sábado, 8 de outubro de 2016

Criolo:rimas de superação e esperança

Criolo e as rimas de esperança de "Ainda há tempo"
  Um dos álbuns nacionais lançados neste ano que muito escuto é “Ainda há tempo”, do Criolo. Na verdade, trata-se de um relançamento, o álbum fora lançado há dez anos atrás, época em que o rapper designava-se Criolo Doido. O relançamento desse trabalho deve-se ao fato de Criolo ter se tornado grande nome da música brasileira após a ótima recepção de “Nó na orelha” em 2011 e pelo o sucessor “Convoque seu Buda” em 2014, ou seja, o álbum de 2006 era conhecido apenas pelos fãs mais antigos, aqueles do tempo em que Criolo não tinha expandido suas fronteiras musicais, mantinha-se fiel ao rap tradicional e se apresentava nas rinhas de MC's, eventos geralmente restritos a adeptos do gênero.

   Apesar de “Ainda há tempo”, versão 2016, conter apenas oito faixas, muito menos que o álbum de 2006, ele traz o essencial do Criolo em seu início, na periferia da Zona Sul Paulistana. Seria injusto que o público que acompanha o músico desde o sucesso de “Não existe amor em SP”, não tomasse conhecimento das pérolas musicais do Criolo das antigas. Certamente, alguns desses fãs das antigas preferem as versões do álbum original às novas versões super produzidas por feras da cena. Na verdade, não precisa ser fã de rap para gostar de Criolo, suas rimas são carregadas de humanidade, ou seja, verdadeiras filosofias de vida extraídas de uma realidade hostil, marcada pelo abandono que são as periferias de uma grande cidade. Muitas frases de Criolo ecoam em nossa mente e no álbum “Ainda há tempo” não falta material para isso: a própria faixa título já expressa a ideia de esperança, de uma crença de que a humanidade tem jeito, por mais que a realidade nos mostre tantas atrocidades e desrespeito à vida.  Se tem um artista que merece o título de “grande pensador contemporâneo”, esse alguém é Criolo. No referido álbum, as rimas criativas versam sobre ele ter encontrado sua salvação no rap, uma vez que muitos jovens acabam sucumbindo para o mundo do crime já que faltam oportunidades na periferia. Exemplo maior do poder de humanização da arte! Criolo no palco expurga suas convicções, expõe suas memórias e abre o coração, não raro o amor materno consta em suas rimas: “Eu respeito, ah como eu respeito/ amor de mãe não se escreve, aí não tem defeito/ seria tão bom se a mãe da gente não sofresse/ não ficasse doente e também não envelhecesse.” São versos da canção “É o teste”, faixa que abre o álbum e uma das melhores letras do rapper. Os recados são inúmeros: “Procure ser feliz, pobreza não é derrota”; “O que penso família, ainda nela acredito” e claro, o refrão: “É o teste, é o teste, é a febre, é a glória/ não se corromper pra nóis já é vitória.” Não posso esquecer de destacar a faixa “Vasilhame”, especificamente a mudança de um verso que Criolo, numa atitude humilde, reconhece que certas palavras ofendem e por isso alterou um verso considerado homofóbico: “os traveco tão ali, alguém via se iludir.” Na versão repaginada ficou: “O universo tá ai, alguém vai se iludir.” A faixa em questão versa sobre o abuso do álcool e o quanto isso pode ser prejudicial a saúde e favorável apenas aos donos das empresas de bebidas. Retomando o tema da homofobia, Criolo disse, certa vez, não me atenho ao contexto, uma das coisas mais certeiras dessa vida: “até parece que ser gay é defeito”. Seria bom se muitos artistas fossem tão bons no que fizessem e também fossem tão humanistas como Criolo, mas “ainda há tempo”!

domingo, 25 de setembro de 2016

Comentando, Trilogia do Desejo de Roberto Muniz Dias

Trilogia: a versatilidade romanesca
Trilogia do Desejo é a coletânea que agrupa os três primeiros romances do escritor piauiense Roberto Muniz Dias, são eles: Adeus a Aleto, Um buquê improvisado e Urânios. Geralmente, essas obras estão relacionadas a literatura Queer, ou literatura LGBT, uma vez que a temática homoafetiva é recorrente na ficção criada por Roberto Muniz Dias. Entretanto, a leitura atenta de Trilogia do desejo revela inúmeras possibilidades de categorização dessa literatura, ou seja, as estórias não se restringem as aventuras, descobertas das personagens, homossexuais ou não, fatos extraordinários  ou coisas desse gênero, mas importa, sobretudo, nas narrativas de Roberto Muniz, a concatenação das memórias com os recentes “estados d’alma”   dos seus protagonistas. Doravante, uma série de referências são inseridas na narrativa corroborando para o hibridismo do texto, ou seja, mitologia grega, trechos de canções populares, cânones literários, entre outros aspectos, surgem num fluxo de consciência que acentua a incessante busca da “verdade” de seus personagens.
Adeus a Aleto
No romance de estreia de Roberto Muniz Dias, acompanhamos um protagonista, escritor, em sua estadia pela Europa divulgando sua obra, e claro, entregando-se aos encantos e prazeres das noites de Amsterdã, entre vinhos e a companhia de um misterioso jovem chamado Nikov. Quem seria Nikov? Um turbilhão de dúvidas se faz na mente do protagonista. As luzes, os sons, toda uma atmosfera de suspense perpassa nas páginas de Adeus a Aleto. Um escritor dividido entre os prazeres noturnos e a fertilidade da criação literária, eis o dilema do protagonista sem nome de Adeus a Aleto.
Um buquê improvisado:
Talvez seja o romance mais palatável de Roberto Muniz Dias, por conter os ingredientes de uma boa ficção literária, ou seja, dramas, aparente linearidade, personagens cativantes, antagonistas de causar revolta, sobretudo, a problematização do conceito religioso, ou seja, a maneira como o cristianismo serviu de forte influência na construção da personalidade e fomentação da cultura a qual pertencemos: maniqueísta, preconceituosa e preocupada com o ideal heteronormativo. A pungência de Um buquê improvisado é ampla por minar o grupo social que é a família, ou seja, a noção de família é problematizada através das personagens que se veem inseridas enquanto “estrutura tradicional” da sociedade, quando justamente essa noção está sendo posta em cheque pelo protagonista J. em meio sua presente situação e a descoberta de fatos importantes sobre seu pai.
Urânios
Nesse romance, de forte tom intimista, o leitor é apresentado a um “relato de amor e morte, mas nada póstumo porque tudo já estava morto: o amor, o tempo e a identidade.” Este relato trata-se de uma experiência poliafetiva, ou seja, um jovem junta-se a um casal de namorados, numa entrega movida por impulsos sexuais, narrados de forma sublimes, contidas, sem jamais extrapolar para vocabulários pejorativos, uma vez que seu estilo narrativo prima pela sutileza, puro lirismo. Doravante, é problematizada essa modalidade amorosa, através do protagonista de posse da pintura de um galo colorido, herança que insiste em avivar as lembranças do trio amoroso. Disposto em capítulos que se alternam, esse romance aborda, a priori, a construção da identidade do protagonista- o presente e o passado, a gênese, e também corresponde ao retrato fiel da contemporaneidade, no qual os relacionamentos amorosos não mais se restringem às normas do século passado. É o carácter libertário que a boa literatura proporciona. É a Trilogia do desejo dando o grito de liberdade que é desejo de todo indivíduo que se permita pensar e viver com autonomia.


sábado, 27 de agosto de 2016

Comentando "Seminário dos ratos", de Lygia Fagundes telles

Edição da Companhia das letras
   Seminário dos Ratos é um livro de Lygia Fagundes Telles lançado em 1977. Dentre algumas curiosidades acerca do lançamento dessa coletânea de contos, a autora foi entrevistada por ninguém menos que Clarice Lispector, esta, logo deu o veredicto: “já comecei a ler e me parece de ótima qualidade”. São contos extraordinários,  não raro Seminário dos Ratos consta em várias listas de “os essenciais da literatura brasileira”.
    Em Seminário dos ratos, Lygia utiliza-se de temas universais para problematizar diversas emoções e escava com afinco os mais profundos sentimentos. Não por acaso a loucura aparece em dois contos, embora por abordagens distintas o que corrobora para a pluralidade de ideias. Em “A consulta”, Lygia lança mão de certa dose de humor para narrar um episódio ocorrido num hospício. Basicamente, nesse conto, o Doutor da instituição ao verificar certa melhora num dos pacientes, pede que este o substitua, pois precisará ficar ausente por algumas horas. Justamente num dia em que a secretária faltou. Como diz o ditado “missão dada é missão cumprida”, Maximiliano,o paciente, aceita. Entretanto, uma consulta que estava marcada num horário que certamente o Doutor já haveria retornado, acaba sendo adiantada, por desespero do paciente. E o que Maximiliano faz? Adianto, sem entregar muito do conto, que após a conversa com o paciente desesperado, que a noção de loucura pode cair por terra, uma vez que, após o retorno do verdadeiro Doutor, ocorre o seguinte diálogo:
- Ótimo, Max. Você vai indo muito bem, o progresso que fez. Estou muito satisfeito.
-Eu também.
-Falta apenas o último passo, você sabe, assumir sem possibilidades de retrocesso. Então estará curado.
Maximiliano sorriu. A voz saiu mansa, num quase sussurro, “curado e fodido”. (p. 149-150)
   Já o no conto WM a loucura é apresentada de forma bem mais perturbadora. A narrativa é feita em primeira pessoa (ai desconfiança!) e abarca o núcleo familiar composto por uma mãe e um casal de irmãos, o moço é o narrador. À medida que vai desenrolando os aspectos da família e sua loucura reinante – o primeiro espaço apresentado é um consultório psiquiátrico- ao passo em que discorre sobre uma obsessão em marcar as iniciais WM em todos os lugares e sobre a dificuldade que teve em aprender escrever o W. A mãe é uma artista perfeccionista e neurótica, impacientava-se com o assédio, mas reclamava quando era ignorada. E ao que parece a loucura é tão presente em nossa vida, o quanto é fácil aprender uma letra que é apenas uma outra  ao contrário (WM). É um conto de difícil compreensão, não se pode apegar-se a uma aparente simplicidade, pois segundo o personagem- narrador: “O silêncio ajuda a abrir o intricado caminho aqui dentro por onde vou descendo até o fundo, para ajudá-la, preciso eu também descer aos infernos.” (p. 87) Portanto, muita atenção à entrelinha e a qualquer detalhe desse texto.
   Os textos mencionados acima são apenas dois de que mais gostei de Seminário dos ratos. Certamente, um conto muito conhecido é “Pomba enamorada ou uma história de amor”, onde uma jovem sofre um amor não correspondido e apela pra tudo quanto é crendice ou truque comum pra chamar a atenção do amado, um sujeito bruto e estúpido. Nessa narrativa o humor é uma constante, o que explica o destaque dado a este texto. Também as agruras da velhice, uma paixão de uma menina por um primo, a visita noturna de formigas num quarto de pensão, dentre tantos enredos excelentes, dão a tônica desse singular livro de Lygia Fagundes Telles que é encerrado pelo conto que intitula a obra.


sábado, 20 de agosto de 2016

Velho Chico

Irandhir Santos é Bento dos Anjos em Velho Chico
     No ônibus, no horário de café da empresa e até mesmo nas redes sociais e seus assuntos-mais-que-previsíveis, quase não se fala em “Velho Chico”, atual novela do horário nobre. Por que a trama não decolou? Algum engraçadinho diria “com uma lentidão daquelas, ela mal sai do chão”. Será que essa rejeição já estava anunciada quando o Sr. Benedito Rui Barbosa disse estar de saco cheio de novelas com personagens gays? Será a culpa da vilã (?) que só grita e só faz bonito com a sanfona? Bem, estou tentando entender o porquê deste “fracasso”.
    Não peguei a primeira fase de Velho Chico, mas fiquei entusiasmado, apesar das críticas negativas, com a segunda e definitiva fase, doravante a história prosseguiria até o último capítulo. Mas, ao que parece, a trama de ódio entre duas famílias, clichê Barbosiano, mal ultrapassa a audiência das novelas anteriores, respectivamente “A regra do Jogo” e “Babilônia”. O público, simplesmente, não se agradou por Velho Chico e a razão mais apontada é quanto ao ritmo da trama, que é lento. Exceto algumas cenas demasiado longas, sobretudo de extensos diálogos entre os personagens, a trama apresenta diversas situações que movimentam a história sim. E não são poucas, pois quando o foco não está na rixa entre os protagonistas, a tensão é cortada por típicos personagens como “o fofoqueiro”, papel interpretado com eficiência por Gésio Amadeu, com seu Chico Criatura, o dono do bar de Grotas, de onde todos os acontecimentos da cidade passam por lá. Seguindo nessa verve de “disse-me-disse, a personagem “Dalva”, interpretada por Mariene de Castro, sempre de olho em tudo que acontece na casa do coronel , tem seu destaque.  
   Outra razão corresponde à trilha sonora que é constituída por músicas de décadas mais que ultrapassadas, daí ecoam Caetano, Tom Zé, Alceu Valença, dentre outros. Em contrapartida, as novas caras musicais que compõem a trilha não são fenômenos de popularidade, mas nomes como Céu, Pélico, Bárbara Eugênia, etc. Quero dizer, não trazem o apelo popular caso nessa trilha, tivesse um nome do sertanejo universitário que nada mais é que um- arremedo-do-forró, ou mesmo uma “estrela” fabricada do funk. São aspectos que indicam uma obra “fora do tempo”, tendo-se em mente uma generalização de como é massa, ou de como uma grande maioria enxerga o mundo. Em suma, uma população urbana, evangélica, que se acha moderna por fazer uso de tecnologia, que se diz musicalmente eclética mas acha que só faz sucesso sertanejo e funk, ou seja, tudo que não vemos em Velho Chico. Quanto ao aspecto religioso, demasiado explorado na trama, creio ser um fator negativo ao sucesso sim, como disse, certa vez Madonna: “ religião não é amor, elas dividem, separam”... não sei se exatamente nessas palavras, mas o sentido é esse. Ao mostrar todo o misticismo das personagens, daquela região, a trama expõe uma fragmentação de pensamento religioso, uma vez que o sincretismo religioso não representa o Nordeste, mas apenas uma parte dele. Embora, seja este um dos aspectos fundamentais para uma coerência da trama, ou seja, é um marco de originalidade que no texto aparece como um resgate de traços culturais praticamente esquecidos, ou ignorados. Nos tempos extremos em que vivemos, as pessoas demonstram uma grande intolerância a diversidade, nesse sentido falo da diversidade religiosa. A urgência, a corrupção, o consumismo exacerbado leva o homem ao esgotamento de si, dai ele só ver “razão” num impossível: “Deus”, que é fabricado e limitador e opressor, porque limita o humanismo. Dai a aversão para as crendices mostradas em Velho Chico.
    Ao que parece, utilizei-me da trama para apontar um descontentamento próprio com a sociedade, erros de coerência textual? Que seja. Sinto realmente pela falta de reconhecimento por Velho Chico. Simplesmente, aprecio o resultado que vejo, seja nas belas imagens do Rio São Francisco ou dos casarios das famílias centrais da trama: a casa grande do coronel e a casa da família humilde, ambas parecem um belo quadro que não precisa de moldura de tão belo. Quanto às atuações, há performances estarrecedoras como a desenvolvida por Irandhir Santos e seu Bento dos Anjos. Seja na candura ou quando a Besta -fera toma conta dele, a entrega é total tanto nas veias que saltam ou pela entonação assertiva do intenso personagem.  O próprio coronel de alma dividida (partida?) consegue transmitir uma relação dúbia, ame ou odeie, condizente com seu personagem opressor. Também a matriarca do clã De Sá Ribeiro, de longe é uma das personagens que sustentam a trama e fazem desta uma obra digna e que reflete certa desorientação do público sedento por novelas frívolas e com vilãs impagáveis. Não posso esquecer de apontar o belo texto que abarca valores como ética, bom senso e todo o humanismo pelo qual lutam os mocinhos da trama, já que o tendencioso jornalismo da emissora... bem, aí já outra história. Não?


sábado, 30 de julho de 2016

Comentando "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres"

  Edição da coleção da Folha de São Paulo
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres é o sexto romance de Clarice Lispector e foi lançado em 1969. Essa prosa, embora não abarque a profundidade de uma G.H ou mesmo da Joana da segunda parte de Perto do coração selvagem, é constituída sob uma atmosfera pungente, mas poética também. Sua protagonista, Lóri, é uma mulher solitária que sofre com a dor de existir, ou seja, como outras “mulheres de Clarice”, Lóri, sente-se em descompasso com o mundo, com as outras pessoas, fato que pode mudar quando ela conhece Ulisses. É o início de sua aprendizagem.
A protagonista desse romance é uma das personagens mais fascinantes de Clarice, Lóri, que apesar de sofrer com sua solidão, possui algo muito forte dentro de sí que é o modo de enxergar a vida, pois é uma mulher que procura fazer parte da “coisa” vista. Desse modo, uma noite de luar proporciona-lhe um forte encantamento, até pelo motivo dela considerar-se uma pessoa lunar. Essa solidão voluntária, não faz de Lóri uma pessoa egoísta, pois sendo professora primária, ela sai um pouco da sua “dor de existir” e interage com a sociedade.  A dor de Lóri só poderá ser diminuída quando ela integrar-se à vida pelo amor de um homem: Ulisses, este, também é professor, mas de filosofia numa universidade e apesar de gostar de Lóri, percebe que ela ainda não está pronta para iniciarem um relacionamento. É quando começa o processo de aprendizagem para que Lóri esteja pronta para o amor, pois até então a própria não se considerava apta, mediante sua inadaptação aos modos de existir banalizados. Não que seja “pessoa do outro mundo” mas Lóri não se prende à uma vida comum, o que notamos, por exemplo, quando ela tenta travar contato com uma mulher na rua à espera de condução, o que faz comentando sobre a demora do ônibus e elogiando o vestido da moça, mas  quando sua interlocutora permitiu-se dar-lhe atenção,  Lóri distrai-se com as explicações:
     “Lóri não ouviu mais nada: sorria beatificada: entrara em contato com uma estranha. Interrompeu-a um pouco bruscamente mas om uma doçura de gratidão na voz:
 -Adeus. Obrigada, muito obrigada.
A moça respondeu surpreendida:
-Não quer saber do endereço da loja onde compro?
- Não precisa, obrigada. (p. 117)
As “faltas”, a inadequação de Lóri ante as coisas mais triviais são reforçadas por Ulisses, este não economiza sinceridade e aponta os defeitos da moça, embora que não seja por arrogância ou maldade, pois Ulisses nutre um amor por Lóri e permite-se esperar para que ela fique pronta para vivenciarem o amor mútuo que sentem. Nesse período, da aprendizagem, Lóri arca com a difícil tarefa de enfrentar seus temores, coisas simples, mas como trata-se de “persona” super sensível, um mero acontecimento como ir à praia, não é somente ir até lá: Lóri vai ao mar logo que o dia amanhece e entrega-se a ele numa intensidade de momento epifânico, como se se fundisse àqueles elementos naturais; como um microcosmo e o macrocosmo, expressões que também aparecem nessa narrativa tal é a imersão da personagem nos mistérios da vida.


Cabe lembrar aqui, que Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres é um romance constituído pela junção de algumas crônicas da autora, como dissera o professor Joel Rosa, especialista em Clarice, uma verdadeira colcha de retalhos. O bom é que essa concatenação resultou num dos melhores romances da autora, ideal para quem vai começar a ler a poderosa e influente Clarice Lispector.

domingo, 17 de julho de 2016

Comentando "A legião estrangeira",de Clarice Lispector

Edição de 1991:primorosos contos clariceanos
No livro de contos A legião estrangeira encontram-se alguns dos textos mais aclamados de Clarice Lispector.  A publicação desta obra data do ano de 1964, mesma época do lançamento do romance A paixão segundo G.H., motivo pelo qual, segundo apontam algumas pesquisas, A legião estrangeira teve menor repercussão nesse período, ou seja, devido o furor em torno de A paixão segundo G.H., livro considerado por muitos a sua obra-prima.
Nos textos de A legião estrangeira encontramos todos os elementos que norteiam a escritura clariceana, tais como as epifanias, por exemplo, e também é bem recorrente, quase como uma obsessão, a temática do “olhar”, o que podemos verificar no enigmático conto “O ovo e a galinha”, este, tido pela própria autora um enigma. Benedito Nunes, grande referência em assuntos clariceanos, considera “O ovo e a galinha” um exercício de meditação. No conto, a narradora tece inúmeras conjecturas existencialistas: “O ovo me vê. O ovo me idealiza? O ovo me medita? Não, o ovo apenas me vê. É isento da compreensão que fere.” (p. 47) Embora que eu esteja achando pêlo em ovo, absorvo desse texto o próprio enigma de viver; o medo do incerto futuro; a falta de autenticidade das relações humanas, esta devido ao que “vejo”, certa altura do conto a narradora-personagem diz: “ (...) ser leal não é coisa limpa, ser leal é ser desleal para com todo o resto.” (p. 52). Entretanto, este é um texto que abarca inúmeras possibilidades de análise, uma vez que ao “ver” o ovo a personagem- narradora traz à narrativa a galinha, fazendo comparações entre ambos, nas quais a galinha é sempre inferiorizada: “ O ovo é o grande sacrifício da galinha. O ovo é a cruz que a galinha carrega na vida.” (p. 48) arrisco-me a ligar pequenos fios soltos, valendo-me do fato de que em meados do século XX, época em que o conto foi escrito, a mulher não tinha emancipação, apenas o homem era o que podia mandar e desmandar, por isso, o ovo é análogo ao homem, como a galinha à mulher, pois embora o ovo seja o objeto de “meditação”, a narradora-personagem entende penosamente os sentimentos da galinha:  “Sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a sua vida, “não sei mais o que sinto,” etc. (p. 49) Não obstante, sabe até o que cacareja a galinha: “Etc., etc., etc.”

O ovo e a galinha é de uma grande estranheza, não? Pois bem, focando na palavra “estrangeira” vemos que ela também pode significar “estranho”, desconhecido, entre outras acepções. Os outros textos dessa coletânea trazem “situações” mais convencionais, por exemplo, “Macacos”,no qual uma dona de casa leva uma macaquinha para casa, para o maravilhamento de seus filhos; “Viagem a Petrópolis”, onde uma velhinha, “doce e obstinada, não parecia compreender que estava só no mundo.” (p. 57); “Uma amizade sincera”, no qual dois jovens amigos procuram avidamente comprovar sua amizade, embora bastava saber que eram amigos verdadeiros. Há também textos que evidenciam o carácter metalinguístico, por exemplo, “A quinta história”, onde a protagonista, a partir do mesmo começo, tece inúmeros desdobramentos para contar uma história: “verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.” (p. 74) Vale ressaltar que mesmo nesses referidos contos, sempre há um quê de estranhamento, em “Macacos”, após a mãe noticiar a morte da macaquinha Lisette, ela ouve do filho mais velho: “ Você parece tanto com Lisette!” em resposta: “Eu também gosto de você”. (p. 45). Vale lembrar que muitas das personagens que compõem essa “Legião estrangeira” são crianças, mas não se enganem que sejam crianças fofinhas e inocentes, no conto de abertura, por exemplo, a protagonista é uma aluna esperta e petulante e vive a pirraçar o professor. No entanto, o melhor exemplo de que as crianças não sejam tão inocentes está no conto que intitula a coletânea, sim, o conto “A legião estrangeira” é mais um texto clariceano que tira o leitor do prumo à medida que o olhar e a percepção apurada das personagens servem de espinha dorsal da narrativa. 

domingo, 3 de julho de 2016

Comentando, "Onde estivestes de noite", de Clarice Lispector

Recente edição da Editora Rocco
Onde estivestes de noite é um livro de contos de Clarice Lispector publicado em 1974, ano de publicação do ousado e menosprezado A Via Crucis do corpo. Ambas as coletâneas possuem em comum o estilo mais simples e direto na construção das narrativas, bem como as temáticas do desejo sexual na velhice, dentre outros aspectos, como o reaproveitamento de textos publicados em outras obras, com alterações no título, por exemplo, método que sugeria a urgência que Clarice tinha em escrever para garantir sua sobrevivência. Seria isso uma “manigança”? Como a exemplo do texto “As maniganças de Dona Frosina”?
Um dos aspectos mais observados em Onde estivestes de noite é quanto a sua heterogeneidade: os dois primeiros contos lembram a estrutura dos aclamados contos de Laços de família e A legião estrangeira, diferem pelo agudo mergulho na temática da velhice, o desalento e anonimato aos quais são arrastadas as personagens Sra. Jorge B. Xavier no conto A procura de uma dignidade, que tinha desejos despudorados pelo cantor Roberto Carlos e Dona Maria Rita, no conto A partida do trem, esta, sentia-se um estorvo para sua família: “Sou como um embrulho que se entrega de mão em mão.” (p. 21) Além do fato de tais personagens serem descritas de modo abjeto, através de aspectos grotescos: a Sra Jorge. B. Xavier, num dado momento do conto, vê-se de quatro comparando-se a uma cadela; Dona Maria Rita possuía uma verruga no queixo de onde saía um pelo preto e espetado, ou mesmo quando sorria evidenciando sua “areada” dentadura. “O relatório da coisa” é um conto no estilo de “O ovo e a galinha” embora, com ritmo mais lento.
Onde estivestes de noite, o conto homônimo, é antecedido por quatro epígrafes, e o  que podemos esperar de um texto que se inicia com “A noite era uma possibilidade excepcional.”?  Sob a pena de Clarice Lispector, espera-se tudo. Menos a obviedade das coisas. Então, é sob uma atmosfera onírica que o leitor adentra nesse texto, no qual uma personagem andrógina, “Ele-ela” ou “Ela-ele” lidera uma subida à montanha onde coisas impensáveis acontecem, uma vez suspensa as regras do Dia, pois a noite abriam-lhes todas as possibilidades. “E não havia repressão: livres!” (p. 45) Essa liberdade aparece na aparente desestrutura do texto, ora a narrativa aborda as “maldições” ocorridas sob o comando de “Ele-ela” ou “Ela-ele”, ora são descritos personagens na luz do dia, com suas obrigações e sentimentos comuns. Aliás, nesse conto, onde prevalece a lógica do sonho, aparecem citações de Goethe, anúncios de rádio e até Cristovão Colombo dá o ar da graça!

Passada a vertigem, o susto ocasionado pela criatividade insana de Clarice em escrever textos tal o conto homônimo, os contos seguintes apontam uma calmaria, a busca pelo “estado de graça” ou mesmo, em alguns casos parecem mais crônicas, vide o texto “Uma tarde plena” ou mesmo “o morto no mar da Urca”, neste, a narradora- personagem recebe a notícia da morte de um homem por afogamento e faz um paralelo ao seu momento presente, em que estar a provar um vestido na costureira. Aliás, o que ocorre é que ao provar o vestido recebeu a trágica notícia, fato que modificou uma simples ida à Urca pra provar o vestido, pois a remeteu a reflexões sobre a morte. Este e todos os textos do volume, configuram a força que a literatura clariciana, feita nos últimos anos de sua vida possui. Podem ser escritos “na ponta dos dedos”, como relembra Vilma Arêas, porém longe de serem menos relevantes. Onde estivestes de noite é tão forte literatura, que alguns pesquisadores, leitores de Clarice, desvencilharam-se, do culto às obras aclamadas da autora, optando por pesquisarem sobre àquelas consideradas menores, Onde estivestes de noite, foi objeto de um primoroso estudo de Joel Rosa de Almeida, cuja pesquisa intitula-se: A experimentação do grotesco em Clarice lispector.