domingo, 12 de junho de 2016

Comentando "Antes do Baile Verde"

Edição recente da coletânea
      Antes do Baile Verde figura entre as principais obras de Lygia fagundes Telles. Na coletânea de contos, o leitor é apresentado a uma gama de personagens diversos que vão do motorista de caminhão a músicos, estes, incluindo saxofonistas e cantoras de óperas, dentre tantos outros tipos comuns como casais de namorados em crise, ou mesmo familiares em conflito.
Os contos de Lygia aparentemente soam simples, apesar da sofisticação da autora que já introduz o leitor na atmosfera do texto, ou seja, esqueça uma introdução comum ao que se espera da contação de estória. Assim como Clarice Lispector, entender, pegar a linguagem de Lygia requer a releitura do texto. Os conflitos humanos são comuns, entretanto sob a "pena" da escritora toma dimensões impensáveis, as mais surpreendentes. Talvez pela disfarçada sondagem psicológica de algumas personagens, que por vezes são apresentadas em forma de obsessão, como no conto A janela, texto onde uma personagem, inserida num quarto fita a janela e, num tom  obscuro, rememora um passado onde avistava-se uma roseira daquela janela. Insere-se ai, um quê de suspense, um homem "estranho" parecendo evocar um luto e sua interlocutora, a dona do quarto, a agir com naturalidade. Esse suspense é narrado com a maestria característica da autora que termina o conto de modo coerente com o restante da narrativa, aliás, esta é só uma das opções de terminar bem um conto. Também nos textos com finais em aberto, por exemplo, o conto que nomeia a coletânea, o resultado é mais instigante ainda, meio que cinematográfico, pois imediatamente ao terminar a leitura do conto, visualizei (involuntariamente) as lantejoulas rolando pela escada. Que poder literário tem Lygia!
Bem, já que falei do conto, Antes do Baile Verde, acrescentando mais sobre o mesmo, ressalto que foi um dos textos premiados da autora. Basicamente, temos uma patroa com sua empregada envoltas com os preparativos da fantasia que Tatisa, a patroa, usará no baile verde de carnaval. Aliás, a patroa é uma moça mimada, fútil, o que se percebe no fato de ficar a toda hora acelerando Lu, sua empregada, para que termine com a fantasia. O pior, é que no quarto ao lado está o pai de Tatisa agonizando. Motivo que eleva a tensão no (do) conto a proporções insanas. Tatisa não quer perder o baile por nada, tenta convencer sua empregada a passar a noite com o pai, mas até onde vai seu direito de patroa? E o amor filial? Não teria, sua empregada, o mesmo direito de ir ao baile? Há horas em que Tatisa expõe sua arrogância, dirigindo-se à empregada: "Ih, como é difícil conversar com gente ignorante." Em suma, o conto abarca questões tanto sociais quanto psicológicas, tendo em vista o ethos das personagens, a patroa soberba e a empregada vulgar, esta que bebia cerveja e tinha um namorado de nome Raimundo.
Seria tarefa difícil escolher quais os melhores contos de Antes do Baile Verde, todo texto de Lygia exerce tamanho fascínio, ou seja, sua criatividade emana da entrelinha, da aparente banalidade descrita que descamba para um segredo maior, em alguns casos para enredos fatais, sombrios como por exemplo, "Venha Ver o Pôr do Sol, conto no qual evoca um Edgar Allan Poe sem igual. Outros textos abarcam o alento, ao qual a maioria dos indivíduos se agarram para prosseguir ante os infortúnios e as incertezas, como em Natal na Barca, texto pungente também, e inquietante. Não é a toa que Lygia figura ao lado de Clarice, Hilda Hilst, dentre outras grandes escritoras brasileiras.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Impressões sobre Gigantes- Cinco amigos. Uma história.

Gigantes: obra lançada em 2015
A frequente curiosidade para conferir o que acontece no cenário da literatura contemporânea brasileira levou-me á leitura de Gigantes - cinco amigos, uma história, da autoria de Pedro Henrique Neschling. Uma boa novidade, considerando meu desconhecimento da investida de Pedro nesse viés artístico. Trata-se de uma narrativa fluida, de estilo simples uma vez que assumindo as perspectivas das personagens, deflagrando os vários acontecimentos, os objetivos e ilusões que se passam por volta de uma década, sua linguagem é calcada tendo em vista cada uma das cinco personagens principais.
O título, Gigantes, é uma alusão ao sonho de todo indivíduo que idealiza, busca a realização de seus grandes objetivos, o que é comum no término da vida escolar, onde temos que decidir que faculdade fazer, em que investir, o que fazer a partir de então? São cinco amigos de escola que, após a festa de formatura, dispersam-se, seja por questões de ideais diferentes ou por motivo de deslizes, como a separação do casal Fernando e Duda, o que nos é conhecido logo no início do romance, quando Lipe, fiel amigo de Duda, delata a traição de Fernando, este, um aspirante a uma brilhante carreira no cinema. Doravante, é quando se concentra em Fernando, personagem culto, com seu cacoete coçando o braço, que a narrativa denota força e não sucumbe ao melodrama comum. Apesar de personagens descontraídos, como Zidane; românticos e certinhos, como Duda e o amigo Lipe, é em Fernando com sua percepção apurada da realidade, seu gosto pela arte, que observamos a inquietação do indivíduo do nosso conturbado tempo. Outro aspecto positivo, de quando a narrativa concentra-se em Fernando, é que é através desse personagem que vemos o "glamour" do mundo das celebridades cair por terra, ou melhor, tudo se mostra fútil, superficial, caem as máscaras, Fernando incomoda-se pelo fato de algumas celebridades cumprimentarem apenas com um "oi", como se todos tivessem a obrigação de conhecer-lhes. Aliás, adentrando e convivendo com o meio artístico, depara-se com disparates como a pretensão de alguns atores que deturpam uma obra canônica, além de não primarem pela arte, mas pelo lucro.
       Outra personagem interessante de Gigantes, é Camila, o pivô da separação do casal Duda e Fernando.
 Camila é a fome de viver, o destemor, mesmo que por vezes beire a inconsequência. Nem boa, nem má, perfeitinha? jamais. Camila não deixa passar oportunidades, mas sabe até onde ir com suas atitudes. Cruzando oceanos, experimentando sabores, cheiros diversos, Camila foi até Portugal, um lugar "gira" na expressão da terrinha e lá despertou para outros desejos que até então não tinha experimentado, lá conhece uma paixão pra lá de tórrida. Além do fato da narrativa trabalhar as questões linguísticas, ou seja, lança mão, em algumas passagens, do português falado em Portugal e dá-lhe ênclises, como nas declarações, "amo-te, miúda". Claro que nem tudo são flores nos caminhos de Camila, fortes acontecimentos durante sua morada em Portugal, exigirão muita determinação de sua parte. E mais uma vez ela trará á tona sua fortaleza.
Gigantes, consiste numa narrativa ágil, as peripécias são alternadas, de modo que são deflagradas acontecimentos relevantes na vida dos cinco personagens, mesmo que ambos pouco se cruzem depois da formatura. Outro ponto assertivo da narrativa de pedro Henrique Neschling, são os finais dos capítulos, sempre apontando para uma resolução do impasse contado. Doravante, nas vivências de Lipe, que aguenta chiliques de seu chefe e seu "sutil" bordão, é chegada a hora em que o belo e recatado mocinho ( do lar?) manda um, mesmo em pensamento, "meu cú", após uma insólita situação. O aspecto estético, referente ao término do capítulo, sugere que Neschling domina, também, a escrita do conto. Gigantes, é uma narrativa envolvente. o recorte de drama das personagens, as pitadas de leveza, sarcasmo denotam a construção de uma prosa segura e que chegou no cenário literário no momento certo.

sábado, 28 de maio de 2016

Rainha

Elza Soares: cantando até o fim
Criei uma certa expectativa para esse show, tinha ouvido e gostado do álbum que a artista estava divulgando shows a fora. Isso sem contar o quão aclamado fora em seu lançamento, algo como uma obra que já nasce clássica, sem mais delongas, falo de "A mulher do fim do mundo", da Elza Soares. Em pensar que anos atrás desperdicei o convite para vê-la cantar... foi preciso um álbum "porrada" para Elza entrar em minha vida.
O show era gratuito, óbvio que um proletário f****** feito eu, só vou mesmo nessas condições, sem reclamar por ficar em pé mais de uma hora na fila para pegar o ingresso. Fico sim, lindíssimo! Sim, as companhias para o show eram as melhores. Foram dois casais e eu de abajur, apagado, mas eles possuem bom senso na medida certa para considerar minha dispensável presença, pois sou mesmo anti-social, demonstro zero de simpatia e envolvimento. Talvez por não dispor das sensações que todos tem, em suma, apático.Outrora, um primo sentenciou: "tú não és uma pessoa divertida." Bem, houve algo com que  não contava: logo ao chegarmos ao local do show, a banda estava fazendo a passagem de som, em questão de minutos adentra a caminho do palco a cantora numa cadeira de rodas, eu que até então estava fora de órbita, senti um abatimento, calafrio, enfim... indagava o quão sofrível que seriam as viagens, o trabalho de cantar por horas, para quê? Invadiu-me a Ana do conto "Amor", da Clarice Lispector, que teve um abalo em sua rotina ao se deparar com um cego mascando chiclete. Pois, teria-me esquecido que existiam cadeirantes? Fiquei ofegante... precisava ela provar pela milionésima vez seu talento? Sabia vagamente que Ela tinha um insano histórico de superação, mas nessas circunstâncias, ter de cantar sentada... imaginei um tormento gigante, eu não sabia que era Ela "A mulher do fim do mundo". E era, segundo os idealizadores desse projeto. 
Abre-se a porta para o público receber o show. Fãs mais fervorosos fincam-se ao pé do palco, meus amigos acomodam-se a um canto mais reservado, atentando para meu desprovimento de altura, eu disse, "sem problemas" (não tem mesmo) e começa o anseio para a Diva entrar com o conceitual e denso "A mulher do fim do mundo". Aplausos eufóricos, arrepiei-me todo e não foi de piedade, ao contrário, aquela que vi passar de cadeira de rodas e depois levada por duas pessoas ao palco, que me transmitiu um penar intolerável, agora emergiu noutra cadeira, a do palco. Não uma simples cadeira, era seu trono. Sim, pois o visual imponente com cabeleira roxa armada, maquiagem forte como sua própria expressão, um longo que arrastava-se pelo chão... e a voz, que de longínquas décadas pouco desgastou-se, fez-na assumir seu posto de Rainha. Não uma rainha de um reino com mínimos problemas, mas a rainha que canta o caos, as últimas consequências. "A mulher do fim do mundo" canta com um potente grave o que a natureza humana é capaz de fazer no mundo. Dai a violência contra a mulher, de Maria da vila Matilde; a destruição, na apocalíptica Luz vermelha; a questão de gênero é tematizada em Benedita. São faixas que passeiam pelo rock, samba, pitadas de tango, eletrônico e afins. Tudo fruto da empreitada de músicos paulistas com a cantora carioca, que é, até onde suas forças permitir, "A mulher do fim do mundo". 
O show foi insano, amigos e eu inebriados conduzidos pela banda e pela Rainha que entre uma música e outra pedia" barulho" e mandava beijinhos. E atenta ao frágil momento político pelo qual passa o país, não titubeou e alertou assertivamente a plateia, além de dar rápidas explicações sobre algumas faixas desse excelente trabalho que é "A mulher do fim do mundo." Na faixa homônima, Elza pede que a deixem cantar até o fim. Ainda bem.

domingo, 10 de janeiro de 2016

Educar do começo

Capa da 1° edição do livro de Muniz Dias
Muito se tem falado em discurso de ódio, sobre veículos informativos carregados de sensacionalismo, em fascismo, dentre outros fatores que vão contra a liberdade individual, contra os ideais de humanismo pelo qual a educação ou algumas religiões, vide o Budismo, lutam há séculos e mais séculos num incessante e árduo combate, visto a própria complexidade do ser humano. Por mais avanços que a humanidade consiga, em diversas áreas, as chagas do machismo, da corrupção, da inexistência de um Estado laico de fato, constituem uma forte barreira contra a dignidade do indivíduo que esteja fora dos padrões pré-estabelecidos. Como é fato que tudo esbarra na esfera educativa, sobretudo no déficit educacional, alguns pesquisadores e literatos criaram projetos visando o combate ao preconceito, sobretudo, o ligado a questão de gênero que é um dos mais sensíveis de se enfrentar devido ao despreparo das famílias e de alguns educadores em trabalhar tal questão.
O escritor Roberto Muniz Dias, comprometido não apenas com o fazer literário, mas com a luta por uma educação mais inclusiva e eficiente, levantou uma pesquisa sobre como alguns discursos são disseminados na sociedade, desde a mais tenra idade, isto é, seu trabalho analisa as ideologias transmitidas nos contos de fadas, desde séculos de transmissão incontestes, como se não houvesse os avanços da humanidade ou não levassem em conta o comportamento de outras espécies animais. Os objetos de sua pesquisa correspondem a um contraponto ao conto de fada tradicional, não no que tange ao formato, mas no que diz respeito às ideologias que pretendem ser desconstruídas: são os livros King and King (de Linda de Haan e Stern Nijland) e “And Tango makes three” (de Just Richardson e Peter Parnell). O primeiro narra a estória de um príncipe, desenhado pelos autores com certa afetação, que se casa com um príncipe, irmão de uma das princesas que pretendiam desposá-lo. Já “And Tango makes three” narra o caso verídico de dois pinguins machos que, estando sempre juntos em todas as atividades, tentam chocar um ovo, (na verdade, era uma pedra), fato observado pelo cuidador do zoológico este, comovido, colocou um ovo abandonado por um casal de pinguins à disposição deles.
A apurada pesquisa de Muniz Dias resultou no livro "O príncipe, o mocinho ou o herói podem ser gays", trabalho que na esteira de obras como King and King constituem numa ruptura ao conto de fada tradicional, uma vez que os clássicos como, João e o pé de feijão, Chapeuzinho vermelho, etc, abarcam somente, do ponto de vista discursivo, os aspectos biológicos da natureza humana, ou seja, repassam ideais do que se esperava outrora (épocas de origem dos contos de fadas tradicionais) do homem e da mulher. Do homem se esperava bravura, domínio, etc, da mulher a delicadeza e a submissão ao homem. Ao longo da história os discursos vão sendo redefinidos, por exemplo: as mulheres lutaram pela emancipação; homossexuais lutam por direitos iguais, assim como os negros lutam para apagar resquícios do passado escravagista. A escalada humana é isso, um desbravamento de potencial tendo em vista a própria dignidade do individuo em conjunto aos demais. Se a sociedade é cada vez mais pluralizada é devido à luta do homem em sua redefinição ou adequação ao meio que o circunda. Não é uma negação de aspectos biológicos, apenas um olhar para além de suas possibilidades, que não se restringem ao termo binário macho e fêmea.
A obra em questão “O príncipe, o mocinho ou o herói podem ser gays” vai ao encontro das propostas de ensino construtivistas, isto é, que trabalham a realidade das crianças e jovens. É sabido que os núcleos familiares são alternativos, há a família tradicional, constituída pelo pai e a mãe, como também, há  filhos de casais divorciados, filhos de relacionamentos homoafetivos e está mais que provado que isso não é obstáculo para que os filhos cresçam saudáveis e se tornem futuros cidadãos promissores. Cabe às entidades educativas apropriar-se de metodologias que abarcam as ideologias dessa sociedade pluralizada, não mais os ideais retrógrados que ferem as conquistas pós-modernas. Afinal, como consta no prefácio do livro, feito por Adailson Moreira: “A criança não possui preconceitos. Ela ainda está formando seus conceitos. Nada é pré. Pode ser ensinada a respeitar a diversidade e conviver com a diferença, o que quase sempre, faz muito bem, ainda que do seu jeito” A fala do psicólogo e professor é um alerta para os atos de bullying, tão comuns na fase infanto-juvenil. Dai a importância de obras como a de Muniz Dias na construção de uma sociedade menos preconceituosa, tendo por base a esfera educacional.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

O amor em tempos de guerra

A obra em sua 2° edição
Marcelino Freire é um dos escritores mais notáveis da atualidade. Vencedor de prêmio Jabuti; organizador da balada literária; dono de um estilo o qual alguns chamam de “transgressor”, enfim, tendo em vista a obra Amar é crime, torna-se notório a importância de sua escrita no cenário da literatura brasileira, uma vez que sua obra agrupa-se, devido à temática, ora  à literatura queer, ora  à literatura de denúncia social, ou ambas citadas.
A marginalidade, o abjeto, o profano, são matéria prima farta na prosa freiriana. Marcelino traz a voz das periferias das grandes cidades. Locus “preferido” dos crimes sejam passionais, ou de outra ordem. O conto “crime” se encarrega disso, aliás, bem mais que isso: a personagem desse texto relata à mãe um plano mirabolante para se vingar da namorada. Num ritmo frenético, onde discorre sobre as atrocidades que faria com a refém, sua namorada, o plano vai se tornando cada vez mais ambicioso à medida que a visibilidade deste aumenta, ou seja, com a chegada de vizinhos, parentes e finalmente, tomando conta dos principais noticiários do país: “(...) mãe, eu vou ficar famoso, vem o SBT, a Record, a Rede Globo, a polícia no meio do esgoto, no megafone, me chamando, Roni, Roni, Roni, rá, aqui é o capitão...” (p.57) Lançando mão da oralidade, característica da prosa freiriana, “Crime” abarca o aspecto provocativo de Marcelino, seja visando os aspectos linguísticos, oralidade, humor corrosivo, etc, seja pelo enredo surpreender: no referido conto a personagem decide expor, a partir do seu crime a calamidade na qual se encontram os marginalizados pela sociedade: “ (...) eu vou aproveitar todo o acontecimento pra falar da sacanagem, da falta de educação, de saneamento, do desmoronamento, da chuva quando vem e molha e engole o povo... eu quero que o governador apareça,...” (p.57) No entanto, a imprevisibilidade narrativa, outra marca de Marcelino, ainda reserva “sarcásticas” surpresas ao final de “Crime”, é ler pra amar, digo pra crê.


As personagens de Amar é crime são, em sua maioria, o negro marginalizado, o homossexual, a travesti, a garota de programa, etc. A ritmada prosa freiriana, encarrega-se de dar a voz aqueles a quem a sociedade (outrora?) deu as costas. Por isso a urgência em que são apresentadas; devido à opressão, os sentimentos são defendidos com unhas e dentes, posto que “amar” não chega ao entendimento de muitos, o que acarreta no combate: o crime, a desordem, posto que amar é superar as mazelas do próprio indivíduo, da mesquinhez humana. Aliás, esses textos acabam por soar irônicos: como amar em meio ao caos dos nossos dias? Amar é crime, configura um fiel retrato do nosso conturbado tempo. Mas nem tudo está perdido, é preciso olhar para as margens, para aqueles que buscam o mínimo que uma vida digna possa oferecer. Eis, em Amar é crime, uma literatura não só de entretenimento, mas de denúncia e quiçá, de esperança. 

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Geagá

Ela estava enfim de férias! Os últimos meses na loja de utilidades domésticas no Pari foram muito cansativos. Muito caroço até pra comprar “tapué”. Era assim mesmo que as clientes falavam. Ela também, quando começara a trabalhar naquele “paraíso do lar”. Gonçala não parava de pensar no recibo de férias: “período de gozo de 24 de dezembro a 25 de janeiro”. Era a felicidade de qualquer cidadão da classe F, de fudido. Como ela estava em êxtase... ia aproveitar as festas de final de ano e ganhar umas gramas. Só nessa época visitava seus parentes, estes, enevoados pelo espírito de confraternização, esqueciam as palavras ditas no decorrer do ano: “ela só procura a gente quando tá precisando”. “Mas com Gonçala, nunca se sabe... ela parece que vive num mundo a parte”. Até isso ela teve que ouvir.
Na sua mente ecoava o mantra: “período de gozo de 24 de dezembro a 25 de janeiro”. Ia lá gozar coisa nenhuma! O corpo que não lhe  venha com essas danações! Ia era purificar o espírito, focalizando suas energias apenas para o que realmente lhe proporcionasse avanço. Como ser humano mesmo. Ela que ultimamente andava à deriva de todos. Via as tragédias na TV e sequer mudava as expressões do rosto. Não era má, mas a vida se mostrava tão injusta que Gonçala ficara apática, muda. Como naquela música: “e não há razão que me governe... eu tou exatamente onde eu devia estar”. Não mais isso, tinha certeza que Pitty não era aquilo que entoava. Ia se reciclar. Era o tempo ideal. Mas por onde começar? Por um instante percebeu, que estava repetindo hábitos de quando estava de folga. O que acontece? Parou por segundos, olhou-se no espelho, concluiu: a casa está imunda! Como pôde se tranquilizar num lar apagado, sem sinal de polidez? É certo que tirava o pó dos móveis, utilizava uma imitação de Veja multiuso, etc, mas algumas teias de aranha saltavam-lhe à vista. E um amontoado de papeis, causara-lhe certo incômodo, tantas coisas, acabavam por lhe tirar seus traços pessoais. Tinha que começar.
O primeiro passo era pôr algo pra tocar, foi até o porta-CD e tomou um susto com a quantidade de discos. Qual escolher? Spice Girls lhe remontaria a infância e também ela se empolgaria na sua imensa tendência à distração. Rodopiaria a casa inteira, porque lhe baixaria a Mel B., sua preferida. “tempere a sua vida” era o refrão chiclete. Não, fizesse isso e quando terminaria a faxina? Olhou o do Ney, mas  a voz dele dilacerava sua alma. Se é que ainda tinha uma... acabou escolhendo Ray of light, da Madonna, o seu ideal de ser humano. Ideal inatingível, diga-se de passagem, um amor platônico. Nunca que alguém nas condições precárias de Gonçala, em sua pequenez existencial, iria alcançar até os próximos mil anos, a condição elevada de Madonna. Never! Mas se esse era seu karma, o que se há de fazer? Tinha era que restaurar a clareza de sua casa, começando pelo seu quarto, um antro de papéis sem nenhuma utilidade. Com exceção dos livros, claro. Mesmo sendo comprados num sebo, eram o seu maior tesouro. Da estante voaram cartões de natal, fotos de ex-namorados, contas de séculos atrás, atestados médicos... por que amontoara tudo isso? Dinheiro? Uma peça de porcelana chinesa servia de cofrinho para as moedas, era seu consolo, pensou: como sou lascada! E já estou com 35 anos e essa vida de parcos recursos... todas, as suas amigas tinham casa própria e carro na garagem. Não, melhor seria não pensar e prosseguir limpando. Afinal, ela não era a G.H., não podia se dar ao luxo de viajar pra dentro de sí. Até porque, ao contrário daquela, seu quarto precisava mesmo da faxina. E Gonçala não tinha muito em que pensar de sí, além de sua pobreza extrema. Quem era Gonçala na fila do pão? A resposta era: um quarto, uma cozinha e um banheiro para deixar brilhando. Não era porque morava numa quitinete do Cambuci, que era obrigada a se consumir na poeira. Trabalha porra! Era assim que baixaria-lhe a Neide e aconteceria a precisada faxina.


Só parava poucas vezes pra bebericar um café e fumar um cigarro, Minister. Lembrou-se, da colega da loja que advertira: “tú trabalha aqui no Pari, remediada que é, e fuma esse cigarro de pedreiro? Já imaginou estando na balada e alguém te pede um cigarro e tú disponibiliza um cigarro de quinta?” Gonçala perdera a linha, óbvio. Mandou um, vá se fuder que ela fuma o cigarro que ela quiser... ela não conhecia essas coisas de sutileza. Mas, enfim, a faxina pesada era o primeiro passo para se livrar não só do amontoado de inutilidades e poeira. Como sabe-se, ela não iria gozar de prazeres carnais ou momentos frívolos após o natal e a virada. Iria passar seu “projeto de vida” a limpo até chegar num estado de “tem de ser por aqui que irei”. Ao chegar à cozinha, areou as panelas, limpou toda a geladeira que só tinha Pepsi, deixou o fogão um brinco e lavou o banheiro. Chegara ao fim a faxina. Estando só pó da rabiola, seja lá oque significa rabiola, foi enfim tomar seu banho. Olhou-se, nua no espelho: era outra. Pálida, pensou: “ quando irei à Praia Grande?”

domingo, 20 de dezembro de 2015

Clarice Lispector e a temática homossexual

Edição mais recente da coletânea 
Quando se fala em Clarice Lispector, as primeiras obras que nos vem à cabeça são: A Paixão segundo G.H. e A hora da estrela. Há também as citações atribuídas a ela nas redes sociais, além das várias maneiras de enquadrarem, rotularem sua literatura, ou seja, a fortuna crítica é imensa, uma vez que, sua obra abrange tantos questionamentos, tanto no que diz respeito aos temas, quanto ao formato em que são construídas as narrativas. No entanto, ouso apontar um aspecto de sua prosa pouco explorado: a temática homossexual. Sim, no livro de contos A via crucis do corpo, Clarice Lispector não só flerta com o tema, mas descamba abertamente para o que se pode denominar “literatura gay”.
Redundante lembrar que Clarice Lispector, quando se é “ela mesma” é aquela escritora voltada para questões metafísicas, espirituais,etc e justamente A via crucis do corpo é o contraponto disso. Escrito por encomenda, numa época em que a autora passava por dificuldades financeiras em 1974. Ao seu lançamento? Um desastre! Críticos literários, acostumados com a Clarice que priorizava a sondagem psicológica das personagens, não engoliram uma obra que abordava personagens com atitudes “grotescas”, por exemplo: senhoras octogenárias com desejos sexuais, mulheres e gays disputando o mesmo homem, moças seduzidas por extra-terrestres,  etc. Especificamente em dois contos, o enredo gira em torno de personagens homossexuais: “Ele me bebeu” e Praça Mauá, mas já no segundo conto do volume há o flerte pela temática, em “O corpo” somos apresentados a um triângulo amoroso composto por um homem e suas duas mulheres, sendo que “Às vezes as duas se deitavam na cama. Longo era o dia. E, apesar de não serem homossexuais, se excitavam uma à outra e faziam amor. Amor triste.” (p. 23)  
A aderência a temas que retratam de alguma forma o universo homoafetivo é estruturada por meio de uma linguagem direta, Clarice vai direto ao ponto, ou seja, apresenta as personagens em seus aspectos corporais “grotescos” pelo modo como estes são reforçados e também lança mão de um jogo de “mostra-esconde” dai temos em “Ele me bebeu” Aurélia Nascimento ostentando uma beleza (máscara) que na verdade esconde sua “vazia” personalidade; Serjoca, que era maquilador de mulheres. “Mas não queria nada com mulheres. Queria homens.” (p. 41) Ambos são amigos e ficam interessados pelo mesmo homem. À medida que Aurélia é maquilada por Serjoca, essa sente como se aquele estivesse “tirando o rosto”. “A impressão era a de que ele apagava os seus traços: vazia, uma cara só de carne. Carne morena.” (p.43) Serjoca, apresenta-se com  naturalidade, com sua falta de maneira com os talheres e também, como uma personagem determinada, que sabe a hora de agir, o que explica o silêncio inicial ao conhecer Afonso, o rico industrial, para só passado as apresentações, depois “falar que não acabava mais”, Serjoca “lançava olhos lânguidos para o industrial”. (p.43). Desnecessário revelar que Aurélia fora preterida pelo industrial, o mais importante é o desfecho que reservara pra ela o resgate de sua identidade, sem maquilagem ou adereços que complementem os seus  atributos.
Bem mais contundente que “Ele me bebeu” é o conto “Praça Mauá”. Novamente, tematiza a rivalidade entre uma mulher e um homossexual, porém as questões de gêneros são mais problematizadas. Com muito humor, claro! Períodos curtos, discurso paródico, estamos diante de um dos trabalhos mais híbridos de Clarice: a coletânea de contos e crônicas A via crucis do corpo. Bem, Praça Mauá apresenta personagens em perfis “enganadores”: Luísa, uma dona de casa, totalmente alheia aos cuidados com o lar, que transformava-se em Carla, dançarina de cabaré. Esta, era amiga de Celcinho, que era de família nobre ,mas na verdade assumira-se em Moleirão, travesti de sucesso do cabaré onde Luísa/ Carla trabalhava. A questão do feminino, do papel da mulher na sociedade é problematizada nesse formidável conto: Luísa não desempenhava tarefas do lar, realizava-se no cabaré Erótica, já Moleirão/Celcinho, trabalhava no Erótica, mas desempenhava tarefas domésticas com êxito. Tanto que adotara uma meninazinha de quatro anos. “Era-lhe uma verdadeira mãe. Dormia pouco para cuidar da menina. A esta não faltava nada: tinha tudo do bom e do melhor. E uma babá portuguesa.” (p.63) Mesmo, com essa inversão de papéis, fica evidente na narrativa, o quanto a mulher precisava evoluir na esfera social. Ser mulher, na figura de Celcinho/Moleirão era desempenhar o papel de mãe e dona de casa. Até mesmo pra sua filha adotiva “Celcinho queria para Claretinha um futuro brilhante: casamento com homem de fortuna, filhos, joias.” (p.63) Esse embate entre “ser” mulher ou apenas “parecer” chega ao clímax quando Carla é chamada para dançar por “um homem alto e de ombros largos”. Este também deixou Celcinho atraído, ele “roeu-se de inveja”. “Era vingativo.” Carla, lançou a deixa:
- É tão bom dançar com um homem de verdade.
Celcinho pulou:
-Mas você não é mulher de verdade!
(...)
-Você, vociferou Celcinho, não é mulher coisa alguma! Nem ao menos sabe estalar um ovo! E eu sei! Eu sei! Eu sei!
Celcinho atingiu o ponto fraco de Luísa/Carla, deixou-a desnorteada, fazendo-a se sentir como “a mais vagabunda das prostitutas”. Segundo a narradora do conto, Celcinho era mesmo mais mulher que Carla. Ressalto que esse não é necessariamente o desfecho da narrativa, este, fica em aberto. Não devemos esquecer que trata-se da pena de Clarice Lispector e nada é tão simples como parece ser. Bem, esqueci de relatar detalhes importantes, como o que Celcinho, era adorado pelos marinheiros da praça Mauá, mas  fazia carão. “Só cedia em última instância”. E também que este, era econômico, pois “tinha muito medo de envelhecer e ficar ao desamparo. E mesmo porque travesti velho era uma tristeza.” (p. 62)
Incomoda-me que poucos conheçam essa maravilhosa obra, “A via crucis do corpo”, nunca um módico volume de contos e crônicas me proporcionaram momentos de alegria, reflexão, tristeza, etc, como essa coletânea onde o belo e o feio, o frívolo e o permanente duelam o mesmo corpo textual, os impulsos da carne que refletem na alma. E claro, sem falar nas personagens homossexuais, com personalidade pra dar e vender. Como disse-me um amigo: “as bibas da Clarice são terríveis!”