terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Impressões sobre a peça "As divinas mãos de Adam"

Os competentes atores em cena da premiada peça
   “As divinas mãos de Adam” é um texto teatral da autoria de Roberto Muniz Dias, um dos mais significativos nomes da “literatura LGBT”. A peça foi apresentada em São Paulo na última edição do Festival Mix Brasil e reuniu um grande número de espectadores, muitos certamente entrando em contato pela primeira vez com o texto do escritor piauiense, cuja obra, reforça o potencial criativo de Roberto exacerbando uma profundidade que aproxima a literatura da filosofia.
   O diferencial da literatura de Muniz Dias provém da fuga ao “lugar comum”, ou seja, seus textos não giram em torno da opressão sofrida pelas personagens homossexuais, tampouco descambam para uma “literatura para maiores”, embora aborde essas questões, o modo como descreve tais fatos é sofisticado e extrai o máximo de filosofia; a maioria de seus personagens parece possuir um segundo olhar para os eventos ocorridos em suas vidas. Na peça “As divinas mãos de Adam” essa verve filosófica é representada pelos dois personagens masculinos, que nutridos de um desespero comum (apesar de suas diferenças pessoais) conseguem chegar a uma equiparação de seus estados de vida, após dialogarem, entre confidências e doses de conhaque,“O grande nivelador social”. O acaso que arrebata Stephen e Adam tanto permite a ambos “depurar a verdade” como permite-lhes extrair humor de algum aspecto, o que traz leveza para o melancólico texto de Roberto.
   Como em toda obra fictícia espera-se um “happy end”, este não vem sem antes passar por duríssimas penas, nesta peça o entendimento de Stephen e Adam é atacado por Rita, irmã de Stephen, esta munida de um fanatismo religioso que reprime qualquer atitude que não corresponda aos ditames cristãos pregados, geralmente, pelos evangélicos. Entretanto, o texto sutilmente alude a esses conceitos, sequer designa “Deus”, refere-se ao Divino ou na fala eloquente de Rita: “Ele”, o pronome substantivo apodera-se da personagem com um fervor de devoção. Já que falamos em pronomes, cabe ressaltar que essa precisão da escrita de Muniz Dias, reflete o apuro de seu ofício e também nos remete ao “Pronominais” de Oswald  de Andrade, especificamente quando Stephen pede a Adam uma dose de conhaque: - Dá-me uma dose!
   Os aspectos apontados acerca da peça “As divinas mãos de Adam” são poucos levando em conta os vários efeitos de sentido que ela propicia a cada espectador. Certamente, um indivíduo é tocado por determinada frase, outro fora afligido pelo insólito do tema; algum letrado absorveu diversos paradoxos e ficou com a peça semanas na cabeça, entre outras razões que corroboram para designar o texto de Roberto Muniz Dias como Literatura utilitária, ou seja, aquela que conjuga estética e humanização. Esta, decorre numa crescente até o clímax explosivo, literalmente tocando o dedo na ferida, quando a personagem Rita expõe um dos principais argumentos contra a homossexualidade: “não há nada de divino neste seu pensamento que não germina, nunca germinará...” as respostas dadas por Stephen e Adam representam menos as pretensas verdades limitadoras, impostas por religiões, que a própria consciência é capaz de buscar uma autonomia perante seus desejos e a própria condição humana.

Ficha Técnica

Texto/ Text: Roberto Muniz Dias
Diretor/ Director: Emer lavinni
Preparadora de elenco/ Casting director: Claudiana Cotrim
Elenco/ Cast: Ana Carolina Rainha (Rita), Héctor Medina (Adam) & Mário Cardona (Stephen)
Iluminadores/ Lightning designer: Anauã Vilhena e Héctor Medina
Músico/ Musician: lucas Simonetti
Figurinista/ Costume designer; Nina Nabuco
Cenógrafa/ Set designer: Renata Belich
Visagista/ Make up artist: Hugo Régis
Fotógrafo/ Photographer: Mackson Cruz
Criação e produção/ Creation and production: Cia Popular Versátil


domingo, 25 de dezembro de 2016

Comentando o filme Aquarius, de kleber Mendonça Filho

Sônia Braga em cena do aclamado Aquarius
    Tive receio em assistir Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, devido o posicionamento (assertivo) do filme perante  o caótico contexto político brasileiro. A questão que me perturbava era: Será que o filme, apesar de falar sobre resistência, não é significativo o suficiente para falar por si? Não é artístico o suficiente para não precisar denunciar o golpe? Foi um descarado golpe sim! Mas e os prêmios ganhos pelo diretor e pela atriz principal? Estas e outras questões me instigavam a conferir a obra para formar uma opinião livre de tanto julgamento alheio.
    Não estava de todo errado, Aquarius fala de resistência mas, o que salta na tela é a criatividade do diretor em mostrar uma grande personagem feminina, Clara, interpretada de forma magnífica por Sônia Braga. Basicamente o roteiro é sobre uma senhora que resiste bravamente às investidas de uma construtora em comprar o seu apartamento,único que falta  ser vendido no Edifício Aquarius. Ao passo que vamos conhecendo Clara, entendemos porque ela não quer se desfazer do apartamento. Clara sobreviveu a um câncer no passado e hoje é aposentada, mãe de três filhos, viúva e avó. Ela segue sua rotina quase como um ritual, morando com sua empregada de décadas, Ladjane. Outra grande característica da personagem é que ela é uma senhora muito culta, inclusive, sendo convidada a dar entrevistas onde fala sobre seu apurado gosto musical.
    Aquarius é construído assim como a obra anterior de Kleber, O som ao redor, entretanto, os recursos inerente a ambos aqui falam mais alto: As fotografias em preto e branco do início já denunciam tratar-se de um filme de memória; a caracterização do começo dos anos oitenta é excepcional; a divisão em capítulos também é outro detalhe importante dos filmes do diretor pernambucano. Esses aspectos, artísticos, permitem ao filme falar por si só, ou seja, é um filme de arte, devido as características como fotografia, atuação, roteiro, etc, trazerem potencial digno de reconhecimento em festivais mundo a fora. Todavia, seria ingenuidade minha não reconhecer o viés político de Aquarius, uma obra fruto do nosso conturbado tempo. O filme é uma convincente crítica ao capitalismo selvagem que ignora o fator humano. O indivíduo e sua história afetiva, doravante Clara não se desfaz de seus discos de vinís apesar da praticidade que é ouvir música em celulares, hábito que ela também possui.
    A personagem de Sônia Braga é apaixonante por ser uma mulher extremamente humana, família, inclusive convivendo com sua empregada como se fosse membro dela, como vemos na cena em que Clara canta e toca ao piano no aniversário de Ladjane. Ressalto que não conhecia a música cantada em aniversários de Aquarius, deve ser algo característico de Pernambuco, local onde se passa o filme. Já o personagem antagonista, vivido por Humberto Carrão, pouco aparece, embora em suas poucas cenas já destila um cinismo insuportável que nos faz esquecer que ele é o mocinho da atual novela das 21. 
   
Não posso deixar de falar que Aquarius é um tapa na cara da sociedade sim, para aquelas pessoas que se acham acima da lei, que discriminam as minorias, que não acreditam nos ideais esquerdistas, por exemplo: na cena do exercício na praia onde aparecem uns três garotos morenos, as pessoas tendem a pensar que se trata de arruaceiros, de assaltantes, entretanto o grupo se junta aos que estão se exercitando. O mau sujeito é um branquinho playboy, sujeito traficante como denuncia o salva vidas, vivido por Irandhir Santos, para Clara. Nas cenas finais do filme o racismo se faz presente na fala do antagonista. E é assim mesmo em filmes de Kleber Mendonça Filho, as situações vão se encaminhando pra uma sufocante tenção que culmina nos segundos finais.
 

domingo, 27 de novembro de 2016

As Histórias de fadas de Oscar Wilde

Edição de bolso da Saraiva
   Oscar Wilde sempre nos remete ao tema beleza e tentações, e claro, a sua obra prima “O retrato de Dorian Gray”. Certamente, foi uma personalidade muito controversa segundo consta sua biografia. Entretanto, mesmo analisando seus textos diversos, as controvérsias acentuam-se cada vez mais. Apesar que soa ingênuo da minha parte querer separar o autor da novela “O retrato de Dorian Gray” do autor de contos infantis, escritos para os próprios filhos. Pois mesmo em contos como “O príncipe feliz” ou “O jovem rei”, entre outros, o apelo descritivo construído com metáforas designadas por pedras preciosas estão lá, em demasia. A mesma tentação ocasionada pela beleza, ou melhor, valendo-se de um signo atual, a “ostentação” era a armadilha visual que Wilde tanto tematizava em seus textos.
   Em seu “Histórias de fadas” não temos o esperado “happy end”, o que leva-me a acreditar que Wilde intencionava incutir em seus filhos ( e possíveis leitores) os valores reais que salvariam a alma, ou seja, resistir as tentações, que podem nos cegar de tão belas, é o que deve-se fazer para  não padecermos tão tragicamente como seus personagens. No conto “O jovem rei” vemos que o belo e valioso  que ornamenta os reis é obtido através do sofrido trabalho dos pobres, ou melhor, de um trabalho degradante e arriscado o qual o jovem rei toma conhecimento em seus sonhos. O texto comove pela narrativa dramática, entretanto com o propósito disciplinador que exalta a renúncia ao ornamento que enfeita o reinado mas traz um rastro de morte consigo.
   Além das tentações pelas pedras preciosas e todo o requinte dos abastados do século XIX, outra armadilha á qual Wilde alude em seu “Histórias de fadas” é o próprio ego inflado de alguns. O texto “O foguete notável” funciona como um apólogo e narra a estória de um foguete que se considera superior a todos os outros. Um tom de leveza e humor perpassa o texto devido aos disparates proferidos pelo foguete que crer que todos os acontecimentos giram em torno dele. Um “notável” exemplo: os foguetes serão lançados na ocasião do casamento do príncipe – o foguete notável enxerga o oposto, é sorte do príncipe casar-se no dia em que ele será lançado. O cúmulo é o fato deste foguete distorcer os comentários a seu favor, vejamos um excerto:
- Ora essa! – exclamou. – Olha só um foguete que não presta! – e atirou-o por cima do muro, em uma vala.
-Foguete que não presta? Que não presta? –disse ele, enquanto voava pelos ares.  – Impossível! Foguete de dar festa, foi isso que o homem disse. Não presta e dar festa tem quase o mesmo som, e para falar a verdade são praticamente a mesma coisa- e caiu na lama. (p. 47, 48).
   Os contos de “Histórias de fadas” são muito comoventes. Os textos, apesar de destinados ao público infanto-juvenil, explanam os vastos caminhos que rondam a alma do homem, os medos, os objetivos e também a inevitável morte. Que não esperemos princesas que ressuscitam após um beijo do amado ou que perdem sapatinhos... a matéria-prima de Wilde é a sociedade moderna e seu homem preso ao presente e refém da sua alma.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Os "Laços de família", de Clarice Lispector

Recente edição da Rocco
   A coletânea de contos “Laços de família” é o livro ideal para quem pretende conhecer a obra de Clarice Lispector. Devido a popularidade da autora ter aumentado graças às redes sociais e as várias frases atribuídas a este mito, nada mais justo que adentrar o vasto território dos textos consagrados, e o gênero conto, por sua concisão, é o assertivo ponto de partida para esta tarefa.  
   Os textos de laços de família são considerados verdadeiras obras-primas do conto brasileiro, alguns deles figuram na antologia “Os cem melhores contos brasileiros”. A temática, o apuro formal e a singularidade da prosa clariceana fascinam vários leitores desde que essa obra foi publicada em 1960. Um dos trunfos de Clarice é extrair da banalidade, do rotineiro, situações que desencadeiam um forte abalo na vida de seus personagens. Esse “abalo” configura no que designou-se "epifania", ou seja, uma revelação, momento em que a personagem tem um insight. Em laços de família o texto que melhor exemplifica a epifania é o conto “Amor” em que a dona de casa Ana tem sua rotina alterada após avistar um cego mascando chiclete. O zelo da protagonista para que tudo em sua casa, com o marido e os filhos corresse na mais perfeita ordem fizeram dela um ser mecânico, tal qual o movimento de mascar chiclete do cego. Todo o texto é repleto de simbologias, razão pela qual sua análise é sempre requisitada nos vestibulares. Outro conto de destaque é “Uma galinha” onde acompanhamos a sina de uma galinha que durante um certo período escapou de ir pra panela. Percebe-se uma tentativa de humanização da galinha, mesmo ela destinada a ser o que fatalmente era: uma galinha que iria servir de alimento mais cedo ou mais tarde. Entretanto, a “galinha de domingo”, ao por um ovo tem sua ida pra panela adiada. Sob os gritos da menina que presenciou o fato: “-Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!” (p. 32) Após isso ela “tornara-se a rainha da casa”, até cumprir o seu fatal destino.
    Certamente um dos melhores textos desta coletânea é “Feliz aniversário”, cuja narrativa aborda a comemoração dos oitenta e nove anos de uma matriarca, D. Anita, que passa a festa inteira na cabeceira da mesa fitando com horror a mediocridade encenada por sua própria família. É nesse texto que observamos que os laços de sangue não são suficientes para fazer brotar bons sentimentos. As famílias se desentendem, o egoísmo humano forma barreiras intransponíveis, daí vemos em “Feliz aniversário” noras que se detestam, irmãos forjando discursos ou mesmo não comparecendo à ocasião. A mesquinhez humana é evidente neste conto, por exemplo, uma das noras ostenta  arrogância, “esta vinha com seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles...” (p. 54) Como se nada daquilo fizesse sentido para a aniversariante que medita amargamente sobre seus próprios frutos, com exceção de um neto, Rodrigo, “carne do seu coração”. Um detalhe importante deste texto é a personagem Cordélia, assim como a filha do rei Lear, esta enxerga a verdade e prefere a mudez a cair na armadilha das palavras encenadas, ciente do amor, do seu segredo.

    Laços de família é seguramente um dos cartões de visita de Clarice Lispector, alguns críticos literários chegam a concordar que a Clarice do conto supera a romancista. Polêmicas à parte, Laços de família é leitura imprescindível para que vejamos o fiel retrato da natureza humana, além da criatividade de Clarice em situar suas personagens, seja presa aos laços afetivos ou familiarizadas com outra forma, que não a humana, sempre em busca de uma linguagem que revele a verdade do ser. Doravante a proximidade com os bichos, uma galinha, um cão ou a vida “silenciosa, lenta, insistente” do jardim Botânico.

domingo, 16 de outubro de 2016

Comentando o filme "Jovens adultos"

Charlize Theron em primorosa atuação
“Jovens adultos” é um filme sobre falta de maturidade. A protagonista desse drama com nuances cômicas é Mavis Gary, interpretada com maestria pela oscarizada Charlize Theron (Monster- Desejo assassino). Mavis é uma ghost writer de uma série “Young adult” que fora cancelada, entretanto ela precisa escrever o último capítulo. Sob pressão de seu editor e vivendo uma fase nada criativa, a página ainda em branco, Mavis, ao vasculhar sua mailbox, encontra um convite de felicitações pela chegada de um bebê, é a filha de Buddy Slade (Patrick Wilson), seu namorado dos tempos da escola. Apesar dos seus 37 anos, Mavis é tão imatura quanto as personagens da série da qual é autora. Toma para si o convite do email, ignorando totalmente a fase atual, o casamento bem resolvido do antigo namorado. Mavis é uma pessoa totalmente “sem noção”! É uma personagem que não sabemos se sentimos pena, ou raiva ou mesmo alguma estima pelas absurdas atitudes tipicamente “adolescentes”.
Roteirizado por Diablo Code (Juno), “Jovens adultos” possui diálogos sensacionais, a “falta de noção” de Mavis não parece um simples desvio de caráter da personagem, uma vez que ela possui um lado humano, tem um cachorro de estimação e quando reencontra um antigo colega de escola que fora vítima de um crime de ódio, toma empatia pelo moço e lança a questão, para o público: é mais doloroso o trauma físico, ou as neuroses que um especialista poderia resolver? Explico, a vítima do crime de ódio ficou com graves sequelas, como mobilidade reduzida e quase impotente.  O cúmulo da desorientação de Mavis é achar que a fase em que era a mais popular da escola era a sua melhor fase. Era nesse período em que descobrimos que ela era muito egoísta, deslumbrada pelo sucesso com os garotos e principalmente por Buddy, este no presente envolto em mamadeiras e feliz com sua mulher Bety, cujo motivo não é empecilho para Mavis fazer de tudo para reconquistar o antigo namorado. Inclusive ao ponto de se insinuar perante Bety e suas amigas. Para Mavis só o que ela pensa importa já que "o amor supera tudo" também "a sociedade aceita tudo", isso e outras projeções oriundas do universo unilateral e retrógrado de Mavis. 

A eficiente atuação de Charlize e o ótimo roteiro de Cody entregam um bom filme, destes que valem rever várias vezes. Há cenas impagáveis em que Mavis Gary munida de uma petulância que só os adolescentes ostentam, provoca o riso devido o absurdo que determinada atitude acarreta. Outra característica importante em Mavis é a preocupação com a aparência: salões de beleza e roupas sofisticadas fazem parte de sua maneira de se apresentar aos outros, já em sua casa entrega-se ao desleixo de modo geral, alimenta-se de enlatados, veste as velhas camisetas com estampas infantis e abusa de Coke. Interessante também o modo como Maves colhe “por acaso” diálogos de pessoas na rua e os insere na série da qual é ghost writer, encaixando-os devidamente no mundo pretensioso da fase juvenil. 

sábado, 8 de outubro de 2016

Criolo:rimas de superação e esperança

Criolo e as rimas de esperança de "Ainda há tempo"
  Um dos álbuns nacionais lançados neste ano que muito escuto é “Ainda há tempo”, do Criolo. Na verdade, trata-se de um relançamento, o álbum fora lançado há dez anos atrás, época em que o rapper designava-se Criolo Doido. O relançamento desse trabalho deve-se ao fato de Criolo ter se tornado grande nome da música brasileira após a ótima recepção de “Nó na orelha” em 2011 e pelo o sucessor “Convoque seu Buda” em 2014, ou seja, o álbum de 2006 era conhecido apenas pelos fãs mais antigos, aqueles do tempo em que Criolo não tinha expandido suas fronteiras musicais, mantinha-se fiel ao rap tradicional e se apresentava nas rinhas de MC's, eventos geralmente restritos a adeptos do gênero.

   Apesar de “Ainda há tempo”, versão 2016, conter apenas oito faixas, muito menos que o álbum de 2006, ele traz o essencial do Criolo em seu início, na periferia da Zona Sul Paulistana. Seria injusto que o público que acompanha o músico desde o sucesso de “Não existe amor em SP”, não tomasse conhecimento das pérolas musicais do Criolo das antigas. Certamente, alguns desses fãs das antigas preferem as versões do álbum original às novas versões super produzidas por feras da cena. Na verdade, não precisa ser fã de rap para gostar de Criolo, suas rimas são carregadas de humanidade, ou seja, verdadeiras filosofias de vida extraídas de uma realidade hostil, marcada pelo abandono que são as periferias de uma grande cidade. Muitas frases de Criolo ecoam em nossa mente e no álbum “Ainda há tempo” não falta material para isso: a própria faixa título já expressa a ideia de esperança, de uma crença de que a humanidade tem jeito, por mais que a realidade nos mostre tantas atrocidades e desrespeito à vida.  Se tem um artista que merece o título de “grande pensador contemporâneo”, esse alguém é Criolo. No referido álbum, as rimas criativas versam sobre ele ter encontrado sua salvação no rap, uma vez que muitos jovens acabam sucumbindo para o mundo do crime já que faltam oportunidades na periferia. Exemplo maior do poder de humanização da arte! Criolo no palco expurga suas convicções, expõe suas memórias e abre o coração, não raro o amor materno consta em suas rimas: “Eu respeito, ah como eu respeito/ amor de mãe não se escreve, aí não tem defeito/ seria tão bom se a mãe da gente não sofresse/ não ficasse doente e também não envelhecesse.” São versos da canção “É o teste”, faixa que abre o álbum e uma das melhores letras do rapper. Os recados são inúmeros: “Procure ser feliz, pobreza não é derrota”; “O que penso família, ainda nela acredito” e claro, o refrão: “É o teste, é o teste, é a febre, é a glória/ não se corromper pra nóis já é vitória.” Não posso esquecer de destacar a faixa “Vasilhame”, especificamente a mudança de um verso que Criolo, numa atitude humilde, reconhece que certas palavras ofendem e por isso alterou um verso considerado homofóbico: “os traveco tão ali, alguém via se iludir.” Na versão repaginada ficou: “O universo tá ai, alguém vai se iludir.” A faixa em questão versa sobre o abuso do álcool e o quanto isso pode ser prejudicial a saúde e favorável apenas aos donos das empresas de bebidas. Retomando o tema da homofobia, Criolo disse, certa vez, não me atenho ao contexto, uma das coisas mais certeiras dessa vida: “até parece que ser gay é defeito”. Seria bom se muitos artistas fossem tão bons no que fizessem e também fossem tão humanistas como Criolo, mas “ainda há tempo”!

domingo, 25 de setembro de 2016

Comentando, Trilogia do Desejo de Roberto Muniz Dias

Trilogia: a versatilidade romanesca
Trilogia do Desejo é a coletânea que agrupa os três primeiros romances do escritor piauiense Roberto Muniz Dias, são eles: Adeus a Aleto, Um buquê improvisado e Urânios. Geralmente, essas obras estão relacionadas a literatura Queer, ou literatura LGBT, uma vez que a temática homoafetiva é recorrente na ficção criada por Roberto Muniz Dias. Entretanto, a leitura atenta de Trilogia do desejo revela inúmeras possibilidades de categorização dessa literatura, ou seja, as estórias não se restringem as aventuras, descobertas das personagens, homossexuais ou não, fatos extraordinários  ou coisas desse gênero, mas importa, sobretudo, nas narrativas de Roberto Muniz, a concatenação das memórias com os recentes “estados d’alma”   dos seus protagonistas. Doravante, uma série de referências são inseridas na narrativa corroborando para o hibridismo do texto, ou seja, mitologia grega, trechos de canções populares, cânones literários, entre outros aspectos, surgem num fluxo de consciência que acentua a incessante busca da “verdade” de seus personagens.
Adeus a Aleto
No romance de estreia de Roberto Muniz Dias, acompanhamos um protagonista, escritor, em sua estadia pela Europa divulgando sua obra, e claro, entregando-se aos encantos e prazeres das noites de Amsterdã, entre vinhos e a companhia de um misterioso jovem chamado Nikov. Quem seria Nikov? Um turbilhão de dúvidas se faz na mente do protagonista. As luzes, os sons, toda uma atmosfera de suspense perpassa nas páginas de Adeus a Aleto. Um escritor dividido entre os prazeres noturnos e a fertilidade da criação literária, eis o dilema do protagonista sem nome de Adeus a Aleto.
Um buquê improvisado:
Talvez seja o romance mais palatável de Roberto Muniz Dias, por conter os ingredientes de uma boa ficção literária, ou seja, dramas, aparente linearidade, personagens cativantes, antagonistas de causar revolta, sobretudo, a problematização do conceito religioso, ou seja, a maneira como o cristianismo serviu de forte influência na construção da personalidade e fomentação da cultura a qual pertencemos: maniqueísta, preconceituosa e preocupada com o ideal heteronormativo. A pungência de Um buquê improvisado é ampla por minar o grupo social que é a família, ou seja, a noção de família é problematizada através das personagens que se veem inseridas enquanto “estrutura tradicional” da sociedade, quando justamente essa noção está sendo posta em cheque pelo protagonista J. em meio sua presente situação e a descoberta de fatos importantes sobre seu pai.
Urânios
Nesse romance, de forte tom intimista, o leitor é apresentado a um “relato de amor e morte, mas nada póstumo porque tudo já estava morto: o amor, o tempo e a identidade.” Este relato trata-se de uma experiência poliafetiva, ou seja, um jovem junta-se a um casal de namorados, numa entrega movida por impulsos sexuais, narrados de forma sublimes, contidas, sem jamais extrapolar para vocabulários pejorativos, uma vez que seu estilo narrativo prima pela sutileza, puro lirismo. Doravante, é problematizada essa modalidade amorosa, através do protagonista de posse da pintura de um galo colorido, herança que insiste em avivar as lembranças do trio amoroso. Disposto em capítulos que se alternam, esse romance aborda, a priori, a construção da identidade do protagonista- o presente e o passado, a gênese, e também corresponde ao retrato fiel da contemporaneidade, no qual os relacionamentos amorosos não mais se restringem às normas do século passado. É o carácter libertário que a boa literatura proporciona. É a Trilogia do desejo dando o grito de liberdade que é desejo de todo indivíduo que se permita pensar e viver com autonomia.