado graças às redes sociais e as várias frases atribuídas a este mito, nada mais justo que adentrar o vasto território dos textos consagrados, e o gênero conto, por sua concisão, é o assertivo ponto de partida para esta tarefa.  
   Os textos de laços de família são considerados verdadeiras obras-primas do conto brasileiro, alguns deles figuram na antologia “Os cem melhores contos brasileiros”. A temática, o apuro formal e a singularidade da prosa clariceana fascinam vários leitores desde que essa obra foi publicada em 1960. Um dos trunfos de Clarice é extrair da banalidade, do rotineiro, situações que desencadeiam um forte abalo na vida de seus personagens. Esse “abalo” configura no que designou-se "epifania", ou seja, uma revelação, momento em que a personagem tem um insight. Em laços de família o texto que melhor exemplifica a epifania é o conto “Amor” em que a dona de casa Ana tem sua rotina alterada após avistar um cego mascando chiclete. O zelo da protagonista para que tudo em sua casa, com o marido e os filhos corresse na mais perfeita ordem fizeram dela um ser mecânico, tal qual o movimento de mascar chiclete do cego. Todo o texto é repleto de simbologias, razão pela qual sua análise é sempre requisitada nos vestibulares. Outro conto de destaque é “Uma galinha” onde acompanhamos a sina de uma galinha que durante um certo período escapou de ir pra panela. Percebe-se uma tentativa de humanização da galinha, mesmo ela destinada a ser o que fatalmente era: uma galinha que iria servir de alimento mais cedo ou mais tarde. Entretanto, a “galinha de domingo”, ao por um ovo tem sua ida pra panela adiada. Sob os gritos da menina que presenciou o fato: “-Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!” (p. 32) Após isso ela “tornara-se a rainha da casa”, até cumprir o seu fatal destino.
    Certamente um dos melhores textos desta coletânea é “Feliz aniversário”, cuja narrativa aborda a comemoração dos oitenta e nove anos de uma matriarca, D. Anita, que passa a festa inteira na cabeceira da mesa fitando com horror a mediocridade encenada por sua própria família. É nesse texto que observamos que os laços de sangue não são suficientes para fazer brotar bons sentimentos. As famílias se desentendem, o egoísmo humano forma barreiras intransponíveis, daí vemos em “Feliz aniversário” noras que se detestam, irmãos forjando discursos ou mesmo não comparecendo à ocasião. A mesquinhez humana é evidente neste conto, por exemplo, uma das noras ostenta  arrogância, “esta vinha com seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles...” (p. 54) Como se nada daquilo fizesse sentido para a aniversariante que medita amargamente sobre seus próprios frutos, com exceção de um neto, Rodrigo, “carne do seu coração”. Um detalhe importante deste texto é a personagem Cordélia, assim como a filha do rei Lear, esta enxerga a verdade e prefere a mudez a cair na armadilha das palavras encenadas, ciente do amor, do seu segredo.

    Laços de família é seguramente um dos cartões de visita de Clarice Lispector, alguns críticos literários chegam a concordar que a Clarice do conto supera a romancista. Polêmicas à parte, Laços de família é leitura imprescindível para que vejamos o fiel retrato da natureza humana, além da criatividade de Clarice em situar suas personagens, seja presa aos laços afetivos ou familiarizadas com outra forma, que não a humana, sempre em busca de uma linguagem que revele a verdade do ser. Doravante a proximidade com os bichos, uma galinha, um cão ou a vida “silenciosa, lenta, insistente” do jardim Botânico.

domingo, 16 de outubro de 2016

Comentando o filme "Jovens adultos"

Charlize Theron em primorosa atuação
“Jovens adultos” é um filme sobre falta de maturidade. A protagonista desse drama com nuances cômicas é Mavis Gary, interpretada com maestria pela oscarizada Charlize Theron (Monster- Desejo assassino). Mavis é uma ghost writer de uma série “Young adult” que fora cancelada, entretanto ela precisa escrever o último capítulo. Sob pressão de seu editor e vivendo uma fase nada criativa, a página ainda em branco, Mavis, ao vasculhar sua mailbox, encontra um convite de felicitações pela chegada de um bebê, é a filha de Buddy Slade (Patrick Wilson), seu namorado dos tempos da escola. Apesar dos seus 37 anos, Mavis é tão imatura quanto as personagens da série da qual é autora. Toma para si o convite do email, ignorando totalmente a fase atual, o casamento bem resolvido do antigo namorado. Mavis é uma pessoa totalmente “sem noção”! É uma personagem que não sabemos se sentimos pena, ou raiva ou mesmo alguma estima pelas absurdas atitudes tipicamente “adolescentes”.
Roteirizado por Diablo Code (Juno), “Jovens adultos” possui diálogos sensacionais, a “falta de noção” de Mavis não parece um simples desvio de caráter da personagem, uma vez que ela possui um lado humano, tem um cachorro de estimação e quando reencontra um antigo colega de escola que fora vítima de um crime de ódio, toma empatia pelo moço e lança a questão, para o público: é mais doloroso o trauma físico, ou as neuroses que um especialista poderia resolver? Explico, a vítima do crime de ódio ficou com graves sequelas, como mobilidade reduzida e quase impotente.  O cúmulo da desorientação de Mavis é achar que a fase em que era a mais popular da escola era a sua melhor fase. Era nesse período em que descobrimos que ela era muito egoísta, deslumbrada pelo sucesso com os garotos e principalmente por Buddy, este no presente envolto em mamadeiras e feliz com sua mulher Bety, cujo motivo não é empecilho para Mavis fazer de tudo para reconquistar o antigo namorado. Inclusive ao ponto de se insinuar perante Bety e suas amigas. Para Mavis só o que ela pensa importa já que "o amor supera tudo" também "a sociedade aceita tudo", isso e outras projeções oriundas do universo unilateral e retrógrado de Mavis. 

A eficiente atuação de Charlize e o ótimo roteiro de Cody entregam um bom filme, destes que valem rever várias vezes. Há cenas impagáveis em que Mavis Gary munida de uma petulância que só os adolescentes ostentam, provoca o riso devido o absurdo que determinada atitude acarreta. Outra característica importante em Mavis é a preocupação com a aparência: salões de beleza e roupas sofisticadas fazem parte de sua maneira de se apresentar aos outros, já em sua casa entrega-se ao desleixo de modo geral, alimenta-se de enlatados, veste as velhas camisetas com estampas infantis e abusa de Coke. Interessante também o modo como Maves colhe “por acaso” diálogos de pessoas na rua e os insere na série da qual é ghost writer, encaixando-os devidamente no mundo pretensioso da fase juvenil. 

sábado, 8 de outubro de 2016

Criolo:rimas de superação e esperança

Criolo e as rimas de esperança de "Ainda há tempo"
  Um dos álbuns nacionais lançados neste ano que muito escuto é “Ainda há tempo”, do Criolo. Na verdade, trata-se de um relançamento, o álbum fora lançado há dez anos atrás, época em que o rapper designava-se Criolo Doido. O relançamento desse trabalho deve-se ao fato de Criolo ter se tornado grande nome da música brasileira após a ótima recepção de “Nó na orelha” em 2011 e pelo o sucessor “Convoque seu Buda” em 2014, ou seja, o álbum de 2006 era conhecido apenas pelos fãs mais antigos, aqueles do tempo em que Criolo não tinha expandido suas fronteiras musicais, mantinha-se fiel ao rap tradicional e se apresentava nas rinhas de MC's, eventos geralmente restritos a adeptos do gênero.

   Apesar de “Ainda há tempo”, versão 2016, conter apenas oito faixas, muito menos que o álbum de 2006, ele traz o essencial do Criolo em seu início, na periferia da Zona Sul Paulistana. Seria injusto que o público que acompanha o músico desde o sucesso de “Não existe amor em SP”, não tomasse conhecimento das pérolas musicais do Criolo das antigas. Certamente, alguns desses fãs das antigas preferem as versões do álbum original às novas versões super produzidas por feras da cena. Na verdade, não precisa ser fã de rap para gostar de Criolo, suas rimas são carregadas de humanidade, ou seja, verdadeiras filosofias de vida extraídas de uma realidade hostil, marcada pelo abandono que são as periferias de uma grande cidade. Muitas frases de Criolo ecoam em nossa mente e no álbum “Ainda há tempo” não falta material para isso: a própria faixa título já expressa a ideia de esperança, de uma crença de que a humanidade tem jeito, por mais que a realidade nos mostre tantas atrocidades e desrespeito à vida.  Se tem um artista que merece o título de “grande pensador contemporâneo”, esse alguém é Criolo. No referido álbum, as rimas criativas versam sobre ele ter encontrado sua salvação no rap, uma vez que muitos jovens acabam sucumbindo para o mundo do crime já que faltam oportunidades na periferia. Exemplo maior do poder de humanização da arte! Criolo no palco expurga suas convicções, expõe suas memórias e abre o coração, não raro o amor materno consta em suas rimas: “Eu respeito, ah como eu respeito/ amor de mãe não se escreve, aí não tem defeito/ seria tão bom se a mãe da gente não sofresse/ não ficasse doente e também não envelhecesse.” São versos da canção “É o teste”, faixa que abre o álbum e uma das melhores letras do rapper. Os recados são inúmeros: “Procure ser feliz, pobreza não é derrota”; “O que penso família, ainda nela acredito” e claro, o refrão: “É o teste, é o teste, é a febre, é a glória/ não se corromper pra nóis já é vitória.” Não posso esquecer de destacar a faixa “Vasilhame”, especificamente a mudança de um verso que Criolo, numa atitude humilde, reconhece que certas palavras ofendem e por isso alterou um verso considerado homofóbico: “os traveco tão ali, alguém via se iludir.” Na versão repaginada ficou: “O universo tá ai, alguém vai se iludir.” A faixa em questão versa sobre o abuso do álcool e o quanto isso pode ser prejudicial a saúde e favorável apenas aos donos das empresas de bebidas. Retomando o tema da homofobia, Criolo disse, certa vez, não me atenho ao contexto, uma das coisas mais certeiras dessa vida: “até parece que ser gay é defeito”. Seria bom se muitos artistas fossem tão bons no que fizessem e também fossem tão humanistas como Criolo, mas “ainda há tempo”!

domingo, 25 de setembro de 2016

Comentando, Trilogia do Desejo de Roberto Muniz Dias

Trilogia: a versatilidade romanesca
Trilogia do Desejo é a coletânea que agrupa os três primeiros romances do escritor piauiense Roberto Muniz Dias, são eles: Adeus a Aleto, Um buquê improvisado e Urânios. Geralmente, essas obras estão relacionadas a literatura Queer, ou literatura LGBT, uma vez que a temática homoafetiva é recorrente na ficção criada por Roberto Muniz Dias. Entretanto, a leitura atenta de Trilogia do desejo revela inúmeras possibilidades de categorização dessa literatura, ou seja, as estórias não se restringem as aventuras, descobertas das personagens, homossexuais ou não, fatos extraordinários  ou coisas desse gênero, mas importa, sobretudo, nas narrativas de Roberto Muniz, a concatenação das memórias com os recentes “estados d’alma”   dos seus protagonistas. Doravante, uma série de referências são inseridas na narrativa corroborando para o hibridismo do texto, ou seja, mitologia grega, trechos de canções populares, cânones literários, entre outros aspectos, surgem num fluxo de consciência que acentua a incessante busca da “verdade” de seus personagens.
Adeus a Aleto
No romance de estreia de Roberto Muniz Dias, acompanhamos um protagonista, escritor, em sua estadia pela Europa divulgando sua obra, e claro, entregando-se aos encantos e prazeres das noites de Amsterdã, entre vinhos e a companhia de um misterioso jovem chamado Nikov. Quem seria Nikov? Um turbilhão de dúvidas se faz na mente do protagonista. As luzes, os sons, toda uma atmosfera de suspense perpassa nas páginas de Adeus a Aleto. Um escritor dividido entre os prazeres noturnos e a fertilidade da criação literária, eis o dilema do protagonista sem nome de Adeus a Aleto.
Um buquê improvisado:
Talvez seja o romance mais palatável de Roberto Muniz Dias, por conter os ingredientes de uma boa ficção literária, ou seja, dramas, aparente linearidade, personagens cativantes, antagonistas de causar revolta, sobretudo, a problematização do conceito religioso, ou seja, a maneira como o cristianismo serviu de forte influência na construção da personalidade e fomentação da cultura a qual pertencemos: maniqueísta, preconceituosa e preocupada com o ideal heteronormativo. A pungência de Um buquê improvisado é ampla por minar o grupo social que é a família, ou seja, a noção de família é problematizada através das personagens que se veem inseridas enquanto “estrutura tradicional” da sociedade, quando justamente essa noção está sendo posta em cheque pelo protagonista J. em meio sua presente situação e a descoberta de fatos importantes sobre seu pai.
Urânios
Nesse romance, de forte tom intimista, o leitor é apresentado a um “relato de amor e morte, mas nada póstumo porque tudo já estava morto: o amor, o tempo e a identidade.” Este relato trata-se de uma experiência poliafetiva, ou seja, um jovem junta-se a um casal de namorados, numa entrega movida por impulsos sexuais, narrados de forma sublimes, contidas, sem jamais extrapolar para vocabulários pejorativos, uma vez que seu estilo narrativo prima pela sutileza, puro lirismo. Doravante, é problematizada essa modalidade amorosa, através do protagonista de posse da pintura de um galo colorido, herança que insiste em avivar as lembranças do trio amoroso. Disposto em capítulos que se alternam, esse romance aborda, a priori, a construção da identidade do protagonista- o presente e o passado, a gênese, e também corresponde ao retrato fiel da contemporaneidade, no qual os relacionamentos amorosos não mais se restringem às normas do século passado. É o carácter libertário que a boa literatura proporciona. É a Trilogia do desejo dando o grito de liberdade que é desejo de todo indivíduo que se permita pensar e viver com autonomia.


sábado, 27 de agosto de 2016

Comentando "Seminário dos ratos", de Lygia Fagundes telles

Edição da Companhia das letras
   Seminário dos Ratos é um livro de Lygia Fagundes Telles lançado em 1977. Dentre algumas curiosidades acerca do lançamento dessa coletânea de contos, a autora foi entrevistada por ninguém menos que Clarice Lispector, esta, logo deu o veredicto: “já comecei a ler e me parece de ótima qualidade”. São contos extraordinários,  não raro Seminário dos Ratos consta em várias listas de “os essenciais da literatura brasileira”.
    Em Seminário dos ratos, Lygia utiliza-se de temas universais para problematizar diversas emoções e escava com afinco os mais profundos sentimentos. Não por acaso a loucura aparece em dois contos, embora por abordagens distintas o que corrobora para a pluralidade de ideias. Em “A consulta”, Lygia lança mão de certa dose de humor para narrar um episódio ocorrido num hospício. Basicamente, nesse conto, o Doutor da instituição ao verificar certa melhora num dos pacientes, pede que este o substitua, pois precisará ficar ausente por algumas horas. Justamente num dia em que a secretária faltou. Como diz o ditado “missão dada é missão cumprida”, Maximiliano,o paciente, aceita. Entretanto, uma consulta que estava marcada num horário que certamente o Doutor já haveria retornado, acaba sendo adiantada, por desespero do paciente. E o que Maximiliano faz? Adianto, sem entregar muito do conto, que após a conversa com o paciente desesperado, que a noção de loucura pode cair por terra, uma vez que, após o retorno do verdadeiro Doutor, ocorre o seguinte diálogo:
- Ótimo, Max. Você vai indo muito bem, o progresso que fez. Estou muito satisfeito.
-Eu também.
-Falta apenas o último passo, você sabe, assumir sem possibilidades de retrocesso. Então estará curado.
Maximiliano sorriu. A voz saiu mansa, num quase sussurro, “curado e fodido”. (p. 149-150)
   Já o no conto WM a loucura é apresentada de forma bem mais perturbadora. A narrativa é feita em primeira pessoa (ai desconfiança!) e abarca o núcleo familiar composto por uma mãe e um casal de irmãos, o moço é o narrador. À medida que vai desenrolando os aspectos da família e sua loucura reinante – o primeiro espaço apresentado é um consultório psiquiátrico- ao passo em que discorre sobre uma obsessão em marcar as iniciais WM em todos os lugares e sobre a dificuldade que teve em aprender escrever o W. A mãe é uma artista perfeccionista e neurótica, impacientava-se com o assédio, mas reclamava quando era ignorada. E ao que parece a loucura é tão presente em nossa vida, o quanto é fácil aprender uma letra que é apenas uma outra  ao contrário (WM). É um conto de difícil compreensão, não se pode apegar-se a uma aparente simplicidade, pois segundo o personagem- narrador: “O silêncio ajuda a abrir o intricado caminho aqui dentro por onde vou descendo até o fundo, para ajudá-la, preciso eu também descer aos infernos.” (p. 87) Portanto, muita atenção à entrelinha e a qualquer detalhe desse texto.
   Os textos mencionados acima são apenas dois de que mais gostei de Seminário dos ratos. Certamente, um conto muito conhecido é “Pomba enamorada ou uma história de amor”, onde uma jovem sofre um amor não correspondido e apela pra tudo quanto é crendice ou truque comum pra chamar a atenção do amado, um sujeito bruto e estúpido. Nessa narrativa o humor é uma constante, o que explica o destaque dado a este texto. Também as agruras da velhice, uma paixão de uma menina por um primo, a visita noturna de formigas num quarto de pensão, dentre tantos enredos excelentes, dão a tônica desse singular livro de Lygia Fagundes Telles que é encerrado pelo conto que intitula a obra.


sábado, 20 de agosto de 2016

Velho Chico

Irandhir Santos é Bento dos Anjos em Velho Chico
     No ônibus, no horário de café da empresa e até mesmo nas redes sociais e seus assuntos-mais-que-previsíveis, quase não se fala em “Velho Chico”, atual novela do horário nobre. Por que a trama não decolou? Algum engraçadinho diria “com uma lentidão daquelas, ela mal sai do chão”. Será que essa rejeição já estava anunciada quando o Sr. Benedito Rui Barbosa disse estar de saco cheio de novelas com personagens gays? Será a culpa da vilã (?) que só grita e só faz bonito com a sanfona? Bem, estou tentando entender o porquê deste “fracasso”.
    Não peguei a primeira fase de Velho Chico, mas fiquei entusiasmado, apesar das críticas negativas, com a segunda e definitiva fase, doravante a história prosseguiria até o último capítulo. Mas, ao que parece, a trama de ódio entre duas famílias, clichê Barbosiano, mal ultrapassa a audiência das novelas anteriores, respectivamente “A regra do Jogo” e “Babilônia”. O público, simplesmente, não se agradou por Velho Chico e a razão mais apontada é quanto ao ritmo da trama, que é lento. Exceto algumas cenas demasiado longas, sobretudo de extensos diálogos entre os personagens, a trama apresenta diversas situações que movimentam a história sim. E não são poucas, pois quando o foco não está na rixa entre os protagonistas, a tensão é cortada por típicos personagens como “o fofoqueiro”, papel interpretado com eficiência por Gésio Amadeu, com seu Chico Criatura, o dono do bar de Grotas, de onde todos os acontecimentos da cidade passam por lá. Seguindo nessa verve de “disse-me-disse, a personagem “Dalva”, interpretada por Mariene de Castro, sempre de olho em tudo que acontece na casa do coronel , tem seu destaque.  
   Outra razão corresponde à trilha sonora que é constituída por músicas de décadas mais que ultrapassadas, daí ecoam Caetano, Tom Zé, Alceu Valença, dentre outros. Em contrapartida, as novas caras musicais que compõem a trilha não são fenômenos de popularidade, mas nomes como Céu, Pélico, Bárbara Eugênia, etc. Quero dizer, não trazem o apelo popular caso nessa trilha, tivesse um nome do sertanejo universitário que nada mais é que um- arremedo-do-forró, ou mesmo uma “estrela” fabricada do funk. São aspectos que indicam uma obra “fora do tempo”, tendo-se em mente uma generalização de como é massa, ou de como uma grande maioria enxerga o mundo. Em suma, uma população urbana, evangélica, que se acha moderna por fazer uso de tecnologia, que se diz musicalmente eclética mas acha que só faz sucesso sertanejo e funk, ou seja, tudo que não vemos em Velho Chico. Quanto ao aspecto religioso, demasiado explorado na trama, creio ser um fator negativo ao sucesso sim, como disse, certa vez Madonna: “ religião não é amor, elas dividem, separam”... não sei se exatamente nessas palavras, mas o sentido é esse. Ao mostrar todo o misticismo das personagens, daquela região, a trama expõe uma fragmentação de pensamento religioso, uma vez que o sincretismo religioso não representa o Nordeste, mas apenas uma parte dele. Embora, seja este um dos aspectos fundamentais para uma coerência da trama, ou seja, é um marco de originalidade que no texto aparece como um resgate de traços culturais praticamente esquecidos, ou ignorados. Nos tempos extremos em que vivemos, as pessoas demonstram uma grande intolerância a diversidade, nesse sentido falo da diversidade religiosa. A urgência, a corrupção, o consumismo exacerbado leva o homem ao esgotamento de si, dai ele só ver “razão” num impossível: “Deus”, que é fabricado e limitador e opressor, porque limita o humanismo. Dai a aversão para as crendices mostradas em Velho Chico.
    Ao que parece, utilizei-me da trama para apontar um descontentamento próprio com a sociedade, erros de coerência textual? Que seja. Sinto realmente pela falta de reconhecimento por Velho Chico. Simplesmente, aprecio o resultado que vejo, seja nas belas imagens do Rio São Francisco ou dos casarios das famílias centrais da trama: a casa grande do coronel e a casa da família humilde, ambas parecem um belo quadro que não precisa de moldura de tão belo. Quanto às atuações, há performances estarrecedoras como a desenvolvida por Irandhir Santos e seu Bento dos Anjos. Seja na candura ou quando a Besta -fera toma conta dele, a entrega é total tanto nas veias que saltam ou pela entonação assertiva do intenso personagem.  O próprio coronel de alma dividida (partida?) consegue transmitir uma relação dúbia, ame ou odeie, condizente com seu personagem opressor. Também a matriarca do clã De Sá Ribeiro, de longe é uma das personagens que sustentam a trama e fazem desta uma obra digna e que reflete certa desorientação do público sedento por novelas frívolas e com vilãs impagáveis. Não posso esquecer de apontar o belo texto que abarca valores como ética, bom senso e todo o humanismo pelo qual lutam os mocinhos da trama, já que o tendencioso jornalismo da emissora... bem, aí já outra história. Não?