sábado, 30 de julho de 2016

Comentando "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres"

  Edição da coleção da Folha de São Paulo
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres é o sexto romance de Clarice Lispector e foi lançado em 1969. Essa prosa, embora não abarque a profundidade de uma G.H ou mesmo da Joana da segunda parte de Perto do coração selvagem, é constituída sob uma atmosfera pungente, mas poética também. Sua protagonista, Lóri, é uma mulher solitária que sofre com a dor de existir, ou seja, como outras “mulheres de Clarice”, Lóri, sente-se em descompasso com o mundo, com as outras pessoas, fato que pode mudar quando ela conhece Ulisses. É o início de sua aprendizagem.
A protagonista desse romance é uma das personagens mais fascinantes de Clarice, Lóri, que apesar de sofrer com sua solidão, possui algo muito forte dentro de sí que é o modo de enxergar a vida, pois é uma mulher que procura fazer parte da “coisa” vista. Desse modo, uma noite de luar proporciona-lhe um forte encantamento, até pelo motivo dela considerar-se uma pessoa lunar. Essa solidão voluntária, não faz de Lóri uma pessoa egoísta, pois sendo professora primária, ela sai um pouco da sua “dor de existir” e interage com a sociedade.  A dor de Lóri só poderá ser diminuída quando ela integrar-se à vida pelo amor de um homem: Ulisses, este, também é professor, mas de filosofia numa universidade e apesar de gostar de Lóri, percebe que ela ainda não está pronta para iniciarem um relacionamento. É quando começa o processo de aprendizagem para que Lóri esteja pronta para o amor, pois até então a própria não se considerava apta, mediante sua inadaptação aos modos de existir banalizados. Não que seja “pessoa do outro mundo” mas Lóri não se prende à uma vida comum, o que notamos, por exemplo, quando ela tenta travar contato com uma mulher na rua à espera de condução, o que faz comentando sobre a demora do ônibus e elogiando o vestido da moça, mas  quando sua interlocutora permitiu-se dar-lhe atenção,  Lóri distrai-se com as explicações:
     “Lóri não ouviu mais nada: sorria beatificada: entrara em contato com uma estranha. Interrompeu-a um pouco bruscamente mas om uma doçura de gratidão na voz:
 -Adeus. Obrigada, muito obrigada.
A moça respondeu surpreendida:
-Não quer saber do endereço da loja onde compro?
- Não precisa, obrigada. (p. 117)
As “faltas”, a inadequação de Lóri ante as coisas mais triviais são reforçadas por Ulisses, este não economiza sinceridade e aponta os defeitos da moça, embora que não seja por arrogância ou maldade, pois Ulisses nutre um amor por Lóri e permite-se esperar para que ela fique pronta para vivenciarem o amor mútuo que sentem. Nesse período, da aprendizagem, Lóri arca com a difícil tarefa de enfrentar seus temores, coisas simples, mas como trata-se de “persona” super sensível, um mero acontecimento como ir à praia, não é somente ir até lá: Lóri vai ao mar logo que o dia amanhece e entrega-se a ele numa intensidade de momento epifânico, como se se fundisse àqueles elementos naturais; como um microcosmo e o macrocosmo, expressões que também aparecem nessa narrativa tal é a imersão da personagem nos mistérios da vida.


Cabe lembrar aqui, que Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres é um romance constituído pela junção de algumas crônicas da autora, como dissera o professor Joel Rosa, especialista em Clarice, uma verdadeira colcha de retalhos. O bom é que essa concatenação resultou num dos melhores romances da autora, ideal para quem vai começar a ler a poderosa e influente Clarice Lispector.

domingo, 17 de julho de 2016

Comentando "A legião estrangeira",de Clarice Lispector

Edição de 1991:primorosos contos clariceanos
No livro de contos A legião estrangeira encontram-se alguns dos textos mais aclamados de Clarice Lispector.  A publicação desta obra data do ano de 1964, mesma época do lançamento do romance A paixão segundo G.H., motivo pelo qual, segundo apontam algumas pesquisas, A legião estrangeira teve menor repercussão nesse período, ou seja, devido o furor em torno de A paixão segundo G.H., livro considerado por muitos a sua obra-prima.
Nos textos de A legião estrangeira encontramos todos os elementos que norteiam a escritura clariceana, tais como as epifanias, por exemplo, e também é bem recorrente, quase como uma obsessão, a temática do “olhar”, o que podemos verificar no enigmático conto “O ovo e a galinha”, este, tido pela própria autora um enigma. Benedito Nunes, grande referência em assuntos clariceanos, considera “O ovo e a galinha” um exercício de meditação. No conto, a narradora tece inúmeras conjecturas existencialistas: “O ovo me vê. O ovo me idealiza? O ovo me medita? Não, o ovo apenas me vê. É isento da compreensão que fere.” (p. 47) Embora que eu esteja achando pêlo em ovo, absorvo desse texto o próprio enigma de viver; o medo do incerto futuro; a falta de autenticidade das relações humanas, esta devido ao que “vejo”, certa altura do conto a narradora-personagem diz: “ (...) ser leal não é coisa limpa, ser leal é ser desleal para com todo o resto.” (p. 52). Entretanto, este é um texto que abarca inúmeras possibilidades de análise, uma vez que ao “ver” o ovo a personagem- narradora traz à narrativa a galinha, fazendo comparações entre ambos, nas quais a galinha é sempre inferiorizada: “ O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida.” (p. 48) arrisco-me a ligar pequenos fios soltos, valendo-me do fato de que em meados do século XX, época em que o conto foi escrito, a mulher não tinha emancipação, apenas o homem era o que podia mandar e desmandar, por isso, o ovo é análogo ao homem, como a galinha à mulher, pois embora o ovo seja o objeto de “meditação”, a narradora-personagem entende penosamente os sentimentos da galinha:  “Sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a sua vida, “não sei mais o que sinto,” etc. (p. 49) Não obstante, sabe até o que cacareja a galinha: “Etc., etc., etc.”

O ovo e a galinha é de uma grande estranheza, não? Pois bem, focando na palavra “estrangeira” vemos que ela também pode significar “estranho”, desconhecido, entre outras acepções. Os outros textos dessa coletânea trazem “situações” mais convencionais, por exemplo, “Macacos”,no qual uma dona de casa leva uma macaquinha para casa, para o maravilhamento de seus filhos; “Viagem a Petrópolis”, onde uma velhinha, “doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo.” (p. 57); “Uma amizade sincera”, no qual dois jovens amigos procuram avidamente comprovar sua amizade, embora bastava saber que eram amigos verdadeiros. Há também textos que evidenciam o carácter metalinguístico, por exemplo, “A quinta história”, onde a protagonista, a partir do mesmo começo, tece inúmeros desdobramentos para contar uma história: “verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.” (p. 74) Vale ressaltar que mesmo nesses referidos contos, sempre há um quê de estranhamento, em “Macacos”, após a mãe noticiar a morte da macaquinha Lisette, ela ouve do filho mais velho: “ Você parece tanto com Lisette!” em resposta: “Eu também gosto de você”. (p. 45). Vale lembrar que muitas das personagens que compõem essa “Legião estrangeira” são crianças, mas não se enganem que sejam crianças fofinhas e inocentes, no conto de abertura, por exemplo, a protagonista é uma aluna esperta e petulante e vive a pirraçar o professor. No entanto, o melhor exemplo de que as crianças não sejam tão inocentes está no conto que intitula a coletânea, sim, o conto “A legião estrangeira” é mais um texto clariceano que tira o leitor do prumo à medida que o olhar e a percepção apurada das personagens servem de espinha dorsal da narrativa. 

domingo, 3 de julho de 2016

Comentando, "Onde estivestes de noite", de Clarice Lispector

Recente edição da Editora Rocco
Onde estivestes de noite é um livro de contos de Clarice Lispector publicado em 1974, ano de publicação do ousado e menosprezado A Via Crucis do corpo. Ambas as coletâneas possuem em comum o estilo mais simples e direto na construção das narrativas, bem como as temáticas do desejo sexual na velhice, dentre outros aspectos, como o reaproveitamento de textos publicados em outras obras, com alterações no título, por exemplo, método que sugeria a urgência que Clarice tinha em escrever para garantir sua sobrevivência. Seria isso uma “manigança”? Como a exemplo do texto “As maniganças de Dona Frosina”?
Um dos aspectos mais observados em Onde estivestes de noite é quanto a sua heterogeneidade: os dois primeiros contos lembram a estrutura dos aclamados contos de Laços de família e A legião estrangeira, diferem pelo agudo mergulho na temática da velhice, o desalento e anonimato aos quais são arrastadas as personagens Sra. Jorge B. Xavier no conto A procura de uma dignidade, que tinha desejos despudorados pelo cantor Roberto Carlos e Dona Maria Rita, no conto A partida do trem, esta, sentia-se um estorvo para sua família: “Sou como um embrulho que se entrega de mão em mão.” (p. 21) Além do fato de tais personagens serem descritas de modo abjeto, através de aspectos grotescos: a Sra Jorge. B. Xavier, num dado momento do conto, vê-se de quatro comparando-se a uma cadela; Dona Maria Rita possuía uma verruga no queixo de onde saía um pelo preto e espetado, ou mesmo quando sorria evidenciando sua “areada” dentadura. “O relatório da coisa” é um conto no estilo de “O ovo e a galinha” embora, com ritmo mais lento.
Onde estivestes de noite, o conto homônimo, é antecedido por quatro epígrafes, e o  que podemos esperar de um texto que se inicia com “A noite era uma possibilidade excepcional.”?  Sob a pena de Clarice Lispector, espera-se tudo. Menos a obviedade das coisas. Então, é sob uma atmosfera onírica que o leitor adentra nesse texto, no qual uma personagem andrógina, “Ele-ela” ou “Ela-ele” lidera uma subida à montanha onde coisas impensáveis acontecem, uma vez suspensa as regras do Dia, pois a noite abriam-lhes todas as possibilidades. “E não havia repressão: livres!” (p. 45) Essa liberdade aparece na aparente desestrutura do texto, ora a narrativa aborda as “maldições” ocorridas sob o comando de “Ele-ela” ou “Ela-ele”, ora são descritos personagens na luz do dia, com suas obrigações e sentimentos comuns. Aliás, nesse conto, onde prevalece a lógica do sonho, aparecem citações de Goethe, anúncios de rádio e até Cristovão Colombo dá o ar da graça!

Passada a vertigem, o susto ocasionado pela criatividade insana de Clarice em escrever textos tal o conto homônimo, os contos seguintes apontam uma calmaria, a busca pelo “estado de graça” ou mesmo, em alguns casos parecem mais crônicas, vide o texto “Uma tarde plena” ou mesmo “o morto no mar da Urca”, neste, a narradora- personagem recebe a notícia da morte de um homem por afogamento e faz um paralelo ao seu momento presente, em que estar a provar um vestido na costureira. Aliás, o que ocorre é que ao provar o vestido recebeu a trágica notícia, fato que modificou uma simples ida à Urca pra provar o vestido, pois a remeteu a reflexões sobre a morte. Este e todos os textos do volume, configuram a força que a literatura clariciana, feita nos últimos anos de sua vida possui. Podem ser escritos “na ponta dos dedos”, como relembra Vilma Arêas, porém longe de serem menos relevantes. Onde estivestes de noite é tão forte literatura, que alguns pesquisadores, leitores de Clarice, desvencilharam-se, do culto às obras aclamadas da autora, optando por pesquisarem sobre àquelas consideradas menores, Onde estivestes de noite, foi objeto de um primoroso estudo de Joel Rosa de Almeida, cuja pesquisa intitula-se: A experimentação do grotesco em Clarice lispector.

domingo, 19 de junho de 2016

Comentando "Os da minha rua", de Ondjaki

Livro de contos, memórias de Ondjaki
Uma infância plena e emocionante, é isso que transborda em todos os contos de “Os da minha rua”, do escritor angolano Ondjaki. Não há coração gelado que não se derreta diante de estórias tão emotivas, por vezes divertidas, uma vez que, cabe à criança brincar e fantasiar no mundo que a cerca. Os vinte e dois contos de “Os da minha rua” abarcam uma fase do “antigamente”, mas este é um tempo que persiste intensamente vivo na memória do menino Ndalu, ou Dalinho personagem-narrador de todos os textos dessa obra. Além de ser um tempo que passava devagar para estas crianças, segundo elas: “(...) vivíamos num tempo fora do tempo, sem nunca sabermos dos calendários de verdade.” (pag. 59)
“Os da minha rua” refere-se aos vizinhos e os parentes  que acompanharam o menino Ndalu nas mais diversas travessuras, ou apenas vivenciaram acontecimentos importantes numa fase em que se está a conhecer as pessoas e suas relações com o mundo. Alguns textos dessa obra lembram aquelas redações no estilo “minhas férias”, no entanto, a escrita de Ondjaki, além de ser guiada pela emoção de uns “olhinhos infantis”, a mesma é construída numa verve poética consistente. De conto em conto o leitor toma conhecimento da maestria de Ondjaki em destilar a leveza, a curiosidade, as traquinagens dos tempos de antigamente e como os cheiros, os sabores dos lugares da infância emanam de cada memória evocada. A honestidade com a qual são narradas as estórias, por vezes, descambam para o humor, seja pela sinceridade das crianças, que ainda não atinam para as regras do mundo adulto como,  por exemplo, na inusitada pergunta do “candengue” Jika a Ndalu: “Hoje num queres me convidar pra almoçar na tua casa?”, cujo texto também aborda a fantasia do mesmo pequeno Jika, que salta do telhado com um guarda-chuva numa tentativa de voar. O toque de humor também surge na personagem “queixinhas”, ou seja, a que conhecemos aqui no Brasil como “dedo-duro”. Em algumas situações sente-se pena da personagem “queixinhas”, como a dizermos que é porque são sinceras, dai entregam seja quem for. Por exemplo, no conto “Jerri Quan e os beijinhos na boca”, onde o “candengue” Ndalu , acaba “dedurando” o casal beijoqueiro ao pai da moça, ao atender ao telefonema, pois segundo o narrador “É que nós, as crianças, gostamos de responder só assim sem pensar muito no que afinal vamos dizer." (pag. 14) Já em “Manga verde e o sal também”, “Dalinho” não titubeia em fazer queixinhas e ainda paga os insultos na mesma moeda, como o troco dado em Madalena Kamussekele, ele prometera que se Madalena lhes desse sal para comerem com manga verde, Tia Maria e a avó Nhé não ficariam sabendo. Ao alertar Madalena para que apronte a mesa do jantar para a chegada da tia e da avó, Madalena responde-lhe mal: “A conversa ainda não chegou na casa de banho.” Foi o que bastou pra Dalinho fazer queixinhas e utilizar a mesma resposta de Madalena quando esta estava levando cintadas da tia Maria.
As visitas a parentes distantes, as diversas situações na sala de aulas, as visitas indesejadas dissimulando algum interesse, a telenovela Roque santeiro, dentre tantas vivências descritas em “Os da minha rua” fazem destes contos leitura obrigatória, seja ao público infantojuvenil, seja ao leitor adulto que poderá também relembrar a sua infância. Ressalto que toda a fantasia infantil, a leveza de algumas situações que perpassa quase todos os textos não resiste à densidade, à tristeza descrita no conto que encerra essa obra, “Palavras para o velho abacateiro”, cujo texto aborda, entre “lágrimas e chuva” a noção de despedida, justamente nesse texto que Ondjaki lança mão de um intenso lirismo, fato que o faz figurar entre os escritores africanos mais conhecidos no Brasil.


domingo, 12 de junho de 2016

Comentando "Antes do Baile Verde"

Edição recente da coletânea
      Antes do Baile Verde figura entre as principais obras de Lygia fagundes Telles. Na coletânea de contos, o leitor é apresentado a uma gama de personagens diversos que vão do motorista de caminhão a músicos, estes, incluindo saxofonistas e cantoras de óperas, dentre tantos outros tipos comuns como casais de namorados em crise, ou mesmo familiares em conflito.
Os contos de Lygia aparentemente soam simples, apesar da sofisticação da autora que já introduz o leitor na atmosfera do texto, ou seja, esqueça uma introdução comum ao que se espera da contação de estória. Assim como Clarice Lispector, entender, pegar a linguagem de Lygia requer a releitura do texto. Os conflitos humanos são comuns, entretanto sob a "pena" da escritora toma dimensões impensáveis, as mais surpreendentes. Talvez pela disfarçada sondagem psicológica de algumas personagens, que por vezes são apresentadas em forma de obsessão, como no conto A janela, texto onde uma personagem, inserida num quarto fita a janela e, num tom  obscuro, rememora um passado onde avistava-se uma roseira daquela janela. Insere-se ai, um quê de suspense, um homem "estranho" parecendo evocar um luto e sua interlocutora, a dona do quarto, a agir com naturalidade. Esse suspense é narrado com a maestria característica da autora que termina o conto de modo coerente com o restante da narrativa, aliás, esta é só uma das opções de terminar bem um conto. Também nos textos com finais em aberto, por exemplo, o conto que nomeia a coletânea, o resultado é mais instigante ainda, meio que cinematográfico, pois imediatamente ao terminar a leitura do conto, visualizei (involuntariamente) as lantejoulas rolando pela escada. Que poder literário tem Lygia!
Bem, já que falei do conto, Antes do Baile Verde, acrescentando mais sobre o mesmo, ressalto que foi um dos textos premiados da autora. Basicamente, temos uma patroa com sua empregada envoltas com os preparativos da fantasia que Tatisa, a patroa, usará no baile verde de carnaval. Aliás, a patroa é uma moça mimada, fútil, o que se percebe no fato de ficar a toda hora acelerando Lu, sua empregada, para que termine com a fantasia. O pior, é que no quarto ao lado está o pai de Tatisa agonizando. Motivo que eleva a tensão no (do) conto a proporções insanas. Tatisa não quer perder o baile por nada, tenta convencer sua empregada a passar a noite com o pai, mas até onde vai seu direito de patroa? E o amor filial? Não teria, sua empregada, o mesmo direito de ir ao baile? Há horas em que Tatisa expõe sua arrogância, dirigindo-se à empregada: "Ih, como é difícil conversar com gente ignorante." Em suma, o conto abarca questões tanto sociais quanto psicológicas, tendo em vista o ethos das personagens, a patroa soberba e a empregada vulgar, esta que bebia cerveja e tinha um namorado de nome Raimundo.
Seria tarefa difícil escolher quais os melhores contos de Antes do Baile Verde, todo texto de Lygia exerce tamanho fascínio, ou seja, sua criatividade emana da entrelinha, da aparente banalidade descrita que descamba para um segredo maior, em alguns casos para enredos fatais, sombrios como por exemplo, "Venha Ver o Pôr do Sol, conto no qual evoca um Edgar Allan Poe sem igual. Outros textos abarcam o alento, ao qual a maioria dos indivíduos se agarram para prosseguir ante os infortúnios e as incertezas, como em Natal na Barca, texto pungente também, e inquietante. Não é a toa que Lygia figura ao lado de Clarice, Hilda Hilst, dentre outras grandes escritoras brasileiras.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Impressões sobre Gigantes- Cinco amigos. Uma história.

Gigantes: obra lançada em 2015
A frequente curiosidade para conferir o que acontece no cenário da literatura contemporânea brasileira levou-me á leitura de Gigantes - cinco amigos, uma história, da autoria de Pedro Henrique Neschling. Uma boa novidade, considerando meu desconhecimento da investida de Pedro nesse viés artístico. Trata-se de uma narrativa fluida, de estilo simples uma vez que assumindo as perspectivas das personagens, deflagrando os vários acontecimentos, os objetivos e ilusões que se passam por volta de uma década, sua linguagem é calcada tendo em vista cada uma das cinco personagens principais.
O título, Gigantes, é uma alusão ao sonho de todo indivíduo que idealiza, busca a realização de seus grandes objetivos, o que é comum no término da vida escolar, onde temos que decidir que faculdade fazer, em que investir, o que fazer a partir de então? São cinco amigos de escola que, após a festa de formatura, dispersam-se, seja por questões de ideais diferentes ou por motivo de deslizes, como a separação do casal Fernando e Duda, o que nos é conhecido logo no início do romance, quando Lipe, fiel amigo de Duda, delata a traição de Fernando, este, um aspirante a uma brilhante carreira no cinema. Doravante, é quando se concentra em Fernando, personagem culto, com seu cacoete coçando o braço, que a narrativa denota força e não sucumbe ao melodrama comum. Apesar de personagens descontraídos, como Zidane; românticos e certinhos, como Duda e o amigo Lipe, é em Fernando com sua percepção apurada da realidade, seu gosto pela arte, que observamos a inquietação do indivíduo do nosso conturbado tempo. Outro aspecto positivo, de quando a narrativa concentra-se em Fernando, é que é através desse personagem que vemos o "glamour" do mundo das celebridades cair por terra, ou melhor, tudo se mostra fútil, superficial, caem as máscaras, Fernando incomoda-se pelo fato de algumas celebridades cumprimentarem apenas com um "oi", como se todos tivessem a obrigação de conhecer-lhes. Aliás, adentrando e convivendo com o meio artístico, depara-se com disparates como a pretensão de alguns atores que deturpam uma obra canônica, além de não primarem pela arte, mas pelo lucro.
       Outra personagem interessante de Gigantes, é Camila, o pivô da separação do casal Duda e Fernando.
 Camila é a fome de viver, o destemor, mesmo que por vezes beire a inconsequência. Nem boa, nem má, perfeitinha? jamais. Camila não deixa passar oportunidades, mas sabe até onde ir com suas atitudes. Cruzando oceanos, experimentando sabores, cheiros diversos, Camila foi até Portugal, um lugar "gira" na expressão da terrinha e lá despertou para outros desejos que até então não tinha experimentado, lá conhece uma paixão pra lá de tórrida. Além do fato da narrativa trabalhar as questões linguísticas, ou seja, lança mão, em algumas passagens, do português falado em Portugal e dá-lhe ênclises, como nas declarações, "amo-te, miúda". Claro que nem tudo são flores nos caminhos de Camila, fortes acontecimentos durante sua morada em Portugal, exigirão muita determinação de sua parte. E mais uma vez ela trará á tona sua fortaleza.
Gigantes, consiste numa narrativa ágil, as peripécias são alternadas, de modo que são deflagradas acontecimentos relevantes na vida dos cinco personagens, mesmo que ambos pouco se cruzem depois da formatura. Outro ponto assertivo da narrativa de pedro Henrique Neschling, são os finais dos capítulos, sempre apontando para uma resolução do impasse contado. Doravante, nas vivências de Lipe, que aguenta chiliques de seu chefe e seu "sutil" bordão, é chegada a hora em que o belo e recatado mocinho ( do lar?) manda um, mesmo em pensamento, "meu cú", após uma insólita situação. O aspecto estético, referente ao término do capítulo, sugere que Neschling domina, também, a escrita do conto. Gigantes, é uma narrativa envolvente. o recorte de drama das personagens, as pitadas de leveza, sarcasmo denotam a construção de uma prosa segura e que chegou no cenário literário no momento certo.

sábado, 28 de maio de 2016

Rainha

Elza Soares: cantando até o fim
Criei uma certa expectativa para esse show, tinha ouvido e gostado do álbum que a artista estava divulgando shows a fora. Isso sem contar o quão aclamado fora em seu lançamento, algo como uma obra que já nasce clássica, sem mais delongas, falo de "A mulher do fim do mundo", da Elza Soares. Em pensar que anos atrás desperdicei o convite para vê-la cantar... foi preciso um álbum "porrada" para Elza entrar em minha vida.
O show era gratuito, óbvio que um proletário f****** feito eu, só vou mesmo nessas condições, sem reclamar por ficar em pé mais de uma hora na fila para pegar o ingresso. Fico sim, lindíssimo! Sim, as companhias para o show eram as melhores. Foram dois casais e eu de abajur, apagado, mas eles possuem bom senso na medida certa para considerar minha dispensável presença, pois sou mesmo anti-social, demonstro zero de simpatia e envolvimento. Talvez por não dispor das sensações que todos tem, em suma, apático.Outrora, um primo sentenciou: "tú não és uma pessoa divertida." Bem, houve algo com que  não contava: logo ao chegarmos ao local do show, a banda estava fazendo a passagem de som, em questão de minutos adentra a caminho do palco a cantora numa cadeira de rodas, eu que até então estava fora de órbita, senti um abatimento, calafrio, enfim... indagava o quão sofrível que seriam as viagens, o trabalho de cantar por horas, para quê? Invadiu-me a Ana do conto "Amor", da Clarice Lispector, que teve um abalo em sua rotina ao se deparar com um cego mascando chiclete. Pois, teria-me esquecido que existiam cadeirantes? Fiquei ofegante... precisava ela provar pela milionésima vez seu talento? Sabia vagamente que Ela tinha um insano histórico de superação, mas nessas circunstâncias, ter de cantar sentada... imaginei um tormento gigante, eu não sabia que era Ela "A mulher do fim do mundo". E era, segundo os idealizadores desse projeto. 
Abre-se a porta para o público receber o show. Fãs mais fervorosos fincam-se ao pé do palco, meus amigos acomodam-se a um canto mais reservado, atentando para meu desprovimento de altura, eu disse, "sem problemas" (não tem mesmo) e começa o anseio para a Diva entrar com o conceitual e denso "A mulher do fim do mundo". Aplausos eufóricos, arrepiei-me todo e não foi de piedade, ao contrário, aquela que vi passar de cadeira de rodas e depois levada por duas pessoas ao palco, que me transmitiu um penar intolerável, agora emergiu noutra cadeira, a do palco. Não uma simples cadeira, era seu trono. Sim, pois o visual imponente com cabeleira roxa armada, maquiagem forte como sua própria expressão, um longo que arrastava-se pelo chão... e a voz, que de longínquas décadas pouco desgastou-se, fez-na assumir seu posto de Rainha. Não uma rainha de um reino com mínimos problemas, mas a rainha que canta o caos, as últimas consequências. "A mulher do fim do mundo" canta com um potente grave o que a natureza humana é capaz de fazer no mundo. Dai a violência contra a mulher, de Maria da vila Matilde; a destruição, na apocalíptica Luz vermelha; a questão de gênero é tematizada em Benedita. São faixas que passeiam pelo rock, samba, pitadas de tango, eletrônico e afins. Tudo fruto da empreitada de músicos paulistas com a cantora carioca, que é, até onde suas forças permitir, "A mulher do fim do mundo". 
O show foi insano, amigos e eu inebriados conduzidos pela banda e pela Rainha que entre uma música e outra pedia" barulho" e mandava beijinhos. E atenta ao frágil momento político pelo qual passa o país, não titubeou e alertou assertivamente a plateia, além de dar rápidas explicações sobre algumas faixas desse excelente trabalho que é "A mulher do fim do mundo." Na faixa homônima, Elza pede que a deixem cantar até o fim. Ainda bem.