domingo, 21 de dezembro de 2014

Coração Rebelde,Mente Sagaz

Numa frase da própria:" eu sou a arte". Eu sei.


        Quando pensamos que Madonna já deu sua contribuição musical ao universo, que não tem mais de onde se tirar uma música realmente boa, eis que ela resurge com Living for love! Tudo é claro acompanhado de muita polêmica. Afinal,ela é o que conhecemos não por ser uma excelente cantora, mas por ser uma artista persistente e acima de tudo, conciente do que é necessário fazer para continuar nos holofotes e no coração dos fãs.
        Há uns dez dias, vazaram duas versões demo de seu novo trabalho. Na semana passada vazaram onze faixas de uma vez. A eterna material girl ficou posseça! Quebrou um ipod e disponibilizou a imagem nas redes sociais, como símbolo de seu coração partido. Pobrezinha! Especulam que, segundo ela, é alguém de sua equipe que está de traíra. Oh really? Inacreditável como alguém tão poderoso como Madge (sou íntimo, posso), se torne vítima de hackers ou traíaras. Uma artista, que já declarou numa entrevista a uma revista portuguesa ser muito matreira.... é difícil não achar que esse vazamento, não seja uma maneira de atrair atenção e lucrar mais e mais. É claro que não é só o lucro que Madge visa, pois suas letras são tão pessoais, que acaba sendo mesmo essa sua atitude, uma maneira certeira de ser quem se é, e ao mesmo tempo, está em sintonia com o mundo mercadológico e competitivo. Se a cultura de celebridades é tão gritante hoje, Madge tem culpa. Madge é uma artista em todos os sentidos: performa eficientemente; chama a atenção das pessoas para causas humanitárias ( colocou o Malawi no mapa); milita a favor dazamiga, ops dos gays; cria refrões tão grudentos que não dar vontade de jogar o chiclete fora; professa uma religião com afinco ( vide trecho do documentário I'm going to tell you a secret); Enfim, Madge não deixa pra ninguém.
      Bem, voltando a falar das faixas que vazaram, algumas tem todo o potencial que uma música de Madge sempre tem: Living for Love, além de cair bem numa pista de dança, ainda conta com  Alicia Keys no piano; Illuminati, mesmo sendo uma versão demo, não finalizada, é daquelas que acaba com a boate, se o dj colocar, as gay deixam o bofe na mão e correm pra arrazar! Rebel Heart é boa, mas fora o vocal de Madonna, é como qualquer outra música house contemporânea. Lembra David Gueta, Avicci (colaborador nesse álbum), enfim, esses produtores mais que em voga em outros trabalhos. Ressalto que as letras Madonna são realmente boas, muitos se identificarão com suas "confissões". Ainda assim, acho que nunca haverá um álbum tão genuino como Ray of light. Music também me leva para outra atmosfera.
      Pois não é que Madge já disponibilizou o álbum para pré-venda! Liberando no i-tunes seis faixas prontinhas aos que comprarem o álbum. Pode-se também,
comprar cada faixa separadamente. Tudo devido aos vazamentos em série. Estratégia mais que certeira: Rebel Heart está em primeiro lugar em vendas de trinta e nove países. Bem na época natalina. Ainda bem que a escolha do primeiro single foi certeira: Living for Love é a música pra balada, pra faxina, pro busão lotado... Magde sempre reverte tudo a seu favor. É uma artista dos palcos, dos negócios, da vida. e do meu rebel heart também. Sempre será.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Criolo: Convoque seu buda

Capa do LP  e CD do Convoque seu buda
       Se “Buda” significa literalmente iluminado, o rapper Criolo através de seu mais recente trabalho Convoque Seu Buda, representa uma tempestade de reflexão e consequentemente iluminação para o povo brasileiro. Não por acaso, o rapper conseguiu o respeito e admiração de feras da MPB, como Chico Buarque e Milton Nascimento. Os primeiros shows do novo disco, tiveram os ingressos esgotados em minutos. Mérito do Kléber e sua sensibilidade e verdade, juntamente de seus colaboradores, produtores e demais envolvidos.

     Convoque Seu Buda é um trabalho no mesmo estilo do seu antecessor Nó na Orelha, porém melhor, na minha humilde opinião. Por quê? Como não curto rap puramente, o que me instigou em Criolo foram suas letras, Não Existe Amor em SP, fisgou-me à primeira ouvida. Ou seja, não é um rap e sim uma “anti- balada” com sonoridade e letra tipicamente urbana. Mais precisamente, sobre o caos urbano, que nos enquadra, engole, nos faz de reféns. Bem, o melhor desse novo trabalho são as múltiplas sonoridades, que mostram toda a versatilidade de Criolo e, o quanto o mesmo se sai bem fora do que seria sua zona de conforto: o rap, que também consta nesse registro, e certamente agradará os fãs de longa data do artista. Quando Criolo adentra outros territórios, o resultado é magnífico. Em Pegue Pra Ela, o artista finca os pés no Nordeste, embalando um delicioso baião à la Alceu Valença, com as vogais abertas (herança nordestina) ele cantarola : “ Toda cultura vira comércio / É o ponto de degradação. Então, se pra cada ponto, processo./ E cada processo uma ação.” Uma das melhores desse álbum. Dar até pra arriscar uns passos, eh forrozinho bom!
      Muito do que Criolo canta (conta) nesse álbum, corresponde aos últimos acontecimentos ocorridos em SP. Protestos nas ruas, “torneira sem água”, ocupação do espaço público por viciados (novo problema velho ou o inverso) entre outros. Tiveram até más línguas que dispararam  que Criolo só faz músicas sobre SP, o que não é verdade. Na já citada Pegue Pra Ela, temos uma homenagem à cultura musical nordestina. Na faixa Esquiva da Esgrima, Criolo entrega suas raízes nos versos: “ É  que eu sou fii de cearense / A caatinga castiga e meu povo tem sangue quente". Como me atento ao sotaque, notei que nessa faixa a palavra “inferno” é pronunciada com o “r” tepe e não o “r” brando típico da pronúncia paulistana. Mas, em questão de acontecimentos paulistas, uma das paralizações ocasionou a Criolo a composição de um samba: Fermento pra Massa, feito a pedido de sua mãe. Com a greve de transportes o  padeiro, assim como muitos peões não conseguiram chegar no trabalho. Resultado: no lar de Criolo restaram os pães murchos do dia anterior. Nessa letra, convergem o humor e a crítica ácida ao sistema político e socioeconômico brasileiro. Toda a letra é um retrato das mazelas sociais, ancoradas aqui nas metáforas da farinha ou massa do pão. Cujo verso que mais me instigou foi: Sonho é um doce difícil de conquistar/ seu padeiro quer uma casa pra morar. Isto é, o sonho denota o doce, impossibilitado pela greve e, no verso seguinte assume sentido conotativo: o sonho da casa própria. Sonho de padeiros e afins, da massa, da qual me incluo. (baixou a Raquel Sheharazade) fazer o quê?

      Daria para explanar sobre outras faixas, como Cartão de Vizitas, que tem a participação de Tulipa Ruiz nos vocais, e também tem uma sonoridade bem “pop”, entretanto resguardo-me ao direito de ficar por aqui. Espero que ouçam Criolo, e passem a enxergar o meio em que vivemos, com a mesma perspicácia que o rapper expõe em suas músicas. É uma experiência iluminadora em muitos sentidos. 

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Um Gozo de Leitura

Adeus a Aleto = Olá! Boa literatura.
       Sempre tentando me interar,  sobre bons autores literários da contemporaneidade, eis que esbarro em Roberto Muniz Dias. Primeiramente, o que me atraiu a lê-lo foi o flerte com a temática homoafetiva, também gostei do título de seu primeiro romance: Adeus a Aleto. Adquiri a obra, entretanto, o  adeus do título resultou numa experiência tão fascinante quanto perturbadora.
       Adeus a Aleto é uma obra difícil para leitores medianos. Uma porque não se restringe à temática homoafetiva, como imaginei. Outra, a obra não apresenta uma linearidade, tampouco é claro o que foi vivido pelo narrador, quanto o que apenas imaginado. Senti-me lendo um romance dentro da técnica e estilo clariceano. Certamente uma das influências de Roberto Muniz Dias. Curiosamente, lembra muito Perto do Coração Selvagem por duas razões: uma pelo fato do narrador relembrar sua infância, quando nasceu a paixão por livros, ocorrida pela traquinagem do roubo de marca-textos. No romance clariceano, Joana rouba um livro sem o menor arrependimento. Outro detalhe “coincidente” é que Joana adulta revive “o fio da infância”; em Adeus a Aleto, o narrador rememora os mais remotos acontecimentos, as descobertas do dom para a fabulação, a descoberta do sexo, etc.

       Outra razão que faz com que Adeus a Aleto não seja tão palatável, é o resgate trazido pelo narrador, de obras clássicas literárias, intercalando a criação literária deste,  com citações, devidamente aspeadas, de tragédias gregas de Ésquilo. Há também menções a clássicos como Otelo, A Divina Comédia, cujo contato, fez com que o narrador de Adeus a Aleto, repensasse a noção de belo e seu oposto. Aliás, uma das tônicas desse romance é a obsessão do narrador por Nikov, um enigmático russo, descrito detalhadamente e de forma poética, como um Deus grego. Até mesmo os impulsos sexuais do narrador, são relatados com uma sublimação que torna o ato sexual num ritual de contemplação e torpor. Muito além, da selvageria que uma entrega homoafetiva masculina costumeiramente significa. Como atesta Nikov, sobre a literatura do escritor: “Sua poesia me fez gozar.” Sim, o narrador dessa estória é escritor, e vive atormentado pelos seus personagens, tanto que tira-lhes a vida, já que sua intuição literária, não limita-se ao seu “ele mesmo”. Assim como Fernando Pessoa, esse escritor também decidiu criar heterônimos, pois suas primeiras estórias, eram limitadas pelos “eufemismos”. Precisava de mais liberdade para criar e também dar fim a seus personagens.
       Muito mais que narrar experiências em cidades como Amsterdã e Paris. Bem mais que relatar aventuras excitantes com poesia, ou simples copulação. Adeus a Aleto constitui-se, de resquícios de um passado marcante; da força das obras clássicas que definiram o homem, com tanta eficiência, que o que vemos hoje já não nos impressiona. E claro, da capacidade de criar, modificar-se, pela linguagem, buscando a poesia, mesmo abdicando de eufemismos e dando um toque de realidade ao que se imagina e se quer criar. Imagino, logo vivo. Nada mal para um autor, ainda, pouco conhecido como o piauiense Roberto Muniz Dias.


domingo, 30 de novembro de 2014

Ossos de Uma Escritura



Marcelino Freire e seu romance de estreia: Nossos Ossos


       O primeiro romance do escritor Marcelino Freire, Nossos Ossos, segue o mesmo estilo dos contos desse autor. Tanto na escolha das personagens, a temática, quanto no emprego de recursos, como a rima dentro da prosa, etc. Essa obra, chamada por Marcelino de prosa longa, é na verdade um trabalho pungente, bem estruturado e que não resume-se ao teor da estória, assim como a boa obra literária deve ser.
       Nossos Ossos, constitue mais um daqueles casos, em que se misturam ficção e realidade. O que é facilmente percebido, para quem já leu Marcelino e conhece um  pouco sua tragetória. O narrador de Nossos Ossos, é um dramaturgo bem sucedido, que recorre aos serviços de michês, e fica extremamente abalado com o assassinato de um deles, ao qual sentia alguma feição. Sabendo então, das parcas condições em que o "boy" vivia, decide levar o corpo para ser enterrado em sua terra natal: o  Nordeste. Mais precisamente, numa cidade do mesmo Estado seu: Pernambuco. O protagonista Heleno, é de Sertânia, o boy, de Poço do Boi. Eis aí um jogo linguístico, típico da prosa freiriana. 
       Essa "prosa longa" não se limita a relatar o submundo noturno de uma metrópole, com seus inferninhos, frequentadores e afins, Heleno de Gusmão, o protagonista, evoca lembranças desde a mais tenra infância, em que uma das brincadeiras com seus irmãos, era desenterrar ossos no quintal de casa. Os mais variados tipos de fósseis, restos da humanidade, armaduras de guerreiros. Como o começo e o fim de uma jornada heróica, Heleno criança desenterrava, o adulto devolvia ao solo, os ossos (do boy), que outrora, lhe proporcionara os prazeres da carne. Puro prazer sexual, intuito de quem contrata profissionais dessa área: "como todo sexo bom deve ser, feito aquele que fazíamos, sem sentimento." (pag. 54). 
        A vida desse herói, Heleno de Gusmão, é contada com uma sensiblidade aflorada, através de uma verborragia que expõe os ossos da narrativa, e também na narrativa. Nossos ossos do ofício, que são os dissabores por quais passamos. Essa narrativa, retrata a vida de muitos nordestinos que buscam sobreviver e se libertar dos medos, desabrochar através da arte. Arte, algo mais comum na categoria LGBT. Algo que encontra lugar, mesmo as duras penas, na cidade grande, e como sempre é São Paulo que acolhe tudo e a todos. É a sina de quem deseja experimentar a vida, em todos os sentidos. Esse fator, certamente contribui para o acolhimento da obra, o reconhecimento do leitor na narrativa. Há de se ressaltar, que Nossos Ossos, constitui-se de uma epopéia fúnebre, onde as impressões do mundo-cão percebido por Heleno, são narradas com um lirismo arrebatador. 
         Se Marcelino Freire já goza de certo prestígio na literatura brasileira, já foi agraciado em várias premiações, tendo suas obras analisadas por acadêmicos, isso é devido a sua eficiente maneira de retratar as angústias e os sabores, os mais diversos dissabores por quais passam os descentralizados da sociedade. É esse olhar visceral da metrópole, com suas mazelas e o mal necessário que nos sustenta, que Marcelino expõe e comove o leitor. Nossos Ossos, com sua poética e final surpreendente é leitura obrigatória.
   

domingo, 23 de novembro de 2014

Weirdo



       Entro na loja,olho as ofertas, reolho... nada do que preciso. Tanta coisa útil pra fazer e eu a sucumbir a impulsos consumistas. Como as mulheres, que possuem o guarda-roupa abarrotado, e exclamam: não tenho nada para vestir! Enchi-me de nada. Aliás de tudo. Farto de tudo. Dos impostos, das filas dos bancos, supermercados, pra tudo tem fila, inclusive pra morte. Pra morrer, de modo generalizante, não sentimos a mesma impaciência de aguardar na fila: morre-se a qualquer segundo, basta um desastre orquestrado pela falha, que faz parte de nossa condição. Condição que herdamos do macrocosmo, sendo microcosmo que somos. 
      Então, agora, estou com um café fraco, um cigarro apagado, um livro por começar a ler... sendo copiosamente obrigado a ser eu mesmo. Prostrado como um pária. Um inútil. Vi filmes que não tenho a menor ideia de para quem falar deles. Eu. "você não sabe nem se expressar". Disseram-me. Nunca esqueci. A mesma pessoa disse-me: "aqui nessa indústria vital, ninguém é amigo. É tudo fachada." Eu, o Macabéo. Só sei mesmo é apreciar a entrega à vida, que os bem resolvidos, nessa terra expõem. É tudo tão familiar aos outros... Os significados atribuidos a qualquer coisas são aceitos numa boa. Quase ninguém questiona nada. É. Ficou pra ser assim. Cresci ouvindo coisas desse tipo. E não é nada confortável está na pele de quem não entende. "Se eu entender estou errando". "Entender é a prova do erro." Concordo em tudo que essas duas frases exprime. Se entendo, é porque errei ou errei porque sou imperfeito. Afinal pra que querer a perfeição? Já que, por aqui todo mundo (quase) erra pra caramba, porque há um ser supremo (????????????) que tudo perdoa. É cômodo demais isso, digo viver acreditando nisso. Eu, literalmente, não existe para estes. 
       A professora do ensino médio, há uns quinze anos atrás, dissera: "uns 99% das coisas não presta ou não gostamos". Por que isso me veio a mente? Oh fossa em que me encontro! Pudera fazer tudo diferente. É uma necessidade. Tou é farto da minha falta de "lirismo comedido". Bakhtin a culpa é toda sua. Você e esse seu dialogismo,  é que me faz lembrar de poemas, outros discursos seculares e afins. Melhor assim, ainda bem que os discursos ultrapassaram o jardim do Éden. Eu que não queria conversar com o Adão, com a Eva, com a serpente (cruzes)... ficar só comendo as frutas, a do conhecimento eu como bastante. Pra que me serve esse conhecimento? Não faço a menor ideia... basta ver o agora: tou obrigado a ser "penosamente" eu mesmo. Não que eu queria ser outra pessoa, isso não tem lógica. Mesmo quando esse corpo se for, a essência eduardiana soprará noutro. Resolverei meus infinitos carmas, até... entrar no nirvana, que não é aquela banda, é outra coisa mais importante. Poucos sabem, por enquanto. Sou otimista.
     

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Uma Deliciosa e Letal Narrativa



     O livro O Clube dos Anjos, de Luis Fernando Veríssimo, faz parte da coleção Plenos Pecados da editora Objetiva. Foram escalados sete autores, e a cada um deles, foi dada a tarefa de escrever sobre um dos sete pecados capitais. Para Luiz Fernando Veríssimo destinaram o pecado da gula. O resultado foi uma narrativa tão prazerosa, como é a sensação de se comer algo delicioso. A leitura com sua trama ágil, e com um aparente mistério, é um convite à reflexão sobre vários aspectos da humanidade. Tudo contado com o humor peculiar da prosa desse autor contemporãneo. 
      A história é narrada por Daniel, que relembra como ele e mais nove amigos, todos com um apetite insaciável, fundaram o Clube do Picadinho, clube este que tinha como "missão"  saborear o picadinho do bar do Alberi. Conforme os membros do clube foram crescendo, cada um com certo talento para o fracasso pessoal e proficional, as reuniões do clube para celebrar seu prazer maior, foram se tornando mais sérias, sofisticadas até. Isso porque um dos integrantes do clube, Ramos, apresentou aos demais, vários pratos finos, como "Canard à l'orange, boeuf bourguignon,etc. Os jantares,sempre na casa de um dos membros, era um verdadeiro ritual, onde celebravam o desejo, sempre reincidente, de comer e comer. Celebravam seus fracassos e a ostentação do apetite. Ramos, o mais requintado de todos, recitava trechos do Rei lear, de Shakespeare, para ele Shakespeare e cordeiro com molho de menta, eram as únicas contribuições da Inglaterra para a civilização ocidental. O restante do grupo ouvia seu discurso com admiração.
    Para o abalo do clube, Ramos morre, em decorrência da Aids. Os jantares suntuosos, perdem o anfitrião e todos ficam receosos a fazerem novos jantares. Entretanto, Daniel, o narrador-personagem, conhece Lucídio, que se dispõe a ouví-lo contar sua história do clube do picadinho. Lucidio é descrito com um certo mistério, provocando até calafrios em leitores mais sensíveis. Ele, prepara uma omelete a Daniel, e fisga-lhe, obviamente pelo seu ponto fraco: a gula; Se oferece para cozinhar para o grupo, mostrando de maneira subliminar, conhecer algumas coisas a respeito do clube do picadinho e seus gulosos membros. Ainda receosos pelo desconhecido Lucídio, e em respeito ao falecido Ramos, decidem reunir o clube num jantar. No final do jantar o cozinheiro anuncia ter sobrado uma porção. Aquele que se dispõe a comê-la, morre em poucas horas. Logo na segunda morte, eles ficam desconfiados, pela tragédia ter ocorrido sempre após o farto jantar. Isso, não os impede de realizarem os próximos jantares, ao contrário, ficam excitados em saborear um prato feito por tão caprichoso cozinheiro. Este, sempre seguindo a tática da porção final. Mesmo alertados pelos familiares, os membros, que por enquanto ainda existiam, vivem criando hipóteses, sobre quais seriam as razões do plano diabólico de Lucídio de acabar com os membros do clube do picadinho. Fato que só fazia aumentar o desejo de saborear as iguarias requintadas. Seria vingança? Vingando o quê? E  quem? 
    Essa narrativa transcorre facilmente, ao leitor, logo é mostrado ser Lucídio, o autor das mortes. o trunfo dessa obra, é a construção de uma narrativa ágil, que estimula nossos sentidos, para sentir as várias formas de viver e saborear não só o que é degustável, mas os desejos de cada um dos personagens, com suas diferenças, tão humanas. Da erudição de Ramos, ao talento para a escrita do narrador-personagem Daniel; a sordidez de Samuel; a sagacidade de Kid Chocolate, entre os demais, que se entregaram ao prazer que nunca acaba, e que acabara com eles, ficando só Daniel pra contar a história. 

P.S. Agora tenho que ler Rei lear de Shakespeare, para entender melhor os vários atos dessa peça intercalarem essa narrativa.

domingo, 9 de novembro de 2014

Spiritual Boy


       Sim, desde os primórdios procurei a proteção de alguma divindade. Aliás, seria quase impossível não encontrar, quando se nasce e se é criado num povoado católico ao extremo. Lá todos sabiam os dias dos santos, inclusive o nome do povoado, era de um deles. Nas missas o hino do santo padroeiro é cantado com um fervor imensurável. Povoado pequeno de grande maioria católica, seguir outra vertente cristã, diga-se: evangélico, não se é de bom grado. Imagine uma religião não cristã. Um tradicionalismo, um apego a terra e seus costumes antiquíssimos, são características imexíveis para esses habitantes. As modernidades vistas pela TV e redes sociais, não altera em quase nada a mentalidade dos habitantes. Embora isso lá tenha seus pontos positivos, pois muitos dos conteúdos e ideologias propagadas não são de grande valor mesmo.
     Bem, religião, com o passar das décadas fui desgostando dessa palavra. As inúmeras subdivisões das igrejas, mesmo sendo o objeto de devoção das mesmas um só, paira no ar a questão: porque se o objeto de fé é o mesmo, e esse mesmo objeto é analisado através de semelhante escrito, a Bíblia sagrada, qual a razão de que numa doutrina não se é permitido um padre casar? Noutra não se pode fazer transfusão de sangue? noutra as"servas" usam aquelas saias horríveis até a sola do pé? E quando usam saia até o joelho calçando um tênis? É o cúmulo do mal gosto! Tantas sandálias rasteirinhas bonitas, melissas... oh breguice!  Ainda bem que Alexander Mcqueen não habita mais nesse plano. Ele teria uma síncope se visse isso. Sim, essas crendices cristãs me dão nos nervos. Não pode isso, nem aquilo, mão naquilo, aquilo sabe-se lá onde... por isso se vê o que acontece por trás dos altares. Vê-se também a hipocrisia de muitos que se dizem crentes, que são pretensiosos até o último fio de cabelo. O homem pode é abraçar essas religiões, que não consegue escapar da sua condição de fraco e imperfeito. Daí o dizer: a carne é fraca. Mas e a alma? A esta resta, carregar a dor por ter sucumbido a sua maldade inerente.
       Uma muito conhecida minha, quase parente, ficou estarrecida ao saber que larguei o cristianismo. Ela, devido a muitas provações, entregou-se a Cristo de corpo, alma, cabelo e maquiagem. Gosto muito dela. Mas eu já nasci desobedendo os padrões impostos e tão compreensíveis por todos. Todos do meu povoado. Eu, o renegado, um marginal. Salvo por uma falsa inteligência. É só o que tenho: uma sensibilidade a flor da pele, mas que porta um abismo no lugar de um coração. Passei a embarcar noutras filosofias, que não as cristãs. Como um jovem praticante dissera: de Deus, retire o D e o S. Pois é exatamente nas letras que restou, que passei a nortear minhas atitudes para o próprio bem e o de todos. Do contrário seria egoísmo. O que não é bom. Não estabelece um vínculo recíproco com o outro. Altruísmo é reconhecer a dignidade de todos, já que somos formados da mesma matéria, e voltaremos ao pó. De cinzas, que eu que não quero ser enterrado pra terra me roer até os cabelos, como naquele poema do Augusto dos Anjos. Quero a iluminação de um Buda. Ei de manifestar o meu estado de Buda.Tenho que evitar ao máximo expressar minha ira, é tão de mim perder a linha porque qualquer bobagem. Mentalizarei o mantra da iluminação, sempre que uma ameaça der os primeiros indícios.