segunda-feira, 23 de junho de 2014

William Wilson: O Jogo Duplo de Poe

Poe: um conto desafiador 
         Em mais um conto de mistério, Edgar Allan Poe apresenta uma narrativa instigante, onde o leitor acompanha de modo linear, uma série de situações rememoradas pelo narrador-personagem, com o propósito de explicar as várias atitudes errantes que este cometera ao longo de sua vida. Cada fato narrado, cada indagação e também a epígrafe que antecede o conto são imprescindíveis para a dissolução desse suspense que Poe, com a maestria que lhe é peculiar, nos instiga.
        Logo no início, o narrador-personagem põe em questão o seu nome, para ele é uma vergonha o que seu nome se tornou, em decorrência de suas atitudes imprudentes para com os outros. Apresenta-se como William Wilson, dando início a uma duplicidade no nome e que posteriormente, resvala como uma suposta duplicidade do seu ser. Willian Wilson se autodefine sensível e facilmente excitável porque é “filho de uma raça de temperamento imaginativo”. Desde criança ele percebe sua tendência para o mal, começando a exercer seu gênio difícil e que nem mesmo seus pais, fazem-lhe oposição. Descrevendo detalhadamente o ambiente escolar de sua infância, onde  já exercia uma certa liderança entre os colegas. Wilson indaga-se, pelo fato de que o mesmo rígido diretor Dr. Bransby, era o mesmo ameno pastor da igreja. Temos aí uma pista, pois o mistério que Poe criou tematiza, principalmente, as dualidades do ser humano. O eterno combate da natureza do indivíduo. As dicotomias sensatez versus insensatez. Poderia uma pessoa cometer as piores injustiças e sua consciência continuar tranquila? Quem é nosso principal inimigo?
        O narrador-personagem relembra a vida escolar, em que tudo vai bem, o convívio com os colegas até a chegada de um indivíduo de estatura, trajes e trejeitos semelhantes aos seus. Este indivíduo opõe-se as suas atitudes dominadoras, dando-lhe conselhos e competindo em tudo com Wilson. Posteriormente, Wilson descobre que seu rival possui o mesmo nome que ele, além de ter nascido no mesmo dia. A frequente interferência do seu xará em tudo provoca-lhe uma série de sentimentos contraditórios, uma vez que ambos conhecem tudo um do outro, os pontos altos e baixos. Wilson ainda relata seu espanto com tamanha similaridade sem haver o menor grau de parentesco nas suas famílias. Também menciona em tom assombroso, que seu xará possui como único diferencial, uma voz baixa que sussurra-lhe: William Wilson. Além de que, segundo Wilson, somente ele percebia as atitudes de seu inseparável homônimo. Que ser conhece a fundo outro semelhante, a ponto de sofrer tamanha perseguição?  Numa tentativa de conhecer a verdadeira feição de seu “perseguidor”, Wilson resolve numa noite, olhar-o dormindo, mas as feições deste pareceram-lhe mais estranhas do que os supunha. Eis aí mais um ponto fantástico nessa narrativa poeana e somente o narrador-personagem, juntamente ao leitor desafiado, corroboram  na criação e dissolução deste.
        Passado algum tempo e já em outra escola, Wilson entrega-se a uma série de desregramentos, e quando pensa ter se livrado do “outro” William Wilson, eis que este aparece quando ele  está promovendo uma bebedeira com seus piores colegas, e sussurra-lhe: William Wilson, deixando-o em choque e sóbrio. Aumentam-lhe as inquietações: Quem ele é? De onde veio? Passado este acontecimento, Wilson continua a promover bebedeiras, jogatinas e imprudências. Sabendo da chegada de um jovem rico, mas de pouca inteligência, prepara-se para arrancar dinheiro no jogo de cartas. Arma então um esquema, seduz o jovem rico e começa a trapacear. Quando percebe que o jovem perdera tudo e também o olhar de reprovação dos outros colegas, começa a sentir o peso da angústia. Eis então que alguém chega ao local e relata a todos, os truques ilegais de Wilson. Esse delator, segundo Wilson, era um velho conhecido seu e  também do leitor , que lhe provoca um pavor imenso e  sempre sabe todos os seus atos. E após ser expulso desse recinto, Wilson tenta a vida em várias cidades da Europa, mas em qualquer lugar do mundo que este vá, são encontradas advertências ao nome William Wilson.

        Numa última imprudência, Wilson vai a um baile de máscaras e prepara-se pra flertar com uma formosa mulher comprometida mas, é interrompido por alguém que bate-lhe no ombro e sussurra-lhe, como outrora ao ouvido. Movido por uma imensa cólera, arrasta-o para longe da festa e trava uma luta com o “outro” William Wilson, ferindo-o com sua espada. Sentindo um horror profundo, ver surgir um espelho e a face de seu “algoz” é revelada: “ E tudo nele, da roupa até as feições do seu rosto, era eu. A mais absoluta identidade. Era o próprio eu.” A frase final, revela o engendrado mistério, que se o leitor for experiente em assuntos poeanos, certamente já sabia: nunca houve outro William Wilson, era tudo projeção da mente fantasiosa do narrador-personagem. O único responsável pelo mistério da estória que era a própria criação de um duplo que interagia somente com o próprio. Era a própria consciência de Wilson, que tentava lhe mostrar o caminho correto, toda vez que uma atitude errônea ia ser cometida. Wilson, simboliza com esse duplo, o antagonismo que todo ser humano conhece e possui em si: o bem e o mal de cada um. E não há como fugir de sí mesmo. Digo, da própria consciência. 

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Morte e Vida de Uma Felina

Pitty: entre dramas pessoais e crítica social
        A presença feminina mais significativa do rock nacional está de volta. Após dedicar-se ao projeto paralelo Agridoce, Pitty reaparece mais roqueira do que nunca e coloca no mercado seu mais novo trabalho, intitulado Setevidas. Esqueça os refrões pegajosos de músicas como Máscara, Memórias ou Me Adora, ao que parece a única música nova aspirante a hit é   Setevidas, primeiro single do álbum homônimo. Essa faixa, serve também como síntese desse trabalho, que tematiza  principalmente a superação, o ressurgimento, a insistência ou mesmo a eterna busca por um sentido de existir, em meio a tantas formas de preencher cada segundo de nossas vidas, nós reles mortais. Nessa nova empreitada, a cantora finca o pé no rock pesado, mas lança mão de novos elementos como um piano, coro de vozes e até instrumentos como agogô e caxixi, até então novidades ao som de Pitty e sua banda.
        Se rock é sinônimo de atitude, com Pitty não é diferente, suas músicas são cheias de críticas sociais, na faixa Boca Aberta a cantora dispara: Êta alma buraco sem fundo/ Que se vive tentando preencher/ Com deuses com terapia/ Cartão de crédito academia/ Um trago, carros velozes..., e como atesta no decorrer da letra, quanto mais se deixa consumir, mais se é consumido por uma iminente frustração: Amanhã acordo resmungo/ Eu quero minha vida de volta. Essa simplicidade de cantar a explícita “experiência humana de nossos dias” ganha reforço e contornos metafóricos em A massa, a mesma massa refém do consumismo desenfreado, alheia a uma contemplação, ou ainda a um contentamento da própria existência  em si. A massa, cantada por Pitty, é modelada e nem se dá conta que quem os molda é quem sai ganhando mais e mais: “a massa é feita pra saciar a fome dos que a sabem modelar”. Mais uma faixa análoga à situação da população brasileira, que de uma forma ou de outra, sucumbe ao sistema político vigente, obedecendo a falsas ideologias. Um exemplo disso é o próprio termo “popular”. Explico: o indivíduo de classe baixa, adquire à duras penas, com muito suor, pagando por cinco, seis anos um carro popular. Entendo o Criolo: que “popular” é esse? Pitty com ironia e primazia reafirma essa situação pela qual “a massa” alienada passa.

       Além da verve crítica, Pitty também embala dramas pessoais em Setevidas, Lado de Lá, por exemplo, refere-se a morte de um antigo membro de sua banda: Peú Souza. É nessa faixa que aparece um eficiente uso do piano e o coro de vozes entoando “guarde pra mim um bom lugar” e dá-lhe rock psicodélico. A faixa que fecha o álbum, Serpente, adere aos instrumentos de percussão que citei no início: agogô e caxixi. Tem um coro também que evoca “The perfect Life” do Moby. Encaixaria muito bem ao projeto Agridoce. Seria sobra de estúdio? Especulações à parte, o fato é que a faixa finaliza, com a calma almejada, o percurso que Setevidas tematiza: o ressurgimento, a volta por cima, ou nas palavras de Pitty: sua postura combativa. Pitty pode não agradar aos fãs que esperavam as músicas grudentas de outrora, porém ganha os aplausos daqueles que apreciam um som autoral, sem pretensões de cair no gosto dos fãs ou críticos especializados.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Brizado

  Fico pálido de espanto e demência : é paixão!

        O percurso até meu emprego não é longo. Se não tem trãnsito, leva uma meia hora. Quase sempre tomo a mesma linha de ônibus. Quando não tá muito cheio, procuro um bom encosto e leio um bom livro. Também não abro mão da cara fechada. É de praxe, detesto a mediocridade da vida dos outros. Fútil cotidiano de bosta. As conversas dos manos me dá náuseas; a das moças da periferia contando causos, também. Não é recalque. Sei muito bem o que não quero. Mas, vez em quando algo surpreende nessas conduções da vida. Algo que desencadeia uma infinidade de pensamentos. Que logo ganham expressões  tomando  o lugar da máscara que coloquei.

        Sim, haja pensamento e falta atitude. Em algumas vezes, percebi o olhar de um jovem de cara fechada igual a mim. Eis que começou: será que ele tá olhando pra mim? Olho disfarçadamente (tento) seus trajes: camiseta apertada com estampas de flores... uhunnn e com cara de marrento. Ou seria timidez? Algumas vezes, ele entra no ônibus, que tem outros espaços, mas ele acha de ficar próximo a mim. É foda meu! Ele é bem mais jovem que eu; nunca cheguei em ninguém; com a sutileza? nunca me dei bem, ou é 8 ou 80... tenho um péssimo carma pra flertes. Não pago por uma decepção. Se é, tem que ser pra valer. Mas esse menino... evoquei até Maria Bethânia, enloqueci, passei a fabular... "ah esse cara tem me consumido, a mim e a tudo que eu quis, com seus olhinhos infantis". E as idas e vindas ao trampo, outrora entregue a Literatura e ao desprezo ao "rodo cotidiano", seguiam na esperança de tomar o mesmo ônibus que Ele. 
       Será que essa cara de bravox tem sintonia com minha "persona"? Outro dia, ele entrou com outro cara, parecia colega do trampo, ficaram próximo a mim, que estava lendo o livro dos prazeres. Mas que ler que nada, quando se pode ouvir a conversa deles! Falavam de coisas triviais como baixar músicas, da exploração dos fiéis cristãos, pois passamos em frente a um  grande templo erguido. Era o templo da Igreja Universal dos Rios de Dinheiro. Deus é muito capitalista e deve querer bastante empreendimentos. Tudinho em nome da fé. Fé em quê? Em obter mais dinheiro, lógico! Assim como eu, eles diziam professar sua fé fora dos templos. Enfim, ele não disse nada que  desse alento aos meus devaneios. Porém, só de perceber pelo sotaque que ele também era nordestino, minhas divagações aumentaram: então devemos ter muito em comum... ele também deve ter tomado banho de rio, comido pitomba, pirunga, ata, araçá, carnaúba, cajús azedinhos (delícia) e mais um monte de frutas do vasto Nordeste que não sai de mim. Nos aproximaríamos e nossas conversas versariam sobre carne pizada no pilão; ou o bolo de goma; ou o de puba; ou do balido das ovelhas; o mugido das vacas e seus chocalhos; nossas motos, todo nordestino que se preze tem que andar de moto. E vejo-o saltar do ônibus com o devaneio nas mãos. "É falta"! Dirão as pessoas realistas e mais familiarizadas com a vida terrena. Também vi no visor do celular dele,  que ele gosta de imagens espaciais, assim como eu, que transito em órbitas distantes. Entretanto só me resta encarar a realidade e quedar-se em Bilac. É a minha vida: "Ora direis ouvir estrelas". O senso, só tive e tenho o do ridículo. Mas enquanto se vive, se sonha e já diz a sabedoria popular, que tanto desprezo, que a esperança é a última que morre. Se bem que já morri. 

domingo, 25 de maio de 2014

O baú de boas sonoridades

A diva segue pedindo consciência.
        Em Segue o Som, sexto disco de estúdio de Vanessa da Mata, tem-se a consolidação de uma das maiores vozes femininas da atual MPB. O álbum apresenta uma Vanessa aberta a sonoridades diversas, passando do reggae ao axé, do pop ao samba. Levando em conta o ditado: Em time que está ganhando não se mexe. A mato-grossense contou novamente com a produção de Liminha e Kassin, entre outros, e o resultado surpreende exatamente pelo leque maior de musicalidade impresso.
        Sim, o baú musical de Vanessa tem muito a encantar em Segue o Som. A primeira parte do álbum é onde a cantora demonstra uma objetividade a flor da pele. Os temas da valorização da mulher, do consumismo exagerado dos nossos dias, do descontentamento com as relações superficiais em detrimento dos sentimentos verdadeiros, etc. Estão todos aí. Devido a isso, alguns críticos e fãs não viram surpresa nenhuma nesse trabalho. Imediatamente, tacharam de "mais do mesmo" e blá blá ... Ledo engano. O artista verdadeiro é aquele que é fiel a seus temas, que segue sua intuição. No caso, Vanessa deu nova roupagem aos temas, ou melhor variou nos arranjos: o consumismo exagerado, outrora cantado em tom de deboche no delicioso baião "Bolsa de Grife", agora aparece na contundente " Homem Invisível no Mundo Invisível", faixa embalada por um reggae de primeira. Aliás esse elemento está presente também,  nas faixas "Segue o Som" e "Toda Humanidade Nasceu de Uma Mulher". Seria esta última uma resposta tardia a Caetano Veloso que "não tem inveja da maternidade, nem da lactação"? O que na verdade, é que trata-se de um dos acertos do álbum. Ideal na abertura de um show. Nas últimas faixas do álbum, as canções soam desprentenciosas, embora mantenham um embalo envolvente. Do samba de "Rebola Nêga" a sincopada "Desejos e Medos". Sendo descartável, somente o remix de Segue o Som, a última faixa do álbum.
        Outra novidade nessa empreitada musical de Vanessa, é a aderência à lingua inglesa, há uma letra de Vanessa: My Grandmother Told Me e um cover de Sunshine On My Shouders, este, é a cara das FM,s adulto- contemporãneas. Sei... acho que essa convincente cantoria em inglês tem nome... Especulações à parte, o fato é que "Segue o Som" acrescenta e muito no caldeirão musical brasileiro e na própria carreira de Vanessa da Mata. Tanto pelo apelo reflexivo das letras: "Segue o som e pense um pouco no que está fazendo/ Relaxe seu semblante e pense no que está se metendo", quanto pelo swingue que não deixa nada a dever pra cantoras "Tira o pé do chão". É só ouvir "Por Onde Ando Tenho Você" e "Se o Presente Não Tem Você" pra comprovar isso. Se a música brasileira carece de uma representação feminina abrangente, Vanessa da Mata é o nome certo.

domingo, 27 de abril de 2014

Jóias da MPB

        O atual cenário musical brasileiro parece desolador? Parece apenas. Não se pode julgar que não há nada de criativo conhecendo apenas os "bolas da vez" que a mídia televisiva expõe. A TV não é o único meio de se conhecer artistas relevantes. Esse é, sem dúvida o mais limitado. Apresenta somente uma parte que, pretenciosamente, quer julgar-se o todo. Todos que têm acesso à informação sabem que há bem mais que isso. Jornais, internet e revistas constituem ainda, meios bem mais democráticos de transmitirem cultura abrangente a todos os públicos. Diga-se, um público exigente. Que procure qualidade e não auto promoção, ostentação, ou mais definidamente: chateação.
         Outro dia ouvi o comentário descontente de uma colega, acerca do "sucesso" Beijinho no ombro: - Isso é Brasil. Mesmo que ela, não leia esse meu desabafo, espero que ela mude seu conceito sobre a música brasileira. Citarei alguns artistas que se propõem e fazem realmente música boa. Não estou falando dos medalhões Chico Buarque, Gal Costa, Marisa Monte, Ney... entre tantos, falo de uma moçada que certamente se inspiram nestes para apresentarem bons trabalhos. Segue abaixo:
Marcelo Jeneci: feito pra emocionar.
. Marcelo Jeneci. O paulistano, é um músico completo, além de cantar e compor muitas de suas canções, ainda é multi-instrumentista. Suas letras soam desprentenciosas e versam sobre temas amorosos, tal qual um Roberto Carlos da nova geração, no que tange o romantismo sem apelos.  Esbanjam poesia pura e vão na contramão da tão famigerada ostentação. Para Jeneci, o melhor da vida vem de graça. O talento do moço está mais que provado no segundo álbum intitulado "De graça". Pra fortalecer os vocais, algumas faixas contam com a voz doce de Laura Levieri. Top 6 Jeneci: O Melhor da Vida; A Vida é Bélica; Tudo Bem, Tanto Faz; Felicidade; Quarto de Dormir; Feito pra Acabar.
Vanessa da Mata: alegria contagiante.
.Vanessa da Mata. A mato grossense é até bem conhecida. Está há algum tempo na estrada, várias músicas suas tocavam em novelas globais (ai ai ai ai ai ai...), seu cabelo é naturalmente lindo. Mas ela, tem lá seus detratores,chamaram-na de Gralha! Imaginem com essa voz de veludo tão linda. Talento ela tem de sobra. Vanessa é incansável. Além de fazer seus trabalhos autorais, já fez
shows em homenagem a medalhões da MPB como Luiz Gonzaga e Tom Jobim.Nem precisa dizer, que ambos os shows foram um sucesso. 
O estilo propriamente de Vanessa, pode ser definido como uma música que embala desde temas como o amor, como lembranças da infãncia, algum sarcasmo com a sociedade, enfim coisas relevantes transformadas em arte. Top 6: As Palavras; Vermelho; Te Amo; Viagem; Amado; Boa Sorte/Good luck.
Roberta "Diva" Sá
.Roberta Sá. A intérprete potiguar é mais conhecida no Rio de Janeiro. Surgiu no extinto Fama, não foi a vencedora, mas consegui emplacar e obter um público fiel. Já fez várias parcerias de peso como na melancólica "Peito Vazio" de Cartola, com Ney Matogrosso, entre outras como o trabalho com o  Trio Madeira Brasil onde explora a musicalidade afro-baiana no álbum Quando o Canto é Reza, um álbum inspirado na obra do compositor baiano Roque Ferreira. A voz doce e afinada de Roberta evoca tanto um samba das antigas, quanto uma cadência mais alternativa, sem deixar de flertar com o samba. Vale ressaltar que os outros trabalhos de Roberta já atestam sua capacidade de emocionar através de sua entrega à boa música.
Top 6: Mais Alguém; Você não Poderia Surgir Agora; Samba de Um Minuto; Pavilhão de Espelhos; Cicatrizes; No Braseiro.  

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A fossa nova

You, you don’t kiss when you kiss,
You don’t f*ck when you f*ck
You don’t say what you mean, you don’t talk not enough
No possible, impossible patience
Impossible
(Fiona Apple)

       Ao assistir ao aguardado Ninfomaníaca vols. I e II, de Lars Von Trier, fiquei levemente perturbado com duas frases que aparecem no filme. Vou abster-me de explanar se essa obra é bem feita ou não. Tampouco discorrerei sobre o roteiro, esse, não só os cinéfilos devem saber: Ninfomaníaca, teve uma grande campanha publicitária, um dos thrailers foi exibido até, por um descuido, (será?) numa sessão infantil nos EUA. Sem falar nos cartazes super ousados, com o elenco em situações orgásticas. Ninfomaníaca, não é nem de longe a obra-prima do fodaço Lars Von Trier. Entretanto, vale a pena assistir.
        Bem, a primeira frase que fiquei martelando dias e noites foi: " O ingrediente secreto do sexo é o amor." Excluindo o contexto da narrativa cinematográfica e partindo para a minha concepção, do meu viver, essa frase soa-me arrebatadora. Faz-me refletir até onde se deve separar amor e sexo. Não sou nenhum expert em nenhum dos dois. Vida amorosa e sexual que é um fracasso total. E penso seriamente (herança religiosa?) que sexo tem de ser o complemento do amor sim. Pois, o que é um gozo, comparado a estima e espera de um ser amado? Estou sendo romântico e piegas demais? Quem encontrou sua cara metade e goza de uma vida sexual ativa ganhou na loto. Evocando a canção de Rita Lee: " Sexo vem dos outros e vai embora, amor vem de nós e demora." Esse modo de viver, querendo sempre mais e mais das coisas não é fácil. Suporta-se na medida do possível. Vez em quando, alguém indaga: - Você está sempre sozinho. E nem é tão feio... você escolhe muito... - Pois se quase não tenho tempo... dali mil desculpas. Fazer o que, se não me é facil contentar com minutos de prazer que não serão mais que minutos- passados- de- prazer. E no dia seguinte baterá até um certo asco e a indagação: -Mas então é só isso?
        A segunda frase é: " Meu pecado é que eu sempre exigi mais do pôr do sol." Essa, foi dita pela protagonista do filme. E, encantou-me de imediato. Sim, também eu exigi muito que o por do sol trouxesse noites de luar inebriantes! E que a solidão fosse uma vaga lembrança. E que não houvesse tanto barulho das motos dos entregadores de pizza.  Nem de arruaceiros voltando das baladas. Não, não..., é periclitante estar assim à beira dos acontecimentos alheios. Assistindo ao tempo escorrer como fios invisíveis porém, ultra-sensíveis até o último átomo de segundo. E assim como a maioria das pessoas, o clichê dos trópicos é gostar de dormir ao som de pingos de chuva. De conchinha não gosto não. Tudo tem limite até mesmo romantismo. Só espero que o preço que pagarei por esse "pecado" não seja tão caro. Que as noite sejam frescas, aconchegantes. E, antes seguras, que entregues a momentos que nada edificarão.Nada acrescentarão a um viver metódico. Mas, as vezes bate um receio de não arriscar, não arriscar e de repente chegar-se, na velhice! E que mico que é ficar pagando de boyzinho na balada e carregar uns cinquentão nas costas! Ainda bem que estou muito bem casado! Com os livros e devaneios acerca de nada e um pouco menos.
       

terça-feira, 8 de abril de 2014

Ostentação e desumanidade

Odeeeeeeeeeeeeeeeeeio.
         Vejo num site de notícias que um adolescente foi espancado até a morte. Entristece-me constatar o quão violenta é a juventude brasileira. O que acontece? Onde está o problema? Nos pais? Na escola? Ou seria esta uma refém da guerra friamente declarada nas periferias das metrópoles? É lamentável saber o quão cruel é o ser humano. O quão mesquinho é o estado de defensiva  que  maioria das pessoas carrega e expõe num faiscar de ameaça. Muitos educadores consideram a missão de ensinar falida, em virtude do aumento do desrespeito no ambiente escolar. Alguns pais, dizem desconhecer qualquer ato de vandalismo por parte dos filhos, deixando os professores a mercê das vilanias de alunos delinquentes. 
         O adolescente em questão foi assassinado em um baile funk. Lugar este, onde tudo conspira para coisas nada edificantes. Ao contrário, geralmente são nesses recintos em que se "bater de frente é só tiro, porrada e bomba". Vale lembrar que foram um grupo de funkeiros que depredaram um hipermercado na Zona leste de São Paulo. A cultura do " quem manda é nóis" recebe um grande aval desse tipo de música. Esta, resume-se a uma batida repetitiva com algum sampler de qualquer hit do momento. E as letras versam na sua maioria, há cultura de um almejado estilo de vida, no qual seus adeptos nem de longe conseguem dispor, sem ser através de meios ilícitos. Na verdade, é uma "música" que coisifica o ser humano, usando a máscara da "ostentação". Obviamente, brigas não acontecem somente nos bailes funks, entretanto, mediante a notoriedade desses eventos, fez recair na sociedade o comportatamente preocupante de nossos jovens. Faltam bons exemplos? Sim. As pessoas parecem ter esquecido a palavra PAZ. A todo momento elas pronunciam o nome de Deus, e sequer assimilam o grande ensinamento que Este deixou. Ao contrário, usam-no pra atacar, uma vez que a cultura da violência tá tão impregnada que fazem-no, "de escudo". Está aí a explicação para o "sucesso" da música de Valexxxca Popozuda. Sim, a maioria dos Novinhas, querem ser as Tops! Quem olhar torto é pra ralar fora porque deve tá é com inveja. Estas Novinhas querem pegar vários meninos. Estes, tem que tá no estilo. Só na ostentação. A lei geral é: tem que ser o Pica-das-galáxias. Pegar geral. Tratam-se, como se fossem descartáveis. Num baile o importante é beijar o maior número que conseguirem. E ainda por cima se dizem tementes a Deus. Qual Deus?                                     
          -Pais, como vocês desperdiçaram o legado deixado pelos antepassados? Cadê a severidade na hora de dialogar com os filhos? Os tempos são outros? Sim, entretanto, a mesma capacidade que um filho tem de aprender a ofender, ele tem pra evitar desordem. Paz, começa na mente. Mentalize, fale e aja. Coisas edificantes, não destrutivas. É isso que esses jovens precisam vivenciar. Quanto mais cedo a criança conhecer a noção de respeito ao próximo e os princípios de benevolência, mais cedo ela se tornará resistente aos caminhos que prejudicam o bem está do próximo. A escola, não deve desacreditar jamais no seu poder de formar cidadãos civilizados. Quantos professores não gostam de serem reconhecidos pelo seu trabalho? A maioria se sente em êxtase, quando reencontra um ex-aluno que foi auxiliado a conhecer os bons caminhos da vida, através de suas aulas. Entretanto, o aluno deve trazer de casa a noção de humanidade. Esta engloba paz e respeito a vida de todos.