quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

A gente mora no agora, de Paulo Miklos

A gente mora no agora- 2017
   Um dos trabalhos musicais mais surpreendentes do ano passado é o álbum “A gente mora no agora” do ex-integrante do Titãs, Paulo Miklos, trata-se de um verdadeiro alento num cenário musical onde acaba predominando fenômenos do sertanejo (sofrência), funk, sertanejo-universitário entre outros estilos que pouco agregam à memória musical da famigerada MPB. É fato que Paulo Miklos possui vasta experiência na música, todavia o fato dele trabalhar um álbum e trazer bons resultados como é o caso desse incensado A gente mora no agora é de grande relevância em tempos em que os haters blasfemam contra Anita, Pablo Vittar, os milhares de MC,s sem sequer pesquisar sobre a democrática cena musical, resumindo: creem que a MPB está restrita a estes fenômenos e que a glória musical ficou num distante passado, ignoram que nomes como Gal Costa vai muito bem, obrigada, com seu deslumbrante DVD estratosférica ao vivo, por exemplo.
   O trunfo de A gente mora no agora é a sua pluralidade, que por sua vez está atrelada às parcerias que vão de compositores oitentistas às últimas revelações, ou seja, todas as faixas foram compostas em parcerias com músicos que vão de Guilherme Arantes a Tim Bernardes, de Arnaldo Antunes a Silva, além de cantoras da atual safra como a musa original Céu, a jovem Mallu Magalhães e  a rapper Lurdez da Luz. Esse projeto de Miklos rendeu bons frutos, sua parceria com Nando Reis, a música “Vou te encontrar” entrou direto na trilha sonora da novela O outro lado do paraíso, trama que está dando o que falar, como toda novela global das 21 horas, repletas de clichês, mas isso é outra ideia... O fato é que a canção é deveras radiofônica, é uma composição intimista, triste, mas cheia de esperança, o oposto de “País elétrico”, feita em parceria com Erasmo Carlos e que denota um teor irônico, satírico e até corrosivo por tratar-se de uma constatação real de que no Brasil caem muitos raios, perante isso o refrão entoa:
Raio que parta
O mentiroso
Arrogante e vaidoso
Sociopata
Rei da mentira
Um projeto de bufão
Um bosta sem noção
Um nefasto cidadão
   
   Ao cantarmos esse refrão  imediatamente nos vem à cabeça esses sujeitos que dizem administrar o país, mas só administram em causa própria, restando a nós, sofridos brasileiros,  engolir goela abaixo, segurando na dignidade pra não explodir. País elétrico é uma canção que nos remete ao grupo Titãs, pelo teor de crítica social tão característico à rebeldia questionadora do rock. Outra canção que vale destacar é a despretensiosa “Não posso mais”, composição de Mallu Magalhães que aqui reforça o mesmo embalo de sua colaboração para o Estratosférica, da cantora Gal Costa. Cabe lembrar que ambos os trabalhos, tanto o A gente mora no agora, quanto Estratosférica, possuem o mesmo conceito, celebram o momento presente, sem esquecer o passado, antes fazem uma ponte com o futuro: trazem artistas que tiveram seu apogeu e também artistas que podem ainda, quiçá, criar algo primoroso, já que estão aí, em plena atividade. É o momento em que se está vivendo que importa celebrar nesses dois álbuns, doravante muitos dos responsáveis pela realização de obras tão magníficas são profissionais como : Pupilo, Marcus Preto, Céu, entre outros, desse modo quem curtiu o álbum da Gal, certamente apreciará o LP ( o fascínio por vinil) do Paulo Miklos, um disco que não tem como não gostar à primeira ouvida. E mais: não dar vontade pular nenhuma faixa, pois cada uma nos conquista, seja pelo arranjo frenético - o frevo de "deixar de ser alguém"- ou pelo lirismo de "Princípio ativo" e "Eu vou". 


sábado, 27 de janeiro de 2018

A forma da água

Sally Hawkins em cena de A forma da água
   Sem dúvidas, o filme A forma da água é um dos melhores entre os que concorrem ao Oscar desse ano. Foi essa produção que trouxe de volta o prestígio de Guillermo Del Toro, anteriormente em baixa devido a produções fracas e esquecíveis como A colina escarlate. Em A forma da água, Del Toro apresenta elementos sempre presentes em sua filmografia, como o apreço por monstros, a exemplo de seu filme mais cultuado: O labirinto do fauno. No indicadíssimo ao Oscar, acusado de plágio e ousado por conter um certo erotismo “The shape of water” ou em  português mesmo, A forma da água, há uma criatura que podemos chamar de homem- peixe (?), que fora capturada pelos americanos na Amazônia, nessa história que se passa na época da Guerra fria, onde os Estados Unidos  e a Rússia viviam sob forte e bélica rivalidade.
   Em meio a tensão desse período, uma faxineira muda, interpretada por Sally Hawkins se sentirá  atraída pelo “monstro”, já que este também não fala e seria tido como uma aberração pela sociedade, sempre preocupada em dominar o mundo e a própria natureza, ou seja, desse modo para o “homem-peixe”, ninguém, exceto os profissionais que estudam essas espécies, poderia nutrir alguma simpatia por tal “monstro”.  Todavia, a curiosidade de Elisa, a faxineira vivida por uma inspirada Sally Hawkins, resvala para o mais puro dos sentimentos: o amor. Doravante ela lançará meios de interação (apenas com a linguagem de sinais) com o “monstro”, centro da disputa entre um sádico segurança americano, interpretado magistralmente por Michael Shannon e o cientista Bob – Dimitri interpretado por Michael Stuhlbarg, este também em boa atuação. No decorrer da narrativa, o espectador perceberá quem realmente é o monstro, ou seja, óbvio que menos uma espécie de homem- peixe que uma própria criatura ciente que fora feita “a imagem e semelhança do Criador”, como fala o prepotente e ameaçador personagem de Michael  Shannon às faxineiras Elisa e Zelda, personagem de Octavia Spencer, o típico personagem que Octavia costuma interpretar: falastrona, amigável e com um quê de comicidade, esta, é amiga de Elisa assim como o vizinho da mocinha: Giles, vivido por Richard Jenkins.

   Impressiona como nessa fábula, onde temos uma criatura desprovida do que é belo, ao mesmo tempo possua uma imensa beleza presente tanto na entrega da personagem de Sally, merecidamente indicada ao Oscar de melhor atriz, como na fotografia composta por tons de verde ou azul, bem como o fiel retrato dos anos sessenta  personificado nos carros, na arquitetura, no vestuário e tudo o mais. Além da trilha sonora ser um deslumbre! Contando até com uma canção de Carmem Miranda. Convém ressaltar que o mais belo em A forma da água é a atuação de Sally Hawkins, que lança mão de uma expressividade absurda munida apenas de gestos, expressões e do semblante sonhador e amoroso com que conduz seu romance até o fim dessa fábula. Sally já havia sido indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por Blue Jasmine, agora conseguiu um papel em que seu talento foi comprovado, uma vez que em outros filmes era geralmente subaproveitado. Ela merece vencer na categoria de melhor atriz. E claro, Del Toro realizou um filme completo: uniu realidade e fantasia expondo virtudes e fraquezas humanas de uma maneira em que tudo se encaixe seja nas cenas que tematizam a guerra fria ou no cotidiano da sublime Elisa.

domingo, 31 de dezembro de 2017

Outros Cantos, de Maria Valéria Rezende

1° edição, Editora Alfaguara, 2016
  O romance Outros cantos, de Maria Valéria Rezende é uma narrativa realizada em primeira pessoa onde a protagonista delineia uma série de reminiscências na qual predominam sua estadia num povoado do sertão nordestino chamado Olho D’água. Trata-se de uma leitura muito fluida, pois é narrado com uma simplicidade e coerência, embora vez por outra o leitor esbarre em algum vocábulo peculiar, pertencente ao dialeto regional do lugar rememorado.
   O sugestivo título Outros cantos alude aos diversos lugares que a protagonista Maria visitara, sempre em prol de missões humanitárias, sobretudo a de educadora, função que a levou a Olho D’água, lecionar para o antigo Mobral, hoje EJA. Passado quarenta anos, Maria retorna ao sertão e durante o trajeto num ônibus põe - se a relembrar das agruras que passou ao pisar numa terra castigada pela seca e povoada por pessoas tão humildes e ignorantes, mas que a receberam de coração aberto. Se eram ignorantes, sua missão ali faria todo o sentido. Será? Por mais que a predominância seja uma ligação afetiva, criada a partir da empatia da protagonista para com as carências do povo de Olho D’água, sobretudo a sertaneja Fátima e seus filhos, a narrativa não deixa o debate político de lado uma vez que Maria tenta incutir na população um pensamento crítico, ou seja, induz o povo a pensar na política daquela localidade, em plena época do regime ditatorial.
   Pode-se categorizar como um livro de memórias, pois é notório o forte saudosismo impresso na narrativa, sobretudo quando Maria compara o sertão de hoje, avistado da janela do ônibus de modo preciso, com o sertão de outrora que trouxe à protagonista tantas descobertas. As lembranças de Maria são compostas pelo trabalho árduo das pessoas do povoado; pelo aboio dos vaqueiros; pelas histórias contadas pelo povo, algumas em forma de repente; pelas festividades religiosas, entre tantos aspectos comuns àquela região. Tudo rememorado de maneira que Maria, ao contrário dos outros passageiros, não se sente ansiosa para chegar ao destino,pois um forte saudosismo daquele primeiro sertão, tão característico em sua aridez, toma conta de sua mente e ela percebe que aquele lugar, devido a algum progresso, já não é mais o de outrora. Talvez por conhecer de perto a vida em lugares semelhantes ao retratado em Outros Cantos minha leitura foi rápida, não precisei do dicionário em nenhum momento, o que não se pode negar que o leitor nascido numa metrópole não recorra a ele. Todavia as passagens no presente, em que a narradora tece críticas ao nosso tempo, seja da rapidez imposta a todos nós: “Não é só o fast–food no estômago, é o fast-food no cérebro: fast-news, fast-thinking, fast-talking, fast-answering, fast-reading. Parece um complô para me obrigar a ser cada vez mais fast, em tudo, a ser avaliada e a me avaliar pela minha rapidez de resposta e de atualização. Ave!” (p. 72) corresponde ao que mais achei interessante nessa narrativa, pois denota uma lucidez e autenticidade que só uma pessoa autêntica e criativa possibilita na composição de uma literatura cativante e rica em memórias. É possível uma comparação com Vidas Secas, do Graciliano Ramos, sobretudo na linguagem de ambos, direta sem adornos, apenas tecendo o fio das memórias, que como sabemos, é fotográfica.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Como nossos pais

imagem da cena inicial do filme de Laís Bodanzki
  Como nossos pais é um filme dramático que aborda a difícil situação de uma mulher ao tentar conciliar os vários papeis impostos a ela nos nossos dias. Ser mãe, lidar com os percalços do casamento, abrir mãos dos sonhos profissionais para poder viver do que é possível no presente, ou seja, trabalhar num ramo apenas pelo dinheiro, entre tantos outros desafios é uma tarefa hercúlea.  Some-se a esses fatores uma notícia bombástica acerca de sua paternidade proferida por sua mãe num pleno almoço de domingo! Eis a cena inicial desse drama que já incute no telespectador a vontade de conferir o desenrolar dessa narrativa cinematográfica.
  Com atuações convincentes de Maria Ribeiro e Clarisse Abujamra, mãe e filha nesse longa dirigido por Laís Bodanzky, esse filme abarca uma gama de conflitos de modo bem articulado na narrativa. Não basta Rosa lidar com o fato de sua mãe ter escondido a verdade de sua paternidade por várias décadas, o homem a quem ela o considera seu pai não passa de um fracassado artista a se aproveitar das mulheres por ele conquistadas; a empresa em que Rosa trabalha a demite após uma “cagada” das grandes  onde numa importante reunião ela, atabalhoadamente, apresenta um arquivo contendo uma peça de teatro ao invés do projeto empresarial sobre utensílios de banheiros. Para entornar ainda mais o caldeirão de infortúnios de Rosa, ela desconfia que seu apático marido tem uma amante! Mas não para por ai...
   Este filme tem vários méritos, um deles é a pincelada de humor que vez por outra salta nas frestas desse convincente drama. Nesse núcleo pertencem o pai (artista fracassado) de Rosa e sua meia-irmã, uma adolescente com os hormônios fervilhando em rebeldia – com a cara do século XVI- claro! Além das falas do roteiro serem bem inteligentes. Por exemplo, quando Rosa conta estorinhas para as filhas elas pedem para ouvir a história da Eva, ao menos esse incauto espectador sequer atinou que seria nada menos que a narrativa bíblica e, pra variar, a passagem em que Deus determina um castigo à mulher após ela e Adão terem cometido o pecado. Ao enveredar por esse lado- a mulher sempre oprimida- o longa corre o risco de ser taxado como obra de cunho político feminista, mas isso é apenas um dos modos de categorizar o cinema contemporâneo. O importante é que Como nossos pais não é “dramalhão barato-forçado”, muito menos, mero entretenimento, mas um filme muito bem realizado que não comete firulas visuais, mas foca no roteiro e nas boas atuações do elenco.

  Não bastasse os acertos do filme de Laís Bodanzki já citados, o mesmo ainda traz uma canção da Céu, uma das artistas mais originais da safra de novas cantoras, na trilha sonora. Em suma, é daqueles filmes que prendem a atenção pelo realismo das cenas, sobretudo aquelas que retratam o cotidiano mais banal, por exemplo, nas birras da filha de Rosa, beirando a pré-adolescência. Um teste de paciência que faz qualquer mãe contar até três, respirar fundo pra não perder a linha, mas o instinto materno fala mais alto mesmo, enfim, o máximo que ocorre é Rosa esquecer o leite no fogão. Ops, outro spoiller. Sorry, nada que estrague a experiência de um filme que incute inúmeras reflexões acerca da maternidade, do direito da mulher em ser tão livre quanto o homem e de amor em seu sentido amplo. Nada mal, cinema nacional.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A ousadia de Clarice

1° edição, Artenova,1974
  A Via Crucis do Corpo é um pequeno volume de contos escritos por Clarice Lispector em 1974. Desnecessário falar que essa obra praticamente fica nas sombras dos aclamados trabalhos da autora, como a novela A hora da estrela ou os romances A paixão segundo G. H. e Perto do coração selvagem. Mesmo no ambiente acadêmico, onde as pesquisas sobre a obra de Lispector são abundantes, são raros os que se detém sobre A via crucis do corpo. Por qual motivo esse livro é considerado obra menor? Não haveria neste o mesmo elemento criativo presente nos livros consagrados?
  O fato é que o livro foi muito mal recebido quando da época do seu lançamento, 1974, alguns críticos taxaram a obra de lixo e que seria melhor não ter sido lançada. A professora Vilma Âreas, argumenta que a ousadia do livro, sobretudo por apresentar personagens pouco convencionais, como senhoras sexagenárias (octogenárias também) com desejos sexuais, prostitutas e travestis disputando o mesmo homem, moças recatadas seduzidas por extraterrestres e até uma paródia do texto bíblico da Anunciação, entre outros, foi um dos fatores que gerou o desprezo por essa obra. Inclusive a própria autora, relata um desprezo no texto Explicação: “Uma pessoa leu meus contos e disse que aquilo não era literatura, era lixo. Concordo. Mas há hora para tudo. Há também a hora do lixo.” (P.12). Todavia, como Clarice Lispector é uma escritora intuitiva - os romances comprovam isso - é fácil compreender que uma obra sob encomenda como é o caso de A via crucis do corpo, acaba por tolher a sua liberdade criativa. Na melhor das hipóteses testa os seus limites, uma vez que a própria argumenta que “tratava-se de um desafio”.

  Além dos contos polêmicos, que são cheios  de humor, essa coletânea apresenta quatro crônicas que relatam o processo escritural dos conto de A via crucis, ou seja, a autora permite-se a uma proximidade com o seu leitor, até então desconhecida do público que a imaginavam uma pessoa tão misteriosa quanto a esfinge. Essa aura de mistério em torno de Clarice é oriunda de seus profundos textos como A paixão segundo G.H. , romance denso que jamais se esgotaria numa só leitura. Em contrapartida, o volume A via crucis do corpo é escrito numa linguagem simples, apesar que é uma obra repleta de referências que vão de elementos do cinema ao texto bíblico, ou seja, o simbolismo acompanha Clarice até mesmo em seus trabalhos menos rebuscados. Vale ressaltar, que é necessário ler A via crucis do corpo, atendo-se que é um trabalho meramente ficcional, onde a autora concatena suas ideias com a finalidade de tecer uma imitação da vida. Nessa imitação da vida, há espaço pra muita fantasia. Contrariando aquela música popular do nosso tempo, em A via crucis do corpo há espaço para ousadia e tristeza. Mas eu dissera que há muito humor nos textos... bem, leiam esse livro de Clarice.

sábado, 2 de dezembro de 2017

O filho de mil homens, Valter Hugo Mãe

2°edição, Editora Globo,2016
   



   Durante as aulas de literatura do curso de letras, a professora sempre salientava que a literatura era fundamental porque humaniza, incomoda, ou seja, nos desperta para uma verdade camuflada pelo automatismo do nosso cotidiano. Todavia, não são todos os textos literários que possuem tal capacidade de transcender nosso estado de espírito, essa é uma qualidade que só as boas obras possuem. Aquelas em que as palavras não apenas contam algo, mas nos tocam pela construção poética das frases ou períodos. Existem aquelas obras que nos acompanham por toda a vida, que volta e meia teremos a vontade de reler, não por alguma complexidade linguística, mas porque a delicadeza, o lirismo está presente em cada capítulo da narrativa.
    Uma obra que veio a se tornar um achado literário, não só para esse simplório leitor, é O filho de mil homens, de Valter Hugo Mãe, um romance que abarca inúmeros elementos de maneira  assertivamente construída. Valter Hugo Mãe tece com maestria seu enredo, inicialmente, devido à concisão dos capítulos, cada um apresentando um personagem central: o Crisóstomo; a anã; o Camilo, entre outros a seguir, remete-nos ao formato do conto, entretanto, trata-se da apresentação dos personagens em seus núcleos, para que no decorrer da narrativa vejamos a construção dos laços afetivos em que se atarão alguns desses personagens. Como o título da obra sugere, O filho de mil homens, ou seja, a temática do parentesco não se resume ao fator sanguíneo,mas é elevada  a um alto grau do sentimento de amor, de cuidado para com as pessoas que por alguma razão se cruzaram nessa estória. Por esse motivo, o Crisóstomo, homem de quarenta anos, sozinho no mundo que “Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos” (p. 19)sente-se enormemente realizado ao adotar o órfão Camilo. Além do fato de que as personagens desse livro habitavam um vilarejo litorâneo, ou seja, eram pessoas simples que viviam felizes com o que lhes era possível de realização.
  Conforme afirmei ser essa obra uma narrativa completa, ratifico apontando alguns elementos, pois temos a poesia, o lirismo, sobretudo personificado em Crisóstomo que adota Camilo e enamora-se pela rústica Isaura; O humor também aparece no tratamento das mulheres da vila com a personagem anã, na verdade aquele humor que esconde sentimentos nada virtuosos, há exemplo das mulheres que não aceitavam o fato de que anã era capaz de ser feliz apesar de sua diminuta condição. Consta na narrativa também, uma espécie de realismo mágico como no capítulo do velho que tinha uma galinha gigante, “uma avestruz” como deduz a criança filha de Rosinha, criada respondona, cujo velho, um dos raros personagens com posses, pretende passar com ela o resto dos seus dias. Outro aspecto importante nessa obra, é o humanismo, sobretudo na figura do personagem homossexual: o Antonino, cuja mãe vive a duelar mentalmente seus sentimentos para com o filho. O trunfo nesse núcleo é que o autor não recorre ao lugar-comum, que seria apresentar um discurso limitado, redutivo, mas assertivamente toca no cerne da questão, ou seja, apresenta um personagem vítima de inúmeras suposições sem fundamentos. Doravante os moradores da vila teciam comentários maldosos calcados em seus próprios preconceitos, sequer tinham vistos o Antonino a cometer atitudes comprometedoras. A parte em que Antonino põe uma maquiagem na sofrida e apagada Isaura, fazendo-a renascer,é quase uma epifania, apesar de que essa, a epifania aparece em inúmeras passagens do livro.
   Certamente, os personagens do Crisóstomo e do Antonino são os mais cativantes, ambos são dotados de um genuíno sentimento de amor ao próximo, cada qual ao seu modo , já que “amar uma pessoa é o destino do mundo”, conforme aparece numa passagem dessa obra belíssima que é O filho de mil homens. Nos momentos de tristeza, sobretudo do Crisóstomo, ele caia para dentro de si, caia e levava também o leitor, completamente caído de amores pela prosa poética de Valter Hugo Mãe, uma prosa que aborda o reencontro da alegria de viver em companhia daqueles que amamos. Os personagens viviam a sonhar com o amor: Crisóstomo queria um filho; Isaura um marido; Antonino a aceitação de todos, começando por sua própria mãe, ao final todos conquistaram isso e muito mais. Fica a dica de um ótimo presente de natal, O filho de mil homens é uma leitura fácil, porém cheia de encanto e criatividade, qualidades tão peculiares em Valter Hugo Mãe.



domingo, 19 de novembro de 2017

Intérprete de Males, de Jhumpa Lahiri

Editora Globo, 2014
   Intérprete de Males é a primeira obra literária da escritora Jhumpa Lahiri. O livro de contos foi o vencedor do importante prêmio Pulitzer e aborda, entre vários fatores, a condição dos imigrantes indianos nos Estados Unidos. A adaptação aos costumes americanos, a saudade da família que ficou na Índia e principalmente o choque cultural dão a tônica de grande parte dos contos dessa coletânea. Os personagens retratados, em sua maioria, são casais indianos que moram nos EUA, crianças nascidas nos EUA filhos de pais indianos, ou ainda filhos de americanos que de alguma forma convivem com indianos, sendo que alguns contos são narrados sob a perspectiva do olhar infantil, como os textos  “Quando o senhor Pirzada vinha jantar” e “A senhora Sen”.
   Os textos citados acima são narrados de maneira simples, a escrita de Jhumpa não dispõe de maneirismos estilísticos ou algum recurso que traga complexidade na linguagem, ela apenas descreve as vivências das personagens de modo sutil, injetando certa dose de surpresa à medida que elas constroem sua visão de mundo mediante a observação das pessoas com a qual convivem. É o que acontece no referido “A senhora Sen”, onde acompanhamos um menino, de família americana, que passa o dia sob os cuidados de uma babá indiana, esta, a Senhora Sen. Essa convivência permite à criança aprender sobre a cultura indiana, uma vez que sua babá vive como se ainda habitasse seu país de origem, ou seja, da cozinha à indumentária e até mesmo sua pronúncia do inglês, tudo na senhora Sen evocava a Índia e seus sabores, suas cores, etc. Mas, a verdade, é que a senhora Sen sofria deveras com a saudade dos parentes que ficaram no Oriente, doravante, uma carta que chegava da índia era motivo de grande alegria, em contrapartida, saber que só poderia ver um sobrinho que nascera quando ele tivesse três anos não era nada auspicioso para ela. É um dos textos mais tocantes e expõe uma inversão de papéis, pois Eliot, o menino sob os cuidados da senhora Sen, acaba sendo um alento para sua babá, uma vez que ela tem para quem falar de sua terra e do que sente falta de lá, ou seja, quase tudo. Além do fato de que ela ainda não sabia dirigir, e recebia uma certa pressão do senhor Sen, para que perdesse o medo e conseguisse tirar a habilitação, afinal, eles moravam nos EUA, era primordial que ela soubesse dirigir. Vejamos um excerto: 
  - Como espera passar no exame se você se recusa a dirigir na rua com os outros carros?
  - Eliot está aqui hoje.
  - Ele está aqui todo dia. É para o seu próprio bem. Eliot, diga para a senhora Sen que é para o próprio bem dela.
   Ela se recusou. (p. 133-134)
   Daria para falar sobre cada um dos nove contos desse livro, pois cada um é, a sua maneira, um primor literário! Jhumpa lahiri é mestra em traçar esse encontro de culturas diferentes; de gerações diferentes, como percebemos nos textos narrados sob uma ótica infantil, mas com um aguçado senso de apuração do que se passa ao redor. Vale ressaltar que o conto que intitula a coletânea é um dos mais interessantes, pois é daqueles textos onde, sutilmente, uma verdade vem à tona, revelando coisas improváveis, passeando por devaneios que só uma mente sempre ligada (do narrador) expõe. O intérprete de males é na verdade uma espécie de tradutor, trabalhando num hospital onde aparecem pacientes portando um dialeto que o médico não entende, então, cabe ao senhor kapasi traduzir, isto é, relatar ao médico os “males” que acometem estes pacientes. Todavia, é no seu outro emprego onde ele é guia turístico, conduzindo uma família americana aos pontos turísticos indianos, que uma mulher, com marido e três filhos, desperta para outras sensações diante de um trabalho, em sua própria expressão: “romântico”. Resumindo, no passeio turístico está o pai entretido a fotografar; as crianças distraídas com os animais e há a senhora Das com expressão de enfado, mas quando o guia conta que traduz os males dos outros ela subitamente julga ter encontrado a pessoa certa pra contar um grave segredo. E o que se sucede? Pois não disse que Jhumpa constrói narrativas interessantíssimas? Uma verdadeira viagem pelos labirintos da mente humana e seus devaneios e segredos. Como será esse embate entre o guia e a senhora Das? haverá reciprocidade? Leiam o incrível Intérprete de males.