terça-feira, 22 de setembro de 2015

Devaneios e paetês

Ele tinha um amigo que era tudo, ou melhor, queria ser tudo num tempo onde mal levantamos e logo vamos dormir com a sensação de que não cumprimos todas as obrigações.Seria carência? não,ele era um sonhador, mas com os olhos para a realidade mesmo. Então Luc era cabelereiro, maquiador,Dj de funk, diarista, designer gráfico e, sua face mais real,  seu verdadeiro talento: drag queen, atuando sob o alter ego: Luc Divine.
Caprichoso e cheio de manias (frescuras mesmo) Luc Divine ficava irreconhecível caracterizado. Em nada lembrava o mocinho de jeans e tênis que fazia as sobrancelhas das tiazinhas no salão Deusa da Penha. Casa de ferreiro, espeto de... kit de maquiagens, perucas da Vinte cinco de março, cosméticos da Mary key, fragrâncias da Victoria secrets... tá meu bem? a gente é pobre, da periferia ,mas nóis pode parcelar pra ter esses luxo. A casa de Luc mal cabia seu arsenal de montaria, digo os assessórios de beleza, em sua maioria, para o uso dele mesmo, ou dela, uma vez que o maior sonho de Luc era ser ninguém menos que a Madonna. Ele sequer pensara que uma Madonna só vem ao mundo a cada dois milênios, de acordo com o empirismo nosso de cada dia. Bem, ele (a) tinha esses devaneios vez em quando, o que não o impedia de ar-ra-sar quando se montava para performar diviníssima, como naquela festa baphonica em que ela ofuscara todos que lá estavam . As outras drags não sabiam se elogiavam ou atiravam-lhe o salto na cara de Luc, tamanho era o brilho e carão que ostentou na festa pós Gay Parade Piracuruca. Isso mesmo, além do mais ela se montou na terrinha, pois há tempos a cultura gay extrapolou o circuito Rio - São Paulo e como disse aquela gay da internet: Bicha bunita não se esconde.
Apesar do talento, a carreira de drag ainda não mostrou progressos para Luc, numa certa performance, para a qual ela ensaiara exaustivamente, um amigo seu ficara encarregado de filmar seu show. "Vai ser um arraso a filmagem" ela dizia. "Duda é inteligente." Uma pena Duda e as coisas práticas da vida não se darem bem. Preguiça pura, ele é uma pessoa totalmente contemplativa, absolutamente avessa à tecnologia, enfim, lunática só pode. Duda mal sabia segurar a câmera e só filmou os paises baixos de Luc. Por pouco Luc não desceu-lhe a mão na cara pálida de Duda que não era a Macabéa, mas seu rosto pedia tapa. Clarice deve está revirando-se do túmulo, ah loka. Para piorar de vez, Luc não fazia linha popular, logo perdia espaço para as drags bagaceiras que atraiam o aplauso dazamiga também da bagunça. Ainda bem que Luc não fora gongada nessa performance, bateu cabelo, fez espacate, carão, tudo ostentando mais purpurina que os enfeites da Avenida Paulista em fim de ano. Toda semana, pelo uma vez ela vai à Vinte cinco e não volta com menos de sete sacolas de ítens draguísticos, crendo que um dia, uma noite, o sucesso baterá na sua porta e ela será tão requisitada quanto a própria, presidenta? da nação. Sim, pois ele (a) leva muito a fundo os elementos e ideais do universo drag, tanto que seu sonho mais recente mesmo, é participar de um programa tipo o Ru Paul's Drag Race. Na versão tupiniquim. Óbvio.




domingo, 6 de setembro de 2015

Impressões sobre "Que horas ela volta?"

Nesse feriado, aproveitei para conferir o premiado filme “Que horas ela volta?”, estrelado por Regina Casé (ixxxxqueaanta) e dirigido e roteirizado por Ana Muylaert, que ao que parece, será um sucesso de bilheteria por aqui devido ao roteiro que aborda importantes questões sociais, tão em voga ultimamente, e às interpretações de Regina Casé e Camila Márdila, que foram agraciadas no festival de Sundance dividindo o prêmio de melhor atriz.
“Que horas ela volta?” aborda, entre outros temas, a relação patrão e empregado, os limites estabelecidos há décadas que acarretaram nas desigualdades sociais como bem conhecemos. Val (Regina Casé) deixou Pernambuco para viver em São Paulo onde conseguiu um trabalho de babá e doméstica num bairro nobre. Lá, ela desempenha sua função com uma submissão de tal modo que acaba supostamente inserida como parte da família, inclusive por ter desenvolvido uma grande afeição por Fabinho, de quem foi babá. No entanto, Val representa o ideal antigo de servidão, de segregação social, o que é abalado quando sua filha que ela não via há dez anos vem a São Paulo prestar vestibular. Os espaços começam a ser questionados por Jéssica (a filha), uma vez que a mesma pretende cursar arquitetura, e não esconde o incômodo pelo fato da mãe se contentar com um minúsculo quarto de empregada e receber ordens a todo instante.
A interpretação de Regina é um misto de drama e comédia, esse último é oriundo tanto da incorporação dos traços nordestinos as expressões, sotaque, gesticulações, como também pelo próprio ethos da personagem que caracteriza objetivamente o ideal daqueles que seguem fieis aos seus princípios, suas origens, que não questionam valores sociais, apenas se inserem numa categoria estabelecida que veladamente, acaba por ser excludente e acentua os preconceitos e desigualdades. Tal qual a reação de sua patroa , quando sua filha se mostra confiante para prestar uma prova, onde as chances de um pobre ser aprovado são mínimas. A Madame,  exprime um desdenhoso: “ é, o país tá mudando” ao passo que a autonomia de Jéssica atrai a atenção de seu esposo e do filho, de quem Val fez o papel de mãe.
O título “Que horas ela volta?” corresponde à ausência das mães biológicas, Jéssica foi criada longe de Val, que por sua vez criou Fabinho e teve que responder diversas vezes quando a criança indagava pela mãe, que assim como Val, o trabalho não possibilitaria a proximidade com seu rebento, embora com as imensas diferenças designadas pelo nível social de ambas. “Que horas ela volta?” é o tipo de filme que, certamente agrada e também provoca afrontas, pois cutuca aqueles que são contrários a quebra de antigos paradigmas, principalmente no quesito “nova classe social” ou classe emergente, representada na fita por Jéssica que acredita na mudança e que o proletariado pode e deve conquistar um espaço maior.    


sábado, 29 de agosto de 2015

O Fantasma de Canterville

O Fantasma de Canterville foi o primeiro contato que tive com a grandiosa obra de Oscar Wilde, logo fui seduzido por aquela narrativa que, a princípio, como foi nas primeiras leituras que empreendi na vida, julguei ser uma estória infantojuvenil. Embora, pelo aspecto fantástico, satírico e ainda dispor de um fundo moralizante seja realmente aconselhado aos jovens que iniciem suas incursões literárias por este O Fantasma de Canterville ou outros contos Wildeanos, como O príncipe feliz; O amigo devotado, por exemplo.
Certamente, muitos conhecem esse conto, onde, como ecoa a expressão popular “o feitiço vira contra o feiticeiro”, pois o Fantasma de Canterville ver seus três séculos de vitoriosa dominância assombrosa em seu castelo ser ameaçado quando uma família americana muda-se, devidamente advertida sobre sua maldição, para aquele lugar. A partir daí, toda a aura supersticiosa e outros traços que definem as linhagens inglesas e os habitantes de “sangue azul” sentem-se insultados pela família americana e suas maneiras sem o refinamento, tão característico do velho mundo. Cujo refinamento e outros aspectos da finese inglesa  são personificados pelo fantasma de Canterville, além de ser um traço característico da estética de Oscar Wilde.
O fascinante nesse conto é a maneira de Oscar Wilde, sutilmente e até mesmo de modo lúdico expor a superficialidade da aristocracia inglesa, na época (século XIX) presa a um egocentrismo totalmente alheio à praticidade e ideal de progresso do novo mundo, representado aqui pela família americana que para qualquer problema tinha a solução, inclusive para enfrentar um fantasma com um histórico de terríveis crimes sobrenaturais. Esse pragmatismo americano assume contornos satíricos, apesar da sutileza, onde a vítima é a própria sociedade inglesa e seus hábitos e crenças ultrapassados que acabam sobrepondo-se aos nobres sentimentos da humanidade.

O fantasma de Canterville é um texto grandioso por conter elementos diversos como: mistério, humor, crítica social e um olhar para a nobreza do verdadeiro amor. Não surpreende servir de título as várias coletâneas de contos de Oscar Wilde. Sua leitura, consequentemente levará o leitor a conhecer mais da fundamental e maravilhosa obra de Wilde em suas peças, contos, cartas e sua obra prima: O retrato de Dorian Gray.   

domingo, 23 de agosto de 2015

Uma Cama Quebrada e a Alma Devastada


“Nada melhor do que o inusitado para definir ou redefinir o velho.” Este é um excerto da obra literária Urânios, da autoria de Roberto Muniz Dias, que resultou numa adaptação teatral intitulada “Uma Cama Quebrada”. O texto aborda um tema delicado, o qual, poucos  exploram com profundidade esse aspecto do comportamento humano. Falo do poliamor, termo que se refere  ao relacionamento aberto, cujo assunto, divide opiniões mesmo em mentes mais esclarecidas da sociedade ultramoderna.
Em “Uma cama Quebrada” vemos, sob a perspectiva de um terceiro integrante, um relacionamento homoafetivo “supostamente estabilizado” em seu cotidiano onde os componentes (casal + novo integrante) expõem na dinâmica do lar, suas aptidões, seus gostos, etc. Todavia, acabam trazendo à tona revelações até então impensadas. A tentativa de juntar o “amor proteção” e o “amor alimento” assume contornos outros, que não o esperado por quem adentra nessa modalidade poligâmica. Seria a busca pelo amor o ideal de todo indivíduo? Amor e sexo podem ser indissociáveis? Seria o olho da verdade restrito a um único indivíduo? Muitas são as questões que o intenso texto de Roberto Muniz Dias incita e a acuidade, a exploração que atinge o âmago dos desejos responde a maioria delas. Fator primordial, sobretudo a juventude que tende a não procurar informações sobre o que pode implicar a inserção nos relacionamentos e suas modalidades.
O drama intercala a rotina do casal (em terceto) com um monólogo em que o personagem principal dialoga com um quadro de um galo colorido, feito a pedido de um de seus pares. O outro “amor?” pedira que pintasse um poema de sua autoria. Essa atitude estabelece um abalo à harmonia do casal, pelo fato do “outro”, que pediu a pintura do galo, desconhecer o fato daquele gostar de escrever. É traço marcante da escritura de Roberto Muniz Dias a busca pela essência das sensações, dos desejos que por vezes resvalam em ecos da tradição, que inscreve no presente o significado de cada coisa. Por isso o espanto com a ausência de fotografias do casal. Onde estariam às lembranças da vida conjugal, as viagens, comemorações?  Seriam eles um casal “feliz”? Sua inserção naquela relação visava realmente o quê? Seria aquele casal, agora em terceto, a representação de uma relação já fadada ao fracasso?

Uma Cama Quebrada, tem o mérito de abarcar de modo autêntico e ousado as questões que muitos tocam apenas superficialmente. A encenação, expõe ali, aos olhos da plateia um retrato fiel da contemporaneidade em sua busca da resposta a seus anseios amorosos, ou seria suas carências? Mesmo que para isso, tenha que contrariar as regras estabelecidas, as convenções ou o que pode ser mais pungente, quando a própria identidade individual encontra-se esfacelada em decorrência das desilusões.

sábado, 15 de agosto de 2015

Envolto na obra A Teia de germano

Há um dito popular que apregoa “não julgar um livro pela capa”, no entanto, se o livro em questão for A Teia de Germano, de Roberto Muniz dias, esse dito revela-se totalmente descabido, pura falácia. A imagem da capa compõe-se de um mural de correspondências, algumas até sobrepostas a outras, tendem a incutir a ideia de que o conteúdo dessa obra seja um conjunto ordenado de diversas cartas, ou seja, a teia a qual o título alude. Todavia, de que forma esse conjunto (a teia) é engendrada? Que o leitor se prepare para adentrar numa teia instigante, intensa e que uma vez imerso nela, não há como desprender-se sem compartilhar das angústias e buscas das personagens.
O cerne dessa narrativa é uma teia oriunda de um personagem de uma importante obra: “Ilusões da grandeza humana”, que tem Germano como personagem que se desenvolve à medida em que flui o enredo da referida obra de autoria de “Erich H. Writ”. Isso mesmo, A teia de Germano é composta por uma intensa exploração da metalinguagem, como bem observou o jornalista Ben Oliveira. Por isso a opção pela  ficção dentro da ficção, ou melhor, ficções, cada uma com seu respectivo grau de intensidade e reflexão. A premissa soa simples, um excêntrico e renomado escritor, Erich, incube a um “escritor de um livro só”, Lúcio, que se encarregue de suas memórias, entretanto, ao passo que este analisa cartas, fotografias e recorda os três romances aclamados de Erich para escrever sua biografia, envolve-se de maneira obsessiva com os fatos suscitados pelas vivências do outro ( Erich) que começa a enclausurar-se e viver sob a tormenta do seu próprio e traumático passado de abandono.
Lúcio, é o personagem mais angustiante dessa narrativa. Impossível não se sentir tocado pela melancolia que o acompanha em sua posição  existencial indefinida, alocada entre o presente e o passado. Numa tentativa de fundir os dois, além de  sua insana busca pela essência das coisas tal qual, as passagens em que adquire uma vitrola para resgatar um hábito que fora de seu pai. O que é “vivenciado” de forma ritualística, na verdade, Lúcio fez de sua vida um ritual em todos os aspectos, sobretudo nos momentos de solidão em que ele é mais depressivo que a burguesa G.H. e sua comunhão com a barata. Lúcio, entra em comunhão com os  inúmeros relatos que lhe vieram, das estórias ouvidas na infância, passando por Moby Dick, até Ilusões da Grandeza Humana, obra que lhe apresentou Germano e claro, os clássicos da literatura universal.
Devo ressaltar que A Teia de Germano consiste em bem mais que a reconstituição de uma vida, de um autor e suas obras (Erich H. Writ e sua literatura) através de Lúcio. Aparecem outras personagens importantes que foram envolvidas ou influenciadas por Germano, como Isadora, um significativo caso amoroso de Erich, além de Isabela, a agente literária que pouco aparece na narrativa, mas constitui  “peça” fundamental para compreendermos  a formação dessa intricada e envolvente teia. A literatura de Roberto Muniz dias é um emaranhado de sensações, descobertas e movimentos que nos revelam um penetrante olhar para o que somos e por quê?


sexta-feira, 31 de julho de 2015

Tá boa!

Foi ao Rio com um primo e ficou hospedado na casa de parentes. Era um primo de terceiro grau, muito hospitaleiro que pra felicidade dos turistas morava próximo dos cartões postais da cidade. Ele e seu primo, ambos solteiros, livres leves e soltos foram logo no primeiro dia à praia de Ipanema com o primo residente fixo fazendo às vezes de guia turístico. O mar bravo que estava... turistas disputando cada centímetro da areia tomada de guarda-sóis, chinelos e o sol no grau ideal para quem quisesse encobrir a palidez.
O moço franzino e pálido não gostava muito de sol, fresco que era e cheio de mimimi, era um gayzinho todo metido, sem ter onde cair morto. Já seu primo já era bem estabilizado e tinha várias casas alugadas na favela, quer dizer, na comunidade da Bacia povoada majoritariamente por conterrâneos seus do Piauí, lá da terrinha onde o mocinho mimimi sequer voltara depois que fixou-se em Sampa. Ele é daqueles que só por andar pelas ruas em seu ofício de office boy  sente-se pertencente à própria cidade, parte do mobiliário urbano, como um filho adotivo de Sampa... vai olhando os prédios, as centenas de lojas do Pari e ele contribuindo na sociedade.                                                                                                 Bom, mas ele estava no Rio de Janeiro aproveitando os últimos dias de férias. Muitos rapazes gays, creio que a maioria, perde-se totalmente nas questões de gênero, seu primo disfarça muito bem sua orientação sexual, já ele é só mimimi, tão delicado! Não posso omiti que o primo que reside no Rio, sofreu muito na adolescência e em adulto mesmo, era um homossexual que devido a inúmeras decepções acabou por abandonar suas práticas homossexuais (glória a Deus) e casou-se com uma mulher com quem teve três filhos!  Este, disse aos turistas que é muito simples: “está tudo aqui ó, na cabeça.”  Pense, logo mude seus gostos, suas intenções, seus princípios... Ao passar uma jovem conhecida sua ele demonstrou atitudes típicas de um macho: “olha, aquilo que é coisa boa.” Meu CU! Opa ,não estou na história, que ultrapassagem descabida seu narrador de merda.

Esquecendo de contar que logo ao chegarem na praia o primo- que disfarça-bem disse ao franzino: Manu nós duas mergulhamos e o Chagas olha nossas coisas. Então Chagas teve um sobressalto! Nós Duas não, nós dois rapaz! Eles (elas) não seguraram o riso. Imaginem, com bichices na frente de um ex (?) gay. Loucas mesmo, só podem... e os outros conterrâneos a comentar, as línguas ferinas, dizendo que os Chagas era viado porque estava com os primos de São Paulo que gostavam de homens. Quase que eles ofenderam os turistas com esses comentários o franzino fazia que cagava montanhas para o que falavam... essas bicha são terríveis. Lá iam ligar para os conterrâneos que eram tudo pobre igual eles. Eram tudo lavadores de pratos, porteiros, zeladores... logo o mimimi que era formado e tudo... tá boa! Ela tava era se achando a própria garota de Ipanema afinal, come disse o primo ex- gay: Tá tudo na cabeça meu amor.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

Morte e vida almodovariana

Penélope Cruz  em cena deVolver, filme almodovariano
Volver é um filme de 2006 do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Nele, há todas as características que se tornaram marcas registradas do superestimado diretor: forte carga dramática, exposição do universo feminino demasiadamente, a temática da morte, além das famigeradas e já cantadas por Calcanhoto, “cores de Almodóvar”.
Em Volver, Penélope Cruz é Raimunda, uma mulher forte que guarda segredos do passado e vive às voltas com uma filha adolescente, um marido desregrado, uma tia idosa com a memória “daquele jeito” e uma irmã separada. Volver significa voltar em língua espanhola, e é quando Raimunda volta ao vilarejo onde nasceu, cujo lugar é caracterizado por habitantes supersticiosos, que acreditam que os falecidos rondam aquela região. Também nessa região, há fortes ventos que espalham incêndios e supostamente, contribuiriam para os desvios psicológicos de alguns habitantes. 
Logo na cena de abertura, vemos como Almodóvar constrói dramas inteligentes, aparentemente corriqueiros, como privilegia diálogos familiares, sempre através do olhar feminino, principalmente o maternal. De início, vemos que a morte é sempre uma razão definidora das atitudes dos vivos. Raimunda, a filha e a irmã Sole, zelam o túmulo que seria da mãe, logo em seguida visitam a tia idosa, é quando Sole, suspeita de outra presença no recinto. Apesar do cunho dramático, o humor, outra constante em Almodóvar, aqui aparece nos efusivos cumprimentos das mulheres e os exagerados beijinhos triplos, que chegam ao cúmulo da comicidade na cena de um velório.
A atuação da musa de Almodóvar, Penélope Cruz, dispensa apresentações,  ao dar vida a forte e bela Raimunda, uma mãe que no desenrolar da fita reconquista o amor da filha e o de sua própria mãe. Tudo num misto de drama e comicidade. E o que é a vida afinal? Almodóvar mais que ninguém sabe, ao lançar mão das situações mais comuns na vida de qualquer família, além de também abordar o social, ou seja, irrompe as casas e os dramas familiares, como vemos na escolha de qual disfarce estrangeiro seria adotado pela mãe de Raimunda e Sole, quando essa sai de sua condição de fantasma e retoma (sem dirigir palavras) o convívio social trabalhando no salão de beleza de Sole.

Trata-se de um dos melhores trabalhos de Almodóvar, a contar pela bonita história que resgata a importância da família, independente de quaisquer erro (s) os laços de sangue (cores de Almodóvar) são pra vida toda. É por amor que Raimunda livra a filha da culpa de um assassinato, além de poupar-lhe da traumática verdade sobre sua paternidade. E é por amor e redenção que sua mãe (Carmem Maura) assume a condição de fantasma para cuidar daqueles a caminho da morte. Aliás, mais como maneira de consertar erros do passado, o que segundo a doutrina espírita, é a razão dos mortos reencarnarem. Aqui, direto de Madri, Raimunda teve de “Volver” a uma cidade do interior, seu passado e seus traumas ressuscitando o que não estava de todo morto. Voltou para descobrir, junto a sua mãe os tortuosos e absurdos segredos do passado.